quinta-feira, 3 de outubro de 2024

JOGO DE BÚZIOS

Mérìndilogún – 16 Búzios.

No Brasil foi introduzido o jogo de divinação feito com 16 Búzios (kawrís), sistema trazido e aperfeiçoado na África por Bamgbose Obitikú (Rodolfo Martins de Andrade) para as iyás do Ilê Axé Iyá Nassô Oká, mais conhecido por Casa Branca do Engenho Velho, por volta de 1830.

Sistema que se espalhou por todo candomblé brasileiro, pela sua simplicidade e independência de Bàbálàwós, o “Mérìndilogún
– jogo de 16 Búzios” com mais de 70 caminhos e desdobramentos.
Abaixo relacionei a minha visão desse sistema, uma leitura basica sem predizer nada, apenas uma síntese e com profundo respeito a Órùnmìlá, peço agô.

16 Búzios e 16 odús principais, são eles:

1-Òkàràn Méjì – 1 aberto e 15 fechados
-este é odú principal de Exú, podem aparecer Egun, Oyá.
Este caminho representa a magia boa e ruim.
-(ówe)provérbio:
“A imprudência é o venemo da continuidade”.

Éjì Oko Méjì – 2 abertos e 14 fechados
-neste odú falam principalmente Oxalufon, Ibeji e Abikú.
Representa a sabedoria, a conciência e a clarevidência.
-(ówe)provérbio:
“Deus não impôes aos ignorantes a obrigação de aprender, sem antes ter exigido dos sábios, o juramento de ensinar”.
Étà Ògúndá Méjì – 3 abertos e 13 fechados
-este é o odú principal de Ogun e nele podem aparecer Omolú, Yemanjá. Representa o esperma, o poder e a certeza.
-(ówe) provérbio:
“O assassino culposo e o ladrão nato, não são homens de guerra”.
Ìròsún Méjì – 4 abertos e 12 fechados
-neste odú falam Oyá, Egun, Yemanjá e Oxóssi. Representa a cavidade, o abandono e a renúncia.
-(ówe) provérbio:
“A terra-mãe, se penteia com a enxada”.

Òsé Méjì – 5 abertos e 11 fechados
-neste caminho falam Omolú, Oxun, Yamí, podem aparecer Oyá, Xangô e Exú.
Representa a dor, o pesar, a espiritualidade e o sofrimnento
-(ówe) provérbio:
“cabeça dura não quebra miséria, mesmo quando o ancião se curva, ainda assim, está de pé”.
Òbàrà Méjì – 6 abertos e 10 fechados
-neste caminho falam Xangô, Oxóssi, Logun, Ori e Oxun pode aparecer. Representa a nobreza e vaidade (+), inveja e roubo (-).
-(ówe) provérbio:
“Rei morto, Rei coroado”.

Òdí Méjì – 7 abertos e 9 fechados
-neste caminho falam Oxun, Omolú, Exú, podem aparecer Ogun e Ajê. Representa: o avesso, o buraco e a derrota
-(ówe) provérbio:
“A Equidade e a harmonia são as medidas da vida”.
Èjì Onílè Méjì – 8 abertos e 8 fechados
-este é o caminho principal de Oxaguian, podem aparecer Ogun,Airá, Iroko, Yemanjá e Jagun.
Representa a mutação constante, vida e morte.
-(ówe)provérbio:
“Em cima e embaixo, dentro ou fora da natureza, nada se cria, nada sofre perda, tudo se muda”.

Òsá Méjì – 9 abertos e 7 fechados
-Neste caminho falam Yemanjá, Oyá, Orí e podem aparecer babá Ajalá e babá Egun.
Representa a renovação, a inteligência e a gestação
-(ówe) provérbio:
“Orí é o primeiro a nascer e o último a morrer”.
Òfún Méjì – 10 abertos e 6 fechados
-Principal Odú de Oxalufon, podem aparecer Oxun, Orunmilá e Oduduwá, os funfun em geral.
Representa o ciclo sem fim, o nascimento, o mundo.
-(ówe) provérbio:
” A Longevidade é o caminho”

Òwónrín Méjì – 11 abertos e 5 fechados
-neste caminho falam Oyá, Exú, Ogun. Representa as mudanças repentinas sobre qualquer ponto de vista, começo e fim.
-(ówe)provérbio:
“Ele é a rota que faz o errado virar o certo e vice-versa”.
Èjìlá Sebòra Méjì – 12 abertos e 4 fechados
-odú principal de Xangô e podem aparecer Oba, Oyá, Airá, Yamassê, Iroko e Oxun.
Representa a união, ação e justiça.
-(ówe)provérbio:
” O escudo representa a águia solar”

Èjì Ológbon Méjì – 13 abertos e 3 fechados
-neste caminho falam Nanã, Ikú, Omolú e Egun. Representa a Àísí- a morte como parte da vida, o pó.
-(ówe)provérbio:
“Tão logo nasce, caminha para morte”.

Ìká Méjì – 14 abertos e 2 fechados
-Neste caminho falam Oxumarê, Osanyin, Ewá e podem aparecer, Ajê e Omolú e Logun Edé. Representa a renovação, a beleza, o amor.
-(ówe) provérbio:
“Terra e céu em comunicação”.

Obèogúndá Méjì – 15 abertos e 1 fechado
-Neste caminho fala Oba e pode aparecer Ewá, Ogun.
Representa a paga, a justiça com retidão.
-(ówe)provérbio:
” A Terra é minha mãe, para seu ventre voltarei”.

Àláàfiá Méjì – 16 abertos
-Neste caminho fala Orunmilá e todos os Orixás podem aparecer.
Representa a vocação,a coerência, a integração: reconhecimeto, saúde e paz.
-(ówe)provérbio:
” Pecado é o que sai da boca, não o que entra”.

Òpìrá – 16 fechados
-Não é um odú e sim uma caída nefasta, não há mensagem alguma, simplesmente o jôgo está fechado, o olhador não poderá mais jogar neste dia, prenúncio fatídico, fatal.

*O Búzio é uma concha marinha composta de duas faces: dianteira e traseira.
A face dianteira contém uma fenda dentada de cima a baixo, aqual podemos chamar de “boca”, Segundo a totalidade dos Bàbálàwós, é a parte falante do jogo.

A face trazeira, originalmente fechada, é aberta para proporcionar o equilíbrio e a queda do búzio em duas posições, aberto e fechado, com idênticas probabilidades.

De acordo com os mitos, a adivinhação pelos búzios foi introduzida pelo Orixá Oxun e suas filhas são Iyas Petebí por natureza.

Os búzios também são chamados de kaurís e já valeram como dinheiro no segundo milênio antes de Cristo.

O Jogo do Ìbò: é uma forma de prestar assessoramento ao Jogo de Búzios, tem a finalidade de decidir ou revelar o ebó, obrigações, decisões, o odú e a qualidade de Orixá.

O Ìbò promove uma participação mais direta entre o consulente e o jogo.
As perguntas são feitas à Orunmilá sem a interferência de Exú.
A palavra Ìbò significa aquilo que está encoberto, oculto, e vem do verbo bò, cobrir, em razão de ato de a pessoa ter, em suas mãos fechadas, dois elementos para responder as perguntas feitas.

O Ìbò utiliza-se de uma fava ou búzio ou otás de formatos diferentes que um deles significa SIM e o outro NÂO, para pergunta feita.

Só podem jogar búzios, o Egbomi que tem sua Cuia ou Deká o cargo de Babalorixá, Iyalorixá ou Ojú Oluwò, conferidos pelo seu axé e ratificados por Órunmilá.

