terça-feira, 1 de junho de 2021

OS CAMINHOS DA UMBANDA

Religião nascida no Brasil prega a caridade e o livre arbítrio

Não é um caminho fácil. É um caminho de muito fundamento, de muito preconceito. Mas, para aquele que se entrega, é um caminho lindo”. É assim que o advogado Cristian Moraes define a trajetória para quem escolhe a umbanda como religião.

A Umbanda nasce como reflexo da miscigenação que tanto caracteriza o Brasil. É um conjunto do catolicismo — a religião do homem branco -, dos rituais indígenas — a origem do povo brasileiro -, e dos cultos afro — dos negros que, sem querer, foram trazidos para cá. A antropóloga Lígia Magalhães afirma, “ainda que os candomblecistas talvez não concordem com isso que eu estou falando [risos]”, que a umbanda é a única religião nascida no país. Isso porque o candomblé nasce na África e vem, com os escravos, para a América do Sul. Ainda que os povos indígenas que aqui habitava tivessem suas crenças, a concepção de Brasil como terra começa depois da chegada dos portugueses, e que também tem como elemento a escravidão africana.

“O Brasil é uma mistura das culturas, e a umbanda representa isso”, conta Lígia, que é capitã — espécie de auxiliar do pai de santo — na CDO. Justamente devido a essa mistura é que a religião é bastante complexa, de muitos fundamentos.

Em termos gerais, a umbanda surge no Rio de Janeiro, em 1908, quando o médium Zélio Fernandino de Moraes, então com 17 anos, incorporou um espírito que se apresentou como Caboclo das Sete Encruzilhadas. Um tempo antes, fatos estranhos começaram a acontecer em sua vida. Zélio sentia vibrações e, em alguns momentos, era visto com a postura de um velho, falando manso e com sotaque diferente de sua religião. Em outros, discorria a respeito dos mistérios da natureza. Aqueles ao seu redor achavam que o rapaz poderia estar doente ou, pior, com uma possessão psíquica! Após ser acometido por uma paralisia parcial e se curar, de forma aparentemente milagrosa, o jovem foi encaminhado a um centro de mesa branca, onde ocorreu a manifestação de um espírito

“Se é preciso que eu tenha um nome, digam que sou o Caboclo das Sete Encruzilhadas, pois para mim não existirão caminhos fechados. Venho trazer a umbanda, uma religião que harmonizará as famílias e que há de perdurar até o final dos séculos”, teria dito aos que lá estavam. Surge, então, a Tenda Espírita Nossa Senhora da Piedade, primeira casa de umbanda e que existe até hoje.

Ao contrário de outras religiões, a umbanda não é codificada. Nesta crença, portanto, não existe documento equivalente ao Código de Direito Canônico, por exemplo, que organiza a Igreja Católica Romana. Pelo fato de o Brasil ser tão extenso, cada região com suas características, os terreiros têm, cada qual, suas peculiaridades, ainda que a raiz seja a mesma.

“O que é, verdadeiramente, regra geral e absoluta para se saber sobre a religião é que não pode haver cobrança financeira e não se pode usar do sangue de animais. Então, tudo aquilo que tem uma manifestação de um espírito e é feito pela caridade, sem sacrifício de animal, pode hoje ser reconhecido como umbanda”, esclarece Cristian.
Oxalá ou Jesus Cristo?

Quem já leu ou assistiu a uma das inúmeras adaptações de “O Pagador de Promessas”, peça fundamental do teatro brasileiro, nascida da cabeça e das mãos de Dias Gomes, certamente se lembra que o simples Zé do Burro, devoto de Santa Bárbara, pede à divindade que cure seu pobre quadrúpede. Como não havia igreja dedicada à santa em sua pequena cidade do interior baiano, Zé do Burro faz a promessa em um terreiro de candomblé, onde Santa Bárbara é conhecida como Iansã.

Embora seja uma crença monoteísta, que tem na figura de Olorum um Deus criador, supremo, a umbanda, assim como outras religiões afrodescendentes — como o candomblé a que Zé do Burro recorre -, cultua orixás. Forças da natureza, os orixás são responsáveis por emanar a luz que vem de Deus.

Quando os escravos aqui chegaram e quiseram continuar com a prática de sua fé, a saída encontrada para evitar possíveis represálias dos homens brancos e cristãos foi associar aos orixás santos católicos que pudessem representar cada um deles. Assim, o sincretismo trouxe a aproximação das religiões com raízes africanas ao catolicismo, dentro do que cada orixá se aproxima com o que foi santificado na religião católica.