Oxeturá ou Òsétùwá é formado pela combinação de Otùwá e Òsé, um odú menor e mensageiro dos Odús, muito ligado a Exú, Òdòsú é o vigia do jogo, o décimo sétimo, um búzio pequeno que observa à parte, mais que não participa diretamente no jogo (Bábàláwò Ójè Kúlè Ìfásàyó Èsúgbèmí).



quinta-feira, 26 de setembro de 2024

DITADO PELO CABOCLO SETE ESTRELAS

Certa vez estava andando por uma região belíssima que eu, mesmo sendo pouco viajado, tinha a plena convicção de que não pertencia a nenhuma localidade terrestre. Não sabia como havia parado ali, só tinha dentro de meu peito um enorme sentimento de gratidão pelo Divino Criador haver me proporcionado a oportunidade de poder estar conhecendo um lugar tão maravilhoso: eu caminhava por uma calçada principal circundada por um verde tão lindo que eu parecia estar respirando, junto com o oxigênio, a própria essência vegetal; e no meio de todo este verde existiam flores coloridas e das mais variadas espécies que me faziam ter a sensação de que caminhava em paralelo a um arco-íris maravilhoso. Olhei bem à minha frente e percebi que aquela calçada conduzia para uma enorme edificação toda colorida de um verde "grama" e que possuía em seu ápice uma estrela de sete pontas ladeada por algumas colunas que possuíam em sua parte superior uma espécie de pirâmide formada de um cristal parecido com mármore totalmente branco. Não sei por que, mas como alguma coisa dizia dentro de mim que eu deveria adentrar aquela estrutura não pensei duas vezes e assim o fiz. Quando iria iniciar minhas observações no interior daquele prédio apareceu um senhor de estatura média, cabelos brancos que denunciavam uma calvície acentuada e fisionomia muito simpática apresentando-se como Hermógenes e dizendo que eu não teria permissão para fazer a descrição interna daquela instituição. Disse, então, a Hermógenes que obedeceria a ele prontamente e lhe perguntei que tipo de instituição era aquela, ao que ele respondeu:

- Penso que não seria interessante você catalogar esta instituição em uma só categoria, mas se mesmo assim você desejar posso lhe dizer que essa instituição funciona como um educandário.- Como?
- Isto mesmo que você ouviu meu irmão, um educandário.
- Mas um educandário é uma instituição de ensino; qual tipo de ensinamento vocês ministram por aqui?
- Aulas de reforço.
- Como?
- Aulas de reforço.
- Como assim?
- Como funcionam as aulas de reforço nos educandários terrestres?
- Bem, elas têm a função de proporcionar ao aluno que não apreendeu de forma satisfatória um determinado conteúdo uma nova oportunidade de assim faze-lo.
- E o nosso educandário aqui neste plano de existência também trabalha da mesma forma, a diferença é que os conteúdos ministrados aqui não são os mesmos das cátedras terrestres.
Percebendo que eu já não agüentava mais de tanta curiosidade foi que Hermógenes complementou sua fala:
- Nosso educandário fornece aulas de reforço para aqueles irmãos que, por um motivo ou outro, esmoreceram na fé.
- Então você está me dizendo que ao saírem deste educandário as pessoas levam consigo um renovado sentimento de fé em Deus, é isso?
- Não só em Deus, mas também uma renovação expansora do sentimento de fé em si mesmas.
- Então este educandário tem como missão fortalecer o sentimento de fé de seus freqüentadores?
- Exatamente.
- E os freqüentadores deste educandário são espíritos encarnados ou desencarnados?
- Nas duas situações.
- Sério?!?
- Sério. Por que o espanto?
- É que mesmo não sabendo como vim parar aqui sinto, de alguma forma, como se esta localidade ficasse muito distante da crosta terrestre.
- E suas impressões não estão erradas, mas se um espírito encarnado precisar de um "reforço" não poderá ficar sem um auxilio efetivo apenas pelo fator distância, certo?
- Nossa, mas este educandário me parece tão distante da terra! Existem mesmo encarnados que vem aqui para receber estas aulas de reforço?
- Claro que sim, ou você acha que está aqui no dia de hoje tão somente como "repórter espiritual"?
- Eu me encontro com minha fé esmorecida?
- "Conheça a verdade e a verdade vos libertará", disse uma vez um grande sábio.
- Como?
- Um outro sábio disse: " conhece a ti mesmo".
- Mas a minha fé em Deus continua inabalada!
- Até concordo, mas e atua fé em si mesmo?
- O teu silêncio me diz que concordas comigo, entretanto, você não está aqui para ser acusado de nada, mas para receber o auxilio que o teu merecimento lhe faculte.
- E para onde devo me dirigir para receber esta benção divina?
- Para o mesmo local onde estão se dirigindo todas as pessoas que você está vendo subir aquelas escadas, ou seja, para o Salão Expansor da Fé Cristalina.
- Como?
- Um auditório meu irmão.
- O senhor poderia me acompanhar, irmão Hermógenes?
- É justamente para isto que estou aqui companheiro. Vamos?
- Claro.


Chegando ao referido auditório procurei assentar-me e pude observar, com certo espanto, que o palestrante da noite tinha o corpo todo banhado por uma tênue luz dourada como se fosse irradiada de dentro para fora, pensei até em fazer um comentário a este respeito com o irmão Hermógenes, mas ao observar que não só ele, mas todos os espectadores encaravam o fato com naturalidade eu, procurando não fazer feio, resolvi silenciar.
O auditório estava completamente lotado, com cerca de mil e duzentas "pessoas", e a palestra já estava para ser iniciada.
- Boa noite meus irmãos em Deus-Pai Todo-poderoso, o meu nome é Zacarias e estamos todos aqui esta noite com o objetivo de estudar e nos entronizarmos com o Divino sentido da fé cristalina, entretanto, antes de iniciarmos nossos estudos, gostaria que todos firmassem o pensamento comigo na realização de uma prece:
" Salve divino pai Olorum, causa primária de todas as coisas!
Salve divino pai Oxossi, por ter permitido a presença de todos nós, os vossos humanos filhos, neste santuário sagrado em busca do conhecimento divino!
Salve divino Pai Oxalá, por ter permitido a congregação de todos nós com o objetivo de, através da aquisição de novos conhecimentos sobre o divino, fortalecemos a nossa fé em Ti e na amada religião de umbanda!
Permita Pai supremo e sagrado, que possamos sair daqui renovados e prontos para defendê-lo na prática da nossa amada religião não só com o escudo da fé, mas também com a espada do conhecimento.
Faça com que esta espada divina, em nossas mãos, jamais sirva como um instrumento de ataque e sim como de defesa nas nossas lutas do dia-a-dia contra o preconceito e a intolerância religiosa, contra a timidez que temos em professar a nossa amada religião sem temores e sem pudores.
Permitas, enfim, que possamos servi-lo dignamente com os instrumentos da fé e do conhecimento onde quer que venhamos a ser solicitados na prática da caridade em busca da evolução de nosso espírito.
Que assim seja!
"Devo confessar que acompanhei a prece com todo o fervor do meu coração só que de olhos abertos e sinceramente posso dizer que não me arrependo por que a cena que presenciei foi tão linda que não me faz sentir arrependido:
a partir do instante que Zacarias começara a sua prece eu pude observar centenas, milhares de bolinhas douradas descerem do alto do auditório e cairem sobre todos os presentes, inclusive sobre mim. O mais interessante é que estas bolinhas ao alcançarem nosso corpo despertavam uma sensação de fé tão forte em Deus e na vida que as lágrimas de gratidão banhavam facilmente os nossos olhos. Na verdade foi uma cena tão linda que jamais poderei apagá-la de dentro de mim!Depois da oração Zacarias iniciou a sua prédica:
- Prezados irmãos de fé, estamos reunidos nesta linda noite apenas para que possamos responder uma singela pergunta:
a umbanda é uma religião cristã?
Um grande murmúrio começou no salão após esta pergunta, mas o irmão Zacarias retomou a fala:
- Aqueles que acham que a umbanda é uma religião cristã, por favor, levantem a mão direita!Pode parecer incrível, mas em menos de trinta segundos toda a "platéia" estava com a mão erguida, Zacarias, então, retomou a sua fala:
- Lindo, companheiros!! Muito linda esta cena que acabo de presenciar:
todos com a mão direita em riste dizendo de forma unânime que vós, por serem umbandistas, também seguis os preceitos do Cristo planetário. Muitos de vocês levantaram as mãos conscientes do porque a umbanda é uma religião cristã, outros inconscientemente, mas isto não é importante, o importante é todos vocês terem a idéia de que a umbanda é cristã.
Estamos aqui esta noite para discutirmos esta questão da cristandade da umbanda, para expandirmos nossa visão do Cristo, para expandirmos nossa visão da umbanda, pois da mesma forma que Jesus não é só a umbanda, a umbanda também é Jesus e muito mais.
Devo confessar que é ótimo palestrante o irmão Zacarias!
Sabe a hora certa de colocar cada vírgula com precisão em sua prédica. Continuamos eu e toda a platéia a escutá-lo:
- Muitos dos irmãos aqui presentes sabem que Jesus não é o orixá Oxalá, ou seja, aquele responsável pela irradiação do sentido da fé em toda a criação divina, mas Jesus é um ser fatorado na irradiação de Oxalá, é o Cristo planetário, aquele responsável pela irradiação divina da fé em todo o planeta Terra, mas não em toda criação divina. Sendo assim, Jesus é um irradiador do divino sentido da fé em todas as religiões existentes na terra, até mesmo daquelas que não se dizem cristãs e foi justamente por isso que eu disse que Jesus não é só umbanda, ou seja, Jesus não é um irradiador do sentido da fé apenas na religião de umbanda, mas em todas as religiões do planeta.A umbanda, meus amados irmãos de fé, é cristã por que segue a risca os divinos mandamentos de Jesus:
"Amar a Deus acima de todas as coisas e ao próximo como a ti mesmo", Jesus é amor e a umbanda também é amor justamente por praticar este abnegado amor através da caridade.
Muitos irmãos de fé ficam receosos de dizerem que são cristãos quando são perguntados em relação a isto pelo fato do umbandista muitas vezes considerar como cristãos somente aqueles que seguem a bíblia, entretanto, como já disse anteriormente, cristão não é aquele que segue a bíblia, mas aquele que segue os preceitos de amor fraterno e incondicional do Cristo.
O umbandista só por levantar a bandeira da caridade pode e deve se considerar cristão.
Entendam meus amados que a umbanda é uma religião bem recente e que, justamente por este fato, ainda não possui um livro religioso que possa ser considerado como único para todos os irmãos de fé, tais como a própria bíblia ou o alcorão; mas não se enganem por que, a despeito deste fato, a umbanda tem princípios teológicos que são intrínsecos a ela tais como as Sete linhas de umbanda que, por sua vez, justificam o que disse anteriormente no que concerne a relação entre umbanda e Jesus, qual seja, "a umbanda é Jesus e muito mais", pois vejam meus amados, Jesus é um representante do divino sentido da fé, mas sete são as linhas de umbanda e sete são os sentidos da criação Divina, isso significa dizer que além do sentido da fé, irradiado por Oxalá, a umbanda tem, através da irradiação dos Orixás, mais seis sentidos que são: justiça, lei, conhecimento, evolução, vida e amor.A umbanda é Jesus e muito mais. É Jesus, mas também são os Orixás, os Caboclos, os Preto-velhos, as Crianças, os Exus e Pomba-giras, etc. Este fato não faz da umbanda uma religião melhor e nem pior que as demais, faz dela uma religião que é única, natural, com sua própria teologia e que, justamente pelos fatos expostos, não deve servir de empecilho para que os umbandistas andem entre seus irmãos por paternidade Divina e de outras denominações religiosas, com a cabeça erguida, com orgulho de se dizerem umbandistas e com a sabedoria de se afirmarem também enquanto cristãos. Caminhem com esperança pelo mundo por que Deus é convosco, caminhem em direção a Deus todos os que se sentem injustiçados e o amor de Xangô irá consolá-los, caminhem em direção a Deus todos que se sentem desesperançados que Yemanjá há de gerar vida em abundância em vossas existências. Sejam felizes meus amados e que Deus os abençoe.
Quando o irmão Zacarias terminou sua explanação fiquei estupefato ao perceber que todos nós, os expectadores, estávamos irradiando uma luz muito forte na região acima de nossa cabeça, olhei ao lado para Hermógenes e, graças a Deus, ele pôde me responder:
- Lembra quando eu lhe disse que este prédio é um educandário com o propósito de fortalecer a fé?
- Perfeitamente.
- Pois bem, esta luz irradiada pelo chacra coronário de vocês significa que o objetivo de fortalecimento da fé foi alcançado.
- Meu Deus, mas que coisa mais linda!
- É companheiro, a fé é luz que ilumina a vida de todo espírito que procura desenvolvê-la.
- É verdade.
- Que Deus abençoe não só a você, mas a todos que aqui estiveram, fazendo com que, de alguma forma, vocês possam sempre orar e vigiar a fim de manter o brilho de vossas coroas do jeito que está e, porque não dizer, aumentá-lo de intensidade ainda mais.
Quando Hermógenes acabou de me dizer esta frase nós já estávamos do lado de fora do educandário e foi então que eu perguntei a ele:
- Quer dizer que a minha tarefa de hoje está acabada, que eu já vou retornar para o corpo físico?
- A tarefa de lustrar cada dia mais o brilho de sua coroa através do exercício da fé raciocinada e da prática da caridade não termina nunca, você me entende meu amigo?
- Sim senhor!
- Já está na hora, de fato, de você retornar ao corpo físico, mas não vá sem antes dar um abraço neste Caboclo.
Procurei aproximar-me dele achando inusitado não só o fato dele me pedir um abraço, mas também por ele ter dito que é um Caboclo e ter me chamado de "amigo" e o questionei em relação a este fato, ao que ele respondeu-me:
- Só um amigo oferta um abraço a outro, você não está me reconhecendo?
- Desculpe, mas, não senhor.
- Não importa. O importante é que nos conhecemos, me dê cá um abraço!
Abracei-o com lágrimas nos olhos e agradeci:
- Obrigado por tudo irmão Hermógenes!!!
- Este Caboclo é que agradece. Vá na força e na luz de Tupã nosso pai e nunca se esqueça de que meu nome pouco importa.
- Sim senhor.
- Importante é o laço fraterno da amizade.
- É verdade!
- Meu nome não é importante até mesmo por que aos olhos do Criador eu nada sou.
- Que é isso irmão Hermógenes!
- Não estou com autocomiseração, estou apenas constatando o fato de que nenhum espírito jamais deve se acomodar na prática da caridade, pois a evolução não cessa nunca. Eu digo que nada sou não como um gesto de atitude humana e pessimista, mas como uma mola propulsora que sempre possa me impulsionar em direção à humildade, a fraternidade e caridade.- Sim senhor.
- Como estava dizendo eu, aos olhos do Criador, nada sou, mas quando tenho que ser alguma coisa, então sou como a cor de uma única pena de papagaio.
- Como?
- Vá na força e na luz de Tupã nosso pai!!!
Acordei e não entendi a metáfora, os dias se passaram e nada. Só agora, meus irmãos de fé, no momento em que lhes passo esta mensagem é que tudo ficou claro:
O irmão Hermógenes, trabalhador do educandário onde existe o Salão Expansor da Fé Cristalina, é, como ele mesmo disse, da cor de uma única pena de papagaio, ou seja, o irmão Hermógenes é um Senhor Caboclo Pena Verde.
Salve o conhecimento!
Salve a fé!
Salve os Senhores Caboclos!
Salve o Sr. Caboclo Pena verde!




A ANCESTRALIDADE

Todos nós possuímos um triângulo de força que nos rege. Ele é constituído pelos nossos Orixás Ancestrais, o Orixá de Frente e o Orixá Adjunto.

Assim que fomos exteriorizado por Deus do Plano Interno da Criação como Centelhas Divinas, recebemos a sustentação direta e imutável de um Orixá Fatoral Masculino e de outro Feminino que nos acompanhará por todo o sempre, sendo que caso o ser seja masculino prevalecerá o Orixá Masculino sobre o Orixá Feminino e vice-versa. Estes Orixás são denominados de Orixás Ancestrais.