Cristian conta que até hoje essas imagens são utilizadas nos terreiros porque é comum que muitas pessoas procurem a umbanda em momentos de desespero, com dor, com uma necessidade de salvação. “Ao se deparar com um congá [como é chamado o altar na umbanda] que tem a imagem do santo a quem essa pessoa se devotou desde pequena, ela se sente mais próxima, acolhida”, afirma o pai de santo.

De forma básica, a umbanda cultua sete orixás (saiba mais no PDF interativo abaixo). Oxalá representa a fé, a religiosidade, o amor, e está sincretizado com Jesus Cristo. Oxum é o amor, encontrado na água doce e cultuado nas cachoeiras, e que tem Nossa Senhora Aparecida como figura equivalente no catolicismo. Oxóssi, comparado a São Sebastião, está nas matas e irradia o conhecimento. Xangô, orixá da justiça, é cultuado nas grandes pedreiras e está sincretizado com São João Batista.

Ogum, São Jorge, representa o caminho da lei e tem nas estradas seu ponto de oferenda. Iansã, a Santa Bárbara de Zé do Burro, trabalha em conjunto com Ogum e aplica a lei, recolhendo aqueles que estão desvirtuados. “Iansã é cultuada nos bambuzais, nas grandes tempestades, na força da chuva”, explica Cristian. Talvez o mais conhecido dos orixás dentre aqueles que não são umbandistas, Iemanjá é a rainha do mar, que simboliza o amparo de mãe. Se Oxum é o amor que se tem por tudo de forma equilibrada, Iemanjá é o amor maternal. É sincretizada com Nossa Senhora dos Navegantes.

A sabedoria dos espíritos

É importante salientar que os médiuns umbandistas, diferentemente dos candomblecistas, não incorporam os orixás, ainda que os cultuem. Quem é incorporado são espíritos que já passaram pela terra, chamados de guias, que atuam na força de um determinado orixá e integram uma linha de trabalho. De forma grosseira, pode-se dizer que as linhas de trabalho são as classificações dos espíritos que se manifestam na umbanda.

Em sua origem, apresentaram-se à umbanda espíritos de apenas três linhas de trabalho, que ficaram conhecidas como “linhas da direita”. Tanto é que o símbolo tradicional da religião é o triângulo. Os outros guias, por sua vez, apresentaram-se à medida em que a crença evoluiu. Essas linhas originais, por assim dizer, são os Caboclos, os Erês e os Pretos Velhos. Com o arquétipo do homem forte, que trabalha, os Caboclos conhecem os mistérios das ervas e da cura. Já os Erês são as crianças, que trazem pureza, sonho e alegria. “Aquilo que, muitas vezes, está adormecido dentro de nós”, diz Cristian. Os Pretos Velhos, por fim, são a sabedoria e a humildade, a voz baixa que traz a esperança para o amanhã.

“A umbanda é mudança de consciência universal.” (Cristian Moraes, pai de santo)

Conforme a umbanda cresce, outros guias começam a se aproximar, integrantes das chamadas “linhas auxiliares” e “linhas da esquerda”. Integram as auxiliares os Ciganos, os Marinheiros, os Baianos e os Boiadeiros. Há também os Malandros, que trabalham tanto à direita quanto à esquerda. Os Ciganos trazem a valorização do momento, de aproveitar o agora, enquanto os Baianos representam a fé do homem simples. Os Boiadeiros, que trabalham muito na frequência de Iansã, laçam espíritos perdidos e os orientam para o caminho da lei espiritual, enquanto os Marinheiros, com Iemanjá , limpam o ambiente a fim de trazer alegria e conforto. Com Zé Pelintra como uma de suas entidades mais conhecidas, os Malandros acreditam que a vida deve ser direcionada da forma com que os malandros de antigamente faziam, de que há sempre um jeitinho para se estar bem diante das dificuldades.

Talvez a mais marginalizada das linhas da umbanda, a linha de esquerda é dos Exus e das Pombagiras. “É comum que pessoas leigas digam que elas são representações do demônio, ligadas ao satanismo, mas não é nada disso”, fala Cristian. Essas entidades, nada mais são, espíritos que possuem um conhecimento muito grande do plano material, da frequência terrena.

“Há muita gente que procura a umbanda sem estar disposta para obter autoconhecimento de forma imediata. Imagine alguém que perdeu o emprego, levou ‘um pé’ da mulher, descobriu que tem uma doença… Essa pessoa chega ao terreiro e, muitas vezes, não é o Preto Velho dizendo para ter sabedoria, o Caboclo indicando um banho e ervas ou uma criança que avisa ‘tio, fique feliz!’ que vai acalentar o coração dela”, exemplifica o advogado.