Na Dimensão Humana, setenta e duas horas após a fecundação do óvulo, o ser espiritual que reencarnará tem seu mental adormecido e é auxiliado pelo plano superior a reduzir-se até que possa moldar-se ao feto, o que leva de 3 a 4 meses até estar completamente adaptado. Desde então e durante toda a sua vida na carne, será conduzido por um Orixá que lhe fornecerá características e atributos que comporão a sua personalidade (Orixá de Frente) e por um outro Orixá que da mesma maneira atuará no emocional deste ser de modo a equilibrá-lo (Orixá Adjunto).

Todos os seres humanos possuem características hereditárias herdadas de seus Orixás. Veja algumas delas:

Os Filhos de Oxalá são pessoas alegres, emotivas e persistentes. Gostam de festas, roupas da moda, a boa mesa e mulheres inteligentes. Não gostam de trabalho pesado, recintos fechados, falsidade e comida picante. No entanto também podem ser ranzinzas, briguentos, perversos, agressivos e vaidosos.

As Filhas de Oiá são simpáticas, discretas, observadoras, amigas, conselheiras, lutadoras e muito sinceras. Gostam das coisas religiosas, de estudar, de músicas românticas e de homens maduros, reservados e amorosos. 

Não gostam de pessoas imaturas, grosseiras, intrigas, lugares agitados e de perderem o seu tempo. No entanto podem ser retraídas, ciumentas, possessivas, desconfiadas e não perdoam uma ofensa.

Os Filhos de Oxumaré são extrovertidos, envolventes, comunicativos, educados, amáveis e curiosos. Gostam de festas, da política, de filosofar e de liderar o seu grupo. Não gostam de monotonia, de pessoas mal-humoradas, aproveitadores e de mulheres ciumentas. No entanto podem ser apáticos, fechados, solitários e venenosos.

As Filhas de Oxum são amorosas, delicadas, meigas, sensíveis, perfeccionistas, cuidadosas, protetoras e maternais. Gostam de reuniões familiares, de dançar, de poesias, de ensinar, de crianças e de cuidar da casa. Não gostam da solidão, de política, das ciências exatas, de lugares tristes, de homens ciumentos e autoritários. No entanto podem ser ciumentas, agressivas, vaidosas, insuportáveis, vingativas e não perdoam uma mágoa.

Os Filhos de Oxossi são galanteadores, leais, curiosos e muito prestativos. Gostam de viajar, estudar e fazer muitas amizades. Não gostam de pessoas ignorantes, assuntos fúteis e lugares fechados. No entanto podem ser extremamente críticos, respondões, briguentos e vingativos.

As Filhas de Obá são humildes, boas ouvintes, conselheiras, esperançosas e tiram de si para dar para o próximo. Gostam de coisas práticas, da vida doméstica e da segurança do lar. Não gostam de pessoas soberbas, pessoas vaidosas, lugares agitados e conversas chulas. No entanto podem ser intrigantes, cruéis, traiçoeiras e vingativas.

Os Filhos de Xangô são racionais, judiciosos, observadores, pouco falantes e geniais. Gostam de se vestir bem, de ler, de ouvir música, de uma boa companhia, de uma boa mesa e do aconchego do lar. Não gostam de festas bajuladoras, pessoas egoístas, soberbas e mulheres apáticas. No entanto podem ser rancorosos, implacáveis e intratáveis. Possuem características físicas bem definidas, são de estatura média-baixa de compleição, de porte robusto e feições bem arredondadas.

As Filhas de Egunitá são ativas, emotivas, impulsivas, faladoras e geniosas. Gostam de conversas reservadas, de passear, de espetáculos emotivos e de homens que as encantem. Não gostam de preguiçosos, de comidas sonsas, de bebidas adocicadas e de homens presunçosos. No entanto podem ser egoístas, briguentas, insensíveis e teimosas. Costumam ser magras e de estatura média-alta.

Os Filhos de Ogum da mesma forma que tentam impor-se a todo custo, apaixonam-se facilmente e quase sempre estão em busca de novas aventura. São leais, protetores, ciumentos e capazes de dar a vida por um amigo. Gostam de comidas e bebidas fortes, do seu espaço, de viajar, de competir e de esportes violentos. Não gostam de sedentarismo, monotonia, músicas suaves ou de ficarem isolados em seus locais de trabalho. No entanto podem ser possessivos, intolerantes, rigorosos, encrenqueiros, insensíveis e implacáveis. De estatura média tem tendência a ter o físico bem definido.

As Filhas de Iansã são envolventes, risonhas, alegres, amorosas, cativantes, amigas, companheiras leais, ousadas, ágeis no pensar, objetivas, lutadoras e líderes natas. Gostam de festas, de pessoas falantes e alegres, de viagens a passeio, de trabalhos agitados e homens envolventes. Não gostam de amizades egoístas, de comidas pesadas, da vida doméstica, de trabalhos monótonos e de homens introvertidos. No entanto podem ser apassionadas, bravas, falantes, briguentas, intolerantes, explosivas e não perdoar quem as magoa. Costumam ser de média estatura e ter um corpo sensual.

Os Filhos de Obaluaiê são cordiais, falantes, criativos, elegantes e generosos. Gostam da boa mesa, de serem o centros das atenções, roupas elegantes, viagens e companhias interessantes. Não gostam do silêncio, da solidão e do trabalho repetitivo. No entanto podem ser prepotentes, autoritários, mesquinhos, desleais, vaidosos, bajuladores e mulherengos.

As Filhas de Nanã são calmas, conselheiras, orientadoras, religiosas, emotivas e muito simpáticas. Gostam de companhias falantes, da boa mesa, roupas coloridas e de pessoas que lhe dêem afeto e respeito. Não gostam de pessoas egoístas, mesquinhas, preguiçosas e exibidas, de crianças peraltas, de desperdício e de festas agitadas. No entanto podem ser intratáveis, ríspidas, tagarelas, fuxiqueiras, vingativas e perigosas.

Os Filhos de Omulu são alegres, organizados, reservados, perspicazes e orientadores. Gostam da vida errante, do misticismo, da boa mesa e de companhia inteligente. Não gostam de horário fixo nos seus trabalhos. No entanto podem ser ranzinzas, turrões, autoritários, perigosos, violentos, intolerantes, cruéis e insensíveis a dor alheia. 

Geralmente são magros.

As Filhas de Iemanjá são típicas matronas, alegres, leais, fiéis, generosas, trabalhadoras, zelosas e muito ativas. Gostam da vida doméstica, do trabalho produtivo, do estudo, de roupas elegantes e de homens firmes em suas decisões. Não gostam de infidelidade e nem de desrespeito. No entanto podem ser respondonas, irritantes, intolerantes, briguentas e despeitosas. Costumam ser robustas.



domingo, 22 de setembro de 2024

A TRSITEZA DOS ORIXÁS

Foi, não há muito tempo, que essa história aconteceu. Contada aqui de uma forma romanceada, mas que traz em sua essência, uma verdadeira mensagem para os umbandistas…

Ela começa em uma noite escura e assustadora, daquelas de arrepiar os pelos do corpo. Realmente o Sol tinha se escondido nesse dia, e a Lua, tímida, teimava em não iluminar com seus encantadores raios, brilhosos como fios de prata, a morada dos Orixás.

Nessa estranha noite, Ogum, o Orixá das “guerras”, saiu do alto ponto onde guarda todos os caminhos e dirigiu-se ao mar. Lá chegando, as sereias começaram a cantar e os seres aquáticos agitaram-se. Todos adoravam Ogum, ele era tão forte e corajoso.

Iemanjá que tem nele um filho querido, logo abriu um sorriso, aqueles de mãe “coruja” quando revê um filho que há tempos partiu de sua casa, mas nunca de sua eterna morada dentro do coração:

- Ah Ogum, que saudade, já faz tanto tempo! Você podia vir visitar mais vezes sua mãe, não é mesmo? – ralhou Iemanjá, com aquele tom típico de contrariedade.

- Desculpe, sabe, ando meio ocupado – Respondeu um triste Ogum.
- Mas, o que aconteceu? Sinto que estás triste.
- É, vim até aqui para “desabafar” com você “mãinha”. Estou cansado! Estou cansado de muitas coisas que os encarnados fazem em meu nome. Estou cansado com o que eles fazem com a “espada da Lei” que julgam carregar. Estou cansado de tanta demanda. Estou muito mais cansado das “supostas” demandas, que apenas existem dentro do íntimo de cada um deles… Estou cansado…

Ogum retirou seu elmo, e por de trás de seu bonito capacete, um rosto belo e de traços fortes pôde ser visto. Ele chorava. Chorava uma dor que carregava há tempos. Chorava por ser tão mal compreendido pelos filhos de Umbanda.
Chorava por ninguém entender, que se ele era daquele jeito, protetor e austero, era porque em seu peito a chama da compaixão brilhava. E, se existe um Orixá leal, fiel e companheiro, esse Orixá é Ogum. Ele daria a própria Vida, por cada pessoa da humanidade, não ape
nas pelos filhos de fé. Não! Ogum amava a humanidade, amava a Vida.

Mas infelizmente suas atribuições não eram realmente entendidas. As pessoas não viam em sua espada, a força que corta as trevas do ego, e logo a transformavam em um instrumento de guerra. Não viam nele a potência e a força de vencer os abismos profundos, que criam verdadeiros vales de trevas na alma de todos. Não viam em sua lança, a direção que aponta para o autoconhecimento, para iluminação interna e eterna.

Não! Infelizmente ele era entendido como o “Orixá da Guerra”, um homem impiedoso que se utilizava de sua espada para resolver qualquer situação. E logo, inspirados por isso, lá iam os filhos de fé esquecer-se dos trabalhos de assistência a espíritos sofredores, a almas perdidas entre mundos, aos trabalhos de cura, esqueciam-se do amor e da compaixão, sentimentos básicos em qualquer trabalho espiritual, para apenas realizaram “quebras e cortes” de demandas, muitas das quais nem mesmo existem, ou quando existem, muitas vezes são apenas reflexos do próprio estado de espírito de cada um. E mais, normalmente, tudo isso se torna uma guerra de vaidade, um show “pirotécnico” de forças ocultas. Muita “espada”, muito “tridente”, muitas “armas”, pouco coração, pensamento elevado e crescimento espiritual.

Isso magoava Ogum. Como magoava:

- Ah, filhos de Umbanda, por que vocês esquecem que Umbanda é pura e simplesmente amor e caridade? A minha espada sempre protege o justo, o correto, aquele que trabalha pela luz, fiando seu coração em Olorum. Por que esquecem que a Espada da Lei só pode ser manuseada pela mão direita do amor, insistindo em empunhá-la com a mão esquerda da soberbia, do poder transitório, da ira, da ilusão, transformando-a em apenas mais uma espada semeadora de tormentos e destruição.

Então, Ogum começou a retirar sua armadura, que representava a proteção e firmeza no caminho espiritual que esse Orixá traz para nossa vida. E totalmente nu ficou frente à Iemanjá. Cravou sua espada no solo. Não queria mais lutar, não daquele jeito. Estava cansado…

Logo um estrondo foi ouvido e o querido, mas também temido Tatá Omulu apareceu. E por incrível que pareça o mesmo aconteceu. Ele não aguentava mais ser visto como uma divindade da peste e da magia negativa. Não entendia, como ele, o guardião da Vida podia ser invocado para atentar contra Ela. Magoava-se por sua alfange da morte, que é o princípio que a tudo destrói, para que então a mudança e a renovação aconteçam ser tão temida e mal compreendida pelos homens.

Ele também deixou sua alfange aos pés de Iemanjá, e retirou seu manto escuro como a noite. Logo se via o mais lindo dos Orixás, aquele que usa uma cobertura para não cegar os seus filhos com a imensa luz de amor e paz que se irradia de todo seu ser. A luz que cura, a luz que pacifica aquela que recolhe todas as almas que se perderam na senda do Criador. Infelizmente os filhos de fé esquecem-se disso…

Mas o mais incrível estava por acontecer. Uma tempestade começou a desabar aumentando ainda mais o aspecto incrível e tenebroso daquela estranha noite. E todos os outros Orixás começaram a aparecer, para logo, começarem também a despir suas vestimentas sagradas, além de deixarem ao pé de Iemanjá suas armas e ferramentas simbólicas.

Faziam isso em respeito a Ogum e Omulu, dois Orixás muito mal compreendidos pelos umbandistas. Faziam isso por si próprios. Iansã queria que as pessoas entendessem que seus ventos sagrados são o sopro de Olorum, que espalha as sementes de luz do seu amor. Oxossi queria ser reverenciado como aquele que, com flechas douradas de conhecimento, rasga as trevas da ignorância. Egunitá apagou seu fogo encantador, afinal, ninguém se lembrava da chama que intensifica a fé e a espiritualidade. Apenas daquele que devora e destrói. Os vícios dos outros, é claro.

Um a um, todos foram despindo-se e pensando quanto os filhos de Umbanda compreendiam erroneamente os Orixás.

Iemanjá, totalmente surpresa e sem reação, não sabia o que fazer. Foi quando uma irônica gargalhada cortou o ambiente. Era Exu. O controvertido Orixá das encruzilhadas, o mensageiro, o guardião, também chegava para a reunião, acompanhado de Pombagira, sua companheira eterna de jornada.

Mas os dois estavam muito diferentes de como normalmente apresentam-se. Andavam curvados, como que segurando um grande peso nas costas. Tinham na face, a expressão do cansaço. Mas, mesmo assim, gargalhavam muito. Eles nunca perdiam o senso de humor!

E os dois também repetiram aquilo que todos os Orixás foram fazer na casa de Iemanjá. Despiram-se de tudo. Exu e Pombagira, sem dúvida, eram os que mais razões tinham de ali estarem. Inúmeros eram os absurdos cometidos por encarnados em nome deles. Sem contar o preconceito, que o próprio umbandista ajudou a criar, dentro da sociedade, associando-o a figura do Diabo:

- Hahaha, lamentável essa situação, hahaha, lamentável! – Exu chorava, mas Exu continuava a sorrir. Essa era a natureza desse querido Orixá.
Iemanjá estava desesperada! Estavam todos lá, pedindo a ela um conforto. Mas nem mesmo a encantadora Rainha do Mar sabia o que fazer:

Espere! – pensou Iemanjá! – Oxalá, Oxalá não está aqui! Ele com certeza saberá como resolver essa situação.

E logo Iemanjá colocou-se em oração, pedindo a presença daquele que é o Rei entre os Orixás. Oxalá apresentou-se na frente de todos. Trazia seu opaxorô, o cajado que sustenta o mundo. Cravou ele na Terra, ao lado da espada de Ogum. Também despiu-se de sua roupa sagrada, pra igualar-se a todos, e sua voz ecoou pelos quatro cantos do Orun:

- Olorum manda uma mensagem a todos vocês meus irmãos queridos! Ele diz para que não desanimem, pois, se poucos realmente os compreendem, aqueles que assim o fazem, não medem esforços para disseminar essas verdades divinas. Fechem os olhos e vejam, que mesmo com muita tolice e bobagem relacionada e feita em nossos nomes, muita luz e amor também está sendo semeado, regado e colhido, por mãos de sérios e puros trabalhadores nesse às vezes triste, mas abençoado planeta Terra. Esses verdadeiros filhos de fé que lutam por uma Umbanda séria, sem os absurdos que por aí acontecem. Esses que muito além de “apenas” prestarem o socorro espiritual, plantam as sementes do amor dentro do coração de milhares de pessoas. Esses que passam por cima das dificuldades materiais, e das pressões espirituais, realizando um trabalho magnífico, atendendo milhares na matéria, mas também, milhões no astral, construindo verdadeiras “bases de luz” na crosta, onde a espiritualidade e religiosidade verdadeira irão manifestar-se. 