Por motivos assim é que guias com uma maior compreensão da dor humana se apresentaram à umbanda. Os Exus neutralizam, retiram a densidade da carga com que a pessoa chega ao terreiro, e encaminham para as Pombagiras, que movimentam, abrem caminhos, trabalham por amor e prosperidade. Segundo Cristian, “essas figuras, portanto, não têm nada a ver com satanismo, com figuras horrorosas que se colocam por aí. Elas têm a permissão divina para ingressar nas vibrações energéticas mais densas e sombrias possíveis com o intuito de restabelecer o equilíbrio do ser humano”.

Para ajudar o médium a entrar em uma frequência de acesso aos guias com maior intensidade, para “facilitar o transe”, como diz Cristian, os umbandistas lançam mão da música, por meio de canções que eles chamam de “pontos”.

Além dos pontos cantados, há os pontos riscados, um dos instrumentos mais poderosos da umbanda, que servem para delimitar a área de atuação de um guia durante um trabalho. O que, exatamente, os desenhos significam, permanece um dos maiores mistérios da religião.

“Ele [o guia] faz o risco para que todo o trabalho fique concentrado nesse lugar. Imagine, por exemplo, se o guia está trabalhando com uma energia densa. Se não houver essa limitação, a energia do trabalho vai se espalhar para todo o terreiro”, conta o pai de santo.

Lígia explica, contudo, que mediunidade não é sinônimo de incorporação. “Médium é aquela pessoa que tem a sensibilidade para lidar com o imaterial. É alguém que tem a crença e a consciência do mundo espiritual, e tem a sensibilidade de trabalhar junto com esse mundo realizando ações aqui”, afirma a antropóloga, que trabalha com a questão sensitiva. Cristian, por outro lado, incorpora espíritos, tarefa que exige muito estudo e preparação, da mente e do corpo. Ele esclarece que dizer que um médium fica 100% inconsciente durante um trabalho é mito. Existem, é claro, momentos da gira — como se chama o principal ritual da umbanda, comparável à missa para um católico — que exigem um grau de consciência pequeno por parte do médium, talvez pela intensidade do trabalho.

“A umbanda é mudança de consciência universal. Que religião seria essa em que um espírito com tanta coisa boa para ser passada não traz essas coisas boas para seu médium? O médium é quem mais precisa ouvir, aprender, quem mais precisa estar ciente do que está acontecendo. Por isso é que o médium tem, sim, consciência de boa parte do que está acontecendo, mas em graus diferentes. Às vezes é 90% a entidade e 10% o médium. Às vezes é 70% a 30%, muitas vezes 50% a 50%. A gente costuma dizer que é café com leite. Tem dias em que você toma com mais café, outras com mais leite. Assim é a relação entre médium e espírito”, explana Cristian.

As bebidas alcoólicas e o charuto, muito criticados por aqueles que atacam a umbanda, são utilizados com papel específico dentro de uma gira. A fumaça, também utilizada na Igreja Católica, por meio dos incensos, tem função de limpeza e descarrego. Já o álcool facilita o acesso dos espíritos ao plano terreno. Nesse sentido, tudo o que está no terreiro tem uma razão de ser.

“Os chapéus, as estátuas, todos eles estão aqui cumprindo uma função. Nada aqui dentro é apenas uma estátua, uma peça de gesso, um quadro, um leque. É um elemento que deve estar aqui para os trabalhos que a cada realiza. Eles são sagrados, são consagrados pelas entidades”, ensina Lígia.

Tanto o material influencia no trabalho realizado na umbanda que uma prática comum na religião é realizar oferendas aos guias e aos orixás. Muitas vezes vista como “macumba” ou “magia negra”, essas oferendas nada mais são que uma forma de agradecer e de se aproximar de um espírito ou de uma força que muito te ajudou.

“Aqui no terreiro a gente sugere as oferendas a cada orixá pelo menos uma vez ao ano, por mais simples que sejam. Para o meu pólo energético do conhecimento estar aflorado, vivo, eu preciso, pelo menos uma vez ao ano, ir à mata, respirar a mata, sentir pai Oxóssi, acender uma vela e me alimentar daquela energia. Ir a uma pedreira e sentir pai Xangô, e por aí vai”, exemplifica Cristian, a respeito das oferendas aos orixás.