Esses que realmente nos compreendem e buscam-nos dentro do coração espiritual, pois é lá que o verdadeiro Orun reside e existe. Esses incríveis filhos de umbanda, que não colocam as responsabilidades da vida deles em nossas costas, mas sim, entendem que tudo depende exclusivamente deles mesmos. Esses fantásticos trabalhadores anônimos, soltos pelo Brasil, que honram e enchem a Umbanda de alegria, fazendo a filhinha mais nova de Olorum brilhar e sorrir…

Quando Oxalá calou-se os Orixás estavam mudados. Todos eles tinham suas esperanças recuperadas, realmente viram que se poucos os compreendiam grande era o trabalho que estava sendo realizado, e talvez, daqui algum tempo, muitos outros se juntariam nesse ideal. E aquilo os alegrou tanto que todos começaram a assumir suas verdadeiras formas, que são de luzes fulgurantes e indescritíveis. E lá, do plano celeste, brilharam e derramaram-se em amor e compaixão pela humanidade.

Em Aruanda, os caboclos, pretos-velhos e crianças, o mesmo fizeram. Largaram tudo, também despiram-se e manifestaram sua essência de luz, sua humildade e sabedoria comungando a benção dos Orixás.

Na Terra, baianos, marinheiros, boiadeiros, ciganos e todos os povos de Umbanda, sorriam. Aquelas luzes que vinham lá do alto os saudavam e abençoavam seus abnegados e difíceis trabalhos. Uma alegria e bem – aventurança incríveis invadiram seus corações. Largaram as armas. Apenas sorriam e abraçavam – se. O alto os abençoava…

Mas, uma ação dos Orixás nunca fica limitada, pois é divina, alcançando assim, a tudo e a todos. E lá no baixo astral, aqueles guardiões e guardiãs da lei nas trevas também foram alcançados pelas luzes Deles, os Senhores do Alto. Largaram as armas, as capas, e lavaram suas sofridas almas com aquele banho de luz. Lavaram seus corações, magoados por tanta tolice dita e cometida em nome deles. Exus e Pombagiras, naquele dia foram tocados pelo amor dos Orixás, e com certeza, aquilo daria força para mais muitos milênios de lutas insaciáveis pela Luz.

Miríades de espíritos foram retirados do baixo-astral, e pela vibração dos Orixás puderam ser encaminhados novamente à senda que leva ao Criador. E na matéria toda a humanidade foi abençoada. Aos tolos que pensam que Orixás pertencem a uma única religião ou a um povo e tradição, um alerta. Os Orixás amam a humanidade inteira, e por todos olham carinhosamente.

Aquela noite que tinha tudo para ser uma das mais terríveis de todos os tempos, tornou-se benção na vida de todos. Do alto ao embaixo, da esquerda até a direita, as egrégoras de paz e luz deram as mãos e comungaram daquele presente celeste, vindo diretamente do Orun, a morada celestial dos Orixás.

Vocês, filhos de Umbanda, pensem bem! Não transformem a Umbanda em um campo de guerra, onde os Orixás são vistos como “armas” para vocês acertarem suas contas terrenas. Muito menos esqueçam do amor e compaixão, chaves de acesso ao mistério de qualquer um deles. Umbanda é simples, é puro sentimento, alegria e razão. Lembrem-se disso.

E quanto a todos aqueles, que lutam por uma Umbanda séria, esclarecida e verdadeira, independente da linha seguida, lembrem-se das palavras de Oxalá ditas linhas acima.

Não desanimem com aqueles que vos criticam, não fraquejem por aqueles que não tem olhos para ver o brilho da verdadeira espiritualidade.

Lembrem-se que vocês também inspiram e enchem os Orixás de alegria e esperança. A todos, que lutam pela Umbanda nessa Terra de Orixás, esse texto é dedicado. Honremo-los. Sejam de luz, assim como Eles!


Saravá.



sábado, 21 de setembro de 2024

CUMPRIMEMENTOS E POSTURA

Se observarmos e analisarmos os rituais das inúmeras religiões existentes, encontraremos neles um sentido comum; o de invocar as Divindades, as Potências Celestes, ou melhor, as Forças Espirituais. O objetivo é sempre o mesmo, a preparação de atração destas forças à corrente religiosa que a pratica.

Em qualquer ritual, do mais básico ao mais espiritualizado, é certo que encontraremos atos e práticas que predispõe a criatura a harmonizar-se com o objetivo invocado, isto é, procura-se pô-lo em relação direta, mental com, os deuses, divindades, forças, santos, entidades, etc., e em todos eles, os fenômenos espiritualistas acontecem.

Assim para preparar ou elevar o psiquismo de um aparelho e obter-se o equilíbrio da sua mente com os corpos Astral e físico, indispensável se torna que ensinemos à esses ditos aparelhos, determinadas posições necessárias, com o fito de que eles possam harmonizar sua faculdade mediúnica individual, com as vibrações superiores das Entidades que militam na Lei de Umbanda.

– A Cultura Tradicional do Povo Yorùbá é muito rígida no tocante a educação e respeito. Os mais jovens são ensinados a manter todo o respeito pelos mais velhos. Compreendendo que a idade é sinal de posse de experiência e sabedoria. O cumprimento dos mais jovens para com os mais velhos é um sinal de demonstração desse respeito.

O DÒBÁLÈ – (tradução literal= peito na terra vindo de dùbúlè que é deitar) é o cumprimento feito “somente pelos homens”, não cabendo a mulher a atitude de deitar em respeito.

Para as mulheres cabe TOMAR A POSTURA CHAMADA DE KÚNLÈ (LITERAL = JOELHO NA TERRA), ou seja, simplesmente “ajoelhar” e pedir a bênção daqueles que são merecedores de respeito.

Apesar de poligâmica, e às vezes extremamente machista, essa Cultura mantém um extremo cuidado para com as crianças e mulheres. Nos cumprimentos, as mulheres não expõem ao perigo seus seios ou ventre, para o caso das gestantes, deitando-se sobre eles no chão como é o ato do dòbálè. Esse costume de cumprimentar deitando-se ou ajoelhando-se foi mantido nas Ilé Òrìsà, porém com o grave erro, o de fazer as mulheres deitarem-se colocando os seios no chão, que saliento, não é do costume do Povo Yorùbá. O cumprimento, não está relacionado com o Òrìsà Olorí (Dono da Cabeça), mas está diretamente relacionado com a Boa Educação e com os cuidados com as mulheres. Portanto que se compreenda que, é dever dos que mantém as Tradições do Povo Yorùbá exigir o respeito a quem de direito, mas é dever dos mais velhos zelar pelo bem estar daqueles que se submetem à ele.

Kúnlè é o que as mulheres devem fazer para cumprimentar.

Iká – cumprimento feito por filho de santo cujo orixá principal é feminino. Deita-se de bruços no chão, toca-se o solo com a cabeça e, simultaneamente com o lado direito e depois com o esquerdo do quadril no chão (na nação Keto, as mulheres não tocam o chão com o ventre).

O Paó (pronuncia = paô) é um gesto que serve como sinal de que se é preciso comunicar alguma coisa, mas não se pode falar. Isso ocorre muito no candomblé quando as iniciadas estão no roncó e não podem falar, daí batem com as palmas das mãos tentando dizer algo, se comunicar por algum motivo. É usado também como saudação para orixá, e, é diferente de orixá para orixá.

É uma palavra em yorubá que significa: “pa” = juntar uma coisa com outra; “o” = para cumprimentar… Essa palavra é uma contração de ìpatewó que significa aplauso.

O paó bate-se 3 vezes assim…(3 palmas lentas)
3 + 7 vezes
Intervalo
3 + 7 vezes
Intervalo
3 + 7 vezes
E depois a saudação, por exemplo:
palmas paó
– “Laroye Exu …”

Utilizado para pedir permissão para entrar, saudar e pedir licença.
Bater com as pontas dos dedos, no chão da mão esquerda, e depois cruzando os dedos com as palmas das mãos voltadas para o solo; Saudando Exu;

Da mão direita, fazendo uma cruz e depois fazendo a cruz no peito; Saudando os Pretos Velhos.

Da mão direita, depois tocando a fronte (Eledá), o lado direito da cabeça (Otum – 2º Orixá) e a Nuca (os Ancestrais); Saudando os orixás e guias;

Da mão direita 3 vezes e depois tocando a fronte, o lado direito da cabeça e a nuca, para saudar Obaluaiê.

Cumprimento Ombro-a-Ombro

Quando um Guia cumprimenta um consulente ou um assistente com o bater de ombro, isto é sinal de
 igualdade, de fraternidade e grande amizade.
De Joelhos Sim!