Já as oferendas para os guias são indicadas pelos próprios espíritos, e podem variar de carne crua a farofa, de cachaça a espumante. Os locais para o depósito dessas oferendas também são indicados pelos guias. Pode ser uma esquina, um trilho de trem… Tudo depende de qual é a linha de trabalho da entidade em questão.
Enfeite ou proteção?

Quem acompanhar uma gira, certamente irá reparar que os integrantes da corrente espiritual utilizam grandes e coloridos colares no pescoço. Mas para que eles servem, afinal?

Chamados de guias — o mesmo nome que se dá aos espíritos que realizam trabalhos na umbanda -, esses adereços são utilizados como uma espécie de para-raios para o médium durante um trabalho, a fim de evitar que energias muito densas atinjam diretamente a pessoa. “Às vezes acontece, numa gira muito pesada, da guia de alguém estourar. A gente trabalha com energia”, conta Cristian. Por isso é que, de tempos em tempos, recomenda-se que os médiuns façam uma reenergização, uma limpeza, dessas guias, em água corrente e até com ervas específicas.
Sem pecado

Os umbandistas, ao contrário da maioria dos seguidores das religiões ocidentais, não acreditam em pecado. Para eles, que têm na vida e no livre arbítrio dons primordiais, é tudo uma questão de causa e consequência. “É claro que não vamos dizer que, por exemplo, matar uma pessoa é correto, porque a vida é sagrada… Mas você vai arcar com as consequências das suas escolhas”, diz a antropóloga.

E a homossexualidade? É condenada pela umbanda? Lígia esclarece que “a sexualidade humana, desde que não seja utilizada de maneira a cometer violência ou a influenciar o livre arbítrio de alguém, desde que seja praticada entre pessoas conscientes, que sabem o que estão fazendo, que o fazem de livre e espontânea vontade, é irrelevante para a vida espiritual”.
Medo do desconhecido

A umbanda talvez seja uma das religiões que mais sofre preconceito por parte daqueles que não a conhecem. Além do medo do desconhecido, Cristian acredita que muitas coisas praticadas, supostamente, em nome da religião corroboram para a discriminação. Terreiros que cobram pelo trabalho e “pais de santo de poste”, aqueles que lançam mão de nomes de orixás prometendo amor, são citados pelo advogado como exemplo da falta de credibilidade que a umbanda pode trazer. Lígia também atenta para o fato de a umbanda ser uma religião afrodescendente, de negros, num país que ela considera brutalmente racista.

“Por que os Exus são demônios e o cara que faz psicografia é quase considerado um novo Jesus Cristo? Porque um é negro. ‘Exu’ é uma palavra negra, é e uma tradição africana, e o outro vem da França”, opina.

Justamente por conta desse preconceito é que muitos confundem umbanda e candomblé. Lígia acredita que “tudo o que é negro, a gente trata de maneira amorfa. Fica mais fácil de disseminar o preconceito. Mas são duas religiões diferentes”.
Mas é umbanda ou candomblé?

O próprio Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), em pesquisas, não difere umbanda de candomblé. Por isso fica até difícil precisar com exatidão quantos brasileiros são umbandistas. No censo de 2010, 0,3% da população se declarou umbandista ou candomblecista, com maioria — 0,5% — concentrada na Região Sul.

De forma sintética, até porque ambas as religiões são bastante fundamentadas, as diferenças principais são que o candomblé aceita o sacrifício de animais e não cultua espíritos que já passaram pela Terra, como os Caboclos e Pretos Velhos. No terreiro de candomblé, os médiuns incorporam os próprios orixás e todo o ritual é feito por meio de danças e oferendas, uma vez que os orixás não falam.

Sobre a matança de animais, Cristian explica que ela é feita de forma fundamentada, pois o sangue é utilizado por sua energia vital. “É importante que se diga que o animal eleito para a oferenda ao orixá é sacrificado pela mão do candomblecista. Há toda uma preparação para que esse integrante ‘tenha mão’ para isso”, explica. Depois, todas as partes do animal são transformadas em comida, distribuída à comunidade ou dentro do próprio terreiro.

“É até mais louvável utilizar o sangue de um animal para uma oferenda e depois aproveitar o resto como alimento, do que matar um boi para vender no açougue. É que, talvez, o ato do sacrifício traga um pouco de impacto”, divaga o pai de santo.

Para quem ainda tem preconceito, seja com a umbanda ou com o candomblé, o recado de Lígia é para que as pessoas se permitam enxergar o outro sem tantas barreiras, preconceitos ou pré-conceitos. “Baixar a guarda e entender que diferenças sempre existiram, que sempre vão existir e essa é a grande riqueza do ser humano”, finaliza.



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