Dentro das várias ritualísticas que se desenvolvem nos terreiros de Umbanda, é comum vermos principalmente no início e término dos trabalhos espirituais o corpo mediúnico com os joelhos no chão. Alguns vêem esta postura como arcaica e sem sentido, porém nunca se deram ao trabalho de analisarem detidamente tal comportamento.

É de conhecimento geral que as primeiras religiões do globo terrestre já inseriam a genuflexão em seus rituais, exteriorização de respeito junto ao Criador e também manifestação de humildade que todos devem ter, seja para com o Divino, seja para com o próximo. Da mesma forma, o ato de postar-se de joelhos fazia e faz ver aos fiéis que assistiam ou assistem uma manifestação de religiosidade, a seriedade, o respeito e a simplicidade do sacerdote e dos médiuns, frente ao plano espiritual superior.

A implantação do ajoelhar-se tem como finalidades mostrar a Deus todo o nosso carinho, obediência, respeito e amor e o quanto somos pequeninos diante do universo criado por Ele; e para passar a assistência que aquele espaço de caridade tem a exata noção do papel que desempenha como instrumentos de trabalho dos bons espíritos.

Infelizmente, é do conhecimento de todos que, ao lado de criaturas humildes, simples, meigas e caridosas que estão sempre dispostas a dar seu suor à Umbanda, existem outras tantas orgulhosas, vaidosas, “auto-suficientes”, que procuram a todo custo imporem-se aos demais, maximizando suas “qualidades” e minimizando as virtudes alheias.

Ostentam falsas conquistas, querendo submeter todos a seus caprichos. Contudo, nada mais doloroso e incômodo para estas pessoas do que ficar em posição de subserviência, de aparente inferioridade.

Tal postura lhes sangra a alma e lhes oprime o pétreo coração.

Suas visões ofuscadas não conseguem enxergar que tal rito e para seu próprio bem, para sua própria libertação dos sentimentos mesquinhos e posterior elevação espiritual, pois auxilia na quebra da vaidade e da soberba.
Alguns até podem dizer que ao postar-se de joelhos, o médium pode ter em mente pensamentos diametralmente opostos àquela posição. Mas aí meus irmãos é que termina a tarefa dos encarnados e inicia-se o processo de assepsia e lapidação dos arrogantes e vaidosos, levados a efeito pelos amigos de Aruanda, e assim, dando luz a estas pessoas e reconduzindo-as ao rebanho Divino.

Joelhos ao chão sim!

Tocar o chão e os nove planos.

Acreditavam os nagô que existiam nove espaços (planos) no além. Entre os quatro superiores e os quatro inferiores, havia um plano intermediário que se localizava (exatamente) no espaço ocupado por nosso planeta; esse seria o plano astral terrestre. Era através desse espaço que chegavam à Terra os orixás e ancestrais vindos dos vários outros planos.

Surgiam, pois, para os nagô, os orixás e ancestrais de dentro da Terra. Assim, quando desejam chamar os orixás, os nagôs tocavam três vezes os solo (após o nome do orixá ser pronunciado).

O solo diante dos tambores também era tocado (antes ou depois de tocarem com os dedos o próprio atabaque), afinal, quem chamava (através do som) os orixás eram os tambores.

O solo era sempre tocado três vezes; o três representa na cultura nagô ação, movimento, expansão … Tocar o solo três vezes era o gestual que significava o “assim seja”, o cumpra-se … Então quando, por exemplo, o nome de Ogum pronunciado, todos tocavam três vezes o solo; “assim seja”, “que Ogum venha até nós”…

No Brasil, os africanos, para consagrar o solo, para transformar o terreiro em uma pequena África, enterravam relíquias trazidas (da África) … tranformando (ritualmente) o solo brasileiro em solo africano (”chão” dos seus orixás).

Tirar os sapatos

Os escravos, mesmo os que serviam de criados na Casa Grande, ainda que fossem uniformizados, não podiam usar sapatos. Os pés descalços eram um símbolo de usa condição “inferior”.

Os negros quando libertos, assim que podiam compravam um par de sapatos, uma demonstração (dentro dos valores da sociedade branca) de sua nova condição.

Entretanto, quando entravam em seus espaços sagrados, seus templos, pequenas Áfricas, deixavam aquele símbolo (os sapatos) na entrada. Afinal, estavam em solo africano (pequena África), ali os valores da sociedade branca nada significavam.

É claro que tem também a ver com respeito ao solo sagrado, acredito, mas essa outra perspectiva é muito interessante.



UMA BREVE VISÃO SOBRE O CASAMENTO AFRICANO

O casamento africano acaba sendo muito diferenciado e conservador se comparado aos casamentos ocidentais, casar em África é uma responsabilidade de unidade familiar muito mais que um simples contrato. O sentido de família dentro das sociedades africanas transcende as ideologias ocidentais com o rótulo de família restrita, diferente dessa visão, dentro da cosmovisão africana existe o conceito da família alargada.

Infelizmente hoje em pleno século XXI com a influência externa, o casamento africano na sua raiz acaba sendo ignorado até mesmo por alguns africanos, e mal observado para outros povos, é importante saber que cada povo tem a sua própria manifestação cultural, e a forma de celebração do casamento nunca é homogéneo, os africanos têm a sua própria forma de celebração.

Para compreender o casamento africano, você deve saber que nas raízes culturais africanas o Criador, embora único, tem na sua natureza divina a dualidade do homem e da mulher. Estas naturezas masculina e feminina se fundem, permitindo ao Criador criar todos os seres.

O casamento africano é, portanto, a fusão do princípio masculino e do princípio feminino para formar um único corpo, a fim de reproduzir a natureza do Criador. Ao se casarem, os humanos reproduzem física e também espiritualmente esta unidade masculina e feminina do Criador para formar um único corpo. É por este motivo que algumas práticas como por exemplo o homossexualismo não fazem parte das sociedades africanas, aliás é inconcebível falar sobre tais práticas que hoje infelizmente estão a ser disseminadas propositadamente nas famílias africanas trazendo o desiquilíbrio das leis do matrimónio.

Ao realizarem esta unidade dos princípios masculino e feminino, os humanos podem, tal como o Criador, criar, isto é, dar à luz seres masculinos e femininos. Tudo isto explica porque é que o casamento africano é importante, divino e sagrado.

Na sociedade africana, sendo comunitária e não individualista, o grupo tem precedência sobre o indivíduo. E o indivíduo não pode existir sem o seu grupo, a sua família. Portanto, quem se casa não se casa simplesmente junto. Eles também unem suas famílias. Uma vez casado, o homem entra na família e na comunidade da mulher. A mulher entra na família e na comunidade do homem.

𝗔 𝗶𝗺𝗽𝗼𝗿𝘁𝗮̂𝗻𝗰𝗶𝗮 𝗱𝗼 𝗱𝗼𝘁𝗲 𝗱𝗲𝗻𝘁𝗿𝗼 𝗱𝗼 𝗰𝗮𝘀𝗮𝗺𝗲𝗻𝘁𝗼 𝗮𝗳𝗿𝗶𝗰𝗮𝗻𝗼:

Dentro das sociedades africanas o casamento é selado por uma série de cerimônias, das quais a mais importante é o dote. O dote não é a compra de uma mulher por um homem como é imaginado e caricaturado fora de África. O dote é simplesmente o pacto ou compromisso que sela a aliança entre homem e mulher e a união entre famílias e comunidades cujos filhos se casam.

O facto de o dote ser entregue à família da mulher até hoje é um vestígio da tradição matriarcal de África que aqui explicamos, ou seja, devido ao facto de as mulheres serem vistas como tendo mais valor do que os homens, sendo elas as geradoras da vida. Mesmo no contexto actual, para os africanos, o casamento é e continua a ser o mais importante. O casamento africano grafado como “tradicional” é fundamental e tem mais valor simbólico do que um casamento dito “ convencional", ou seja, casamentos celebrados na igreja ou no cartório.

𝗢𝘀 𝗽𝗮𝗽𝗲́𝗶𝘀 𝗱𝗼𝘀 𝗰𝗼̂𝗻𝗷𝘂𝗴𝗲𝘀 𝗱𝗲𝗻𝘁𝗿𝗼 𝗱𝗼 𝗰𝗮𝘀𝗮𝗺𝗲𝗻𝘁𝗼:

No casal ideal, a esposa deve cumprir 3 funções para com o marido. Ela deve ser como uma mãe para ele e cuidar dele como cuidaria de seu filho. Ela deve ser como uma irmã para ele e ter um relacionamento solidário com ele. Ela deve ser sua amante e compartilhar sua intimidade.

É a mesma coisa para o homem. Ele deve ser pai, irmão e amante. É por isso que muitas vezes na África a mulher pode chamar o marido de papai e o homem pode chamar a esposa de mamãe.

Tudo o que foi dito permite-nos compreender que a tradição africana não é, originalmente, uma tradição de poligamia. É uma tradição de monogamia em sua essência, pois é a união de um homem e uma mulher que formarão uma só carne. Assim reproduzirão a singularidade do Criador que é feminino e masculino.


quinta-feira, 22 de agosto de 2024

PELINTRAS E PADILHAS, A DANÇA DOS CORPOS ENCANTADOS

 O MALANDRO

Entidade poderosa dos terreiros de canjira, baixando em diversos ramos e linhas das macumbas brasileiras, Zé Pelintra nos coloca desafios. Há quem afirme que, originalmente, Seu Zé é um mestre do culto do catimbó nordestino que acabou se manifestando em outras vertentes das encantarias.

O culto do catimbó é de difícil definição. Abrange um conjunto de atividades místicas que envolvem desde a pajelança indígena até elementos do catolicismo popular, com origem no Nordeste. Tem como seus fundamentos mais gerais a crença no poder da bebida sagrada da Jurema e no transe de possessão, em que os mestres trabalham tomando o corpo dos catimbozeiros.
Dizem os juremeiros que os mestres foram pessoas que, durante suas vidas, desenvolveram habilidades no uso de ervas curativas. Com a morte, passaram a habitar um dos reinos místicos do Juremá. Lá são auxiliados pelos Caboclos da Jurema, espíritos de indígenas que conhecem as artes da guerra e da cura.
O Juremá é um lugar composto de reinos, aldeias e cidades, como nosso mundo real. Há, dependendo da linha do catimbó, quem trabalhe com cinco ou sete reinos, formados por aldeias ou cidades e habitados pelos mestres. Para a linha de cinco, os reinos são os do Vajucá, Urubá, Josafá, Juremal e Tenemé. Para a linha de sete, temos os reinos de Vajucá, Juremal, Urubá, Tigre, Canindé, Josafá e Fundo do Mar. Os praticantes do culto consideram que Alhandra, no litoral Sul da Paraíba, é a cidade que representa os reinos do Juremá na Terra, onde os poderes dos mestres da Jurema teriam sido anunciados.
A Jurema, sem o acento agudo, é uma bebida tirada da árvore de mesmo nome, bastante utilizada nos ritos de pajelança dos tupis. É ela que dinamiza o catimbó e práticas similares, como o babaçuê e o toré.
Feitas essas breves observações sobre o catimbó, vamos a Seu Zé. Dizem muitas coisas e contam as mais mirabolantes e distintas histórias sobre certo José de Aguiar. Contam, por exemplo, que ele nasceu no Cabo de Santo Agostinho, em Pernambuco, cresceu em Afogados da Ingazeira, outro município pernambucano, e posteriormente foi para o Recife, morando na Rua da Amargura, próximo à zona boêmia da cidade. Sofrendo de mal de amor, apaixonado perdidamente por Maria Luziara, Zé teria resolvido percorrer os sertões e praias do Nordeste para esquecer o infortúnio. Esteve na Paraíba e em Alagoas. Até hoje os terreiros cantam o desamor e sua sina:
“Na Rua da Amargura
Onde Seu Zé Pelintra morava
Ele chorava por uma mulher
Chorava por uma mulher que não lhe amava.”
Nessa peregrinação, ele teria sido iniciado nos ritos da Jurema sagrada por Mestre Inácio, por sua vez iniciado no culto pelos índios caetés. Após se encantar ou morrer (há controvérsias), Zé de Aguiar baixou um dia no juremeiro José Gomes da Silva e disse que era José Pelintra, Príncipe da Jurema e Mestre do Chapéu de Couro.
Quando baixa como entidade do catimbó nos terreiros nordestinos, Zé Pelintra é, portanto, um mestre. Com bengala e cachimbo, usa camisa comprida branca ou quadriculada e calça branca dobrada nas pernas, com um lenço vermelho no pescoço. Sempre trabalha descalço.
Ao chegar ao Rio de Janeiro, provavelmente trazido pelo traslado de inúmeros migrantes nordestinos atraídos para a cidade que, na primeira metade do século XX, era a capital federal, Seu Zé se transformou. Virou carioca e teve seu culto incorporado pela linha da malandragem na umbanda. Há quem diga que foi morar na Lapa, farreou à vontade e morreu numa briga no Morro de Santa Teresa. Abandonou as vestes de mestre da Jurema e agora baixa nos terreiros da Guanabara trajando terno de linho branco, sapato de cromo, chapéu panamá e gravata vermelha. Seu Zé se adaptou a essa nova circunstância. A viagem do Pelintra é até hoje retratada em um de seus pontos mais famosos:
“Ô Zé, quando vem de Alagoas
Toma cuidado com o balanço na canoa
Ô Zé, faça tudo que quiser
Só não maltrata o coração dessa mulher.”
A MOÇA
Zé Pelintra é a figura icônica do malandro nos terreiros do Brasil. Já a figura feminina que ocupa um lugar de protagonismo nas rodas da malandragem e nas giras dos exus é a pombagira. Se o Zé é o catimbozeiro que se fez malandro nas curimbas cariocas, quem são as moças formosas – maneira pela qual as pombagiras são conhecidas nas umbandas? Há que se raspar o fundo do tacho para, palidamente, acariciar os saberes que podem nos levar a elas.

Do ponto de vista da etimologia, a palavra pombagira certamente deriva dos cultos angolo-congoleses aos inquices. Uma das manifestações do poder das ruas nas culturas centro-africanas é o inquice Bombojiro, ou Bombojira, que para muitos estudiosos dos cultos bantos é o lado feminino de Aluvaiá, Mavambo, o dono das encruzilhadas, similar ao Exu iorubá e ao vodum Elegbara do povo fon. Em quimbundo, pambu-a-njila é a expressão que designa o cruzamento dos caminhos, as encruzilhadas.
Os cruzos religiosos entre as várias culturas de origens africanas, ritos ameríndios, tradições europeias, vertentes do catolicismo popular etc. dinamizaram no Brasil vasta gama de práticas religiosas fundamentadas em três aspectos básicos: a possibilidade de interação com ancestrais, encantados e espíritos através dos corpos em transes de incorporação (é o caso da umbanda) e expressão (é o caso dos candomblés); um modo de relacionamento com o real fundamentado na crença em uma energia vital – que reside em cada um, na coletividade, em objetos sagrados, alimentos, elementos da natureza, práticas rituais, na sacralização dos corpos pela dança, no diálogo dos corpos com o tambor; e na modelação de condutas estabelecidas pelo conjunto de relatos orais e pela transmissão de matrizes simbólicas por palavras, transes e sinais.
A pombagira é resultado do encontro entre a força vital do poder das ruas que se cruzam e a trajetória de encantadas ou espíritos de mulheres que viveram a rua de diversas maneiras (a corte das pombagiras é vasta), tiveram grandes amores e expressaram a energia vital através de uma sexualidade aflorada e potencialmente livre.
A energia pulsante dessas entidades cruzadas, como se o domínio delas já não fosse as encruzilhadas, é libertadora, mas nunca descontrolada. Ela é sempre controlada pela própria potência do poder feminino e se manifesta em uma marcante característica da entidade: a pombagira é senhora dos desejos do próprio corpo e manifesta isso em uma expressão corporal gingada, sedutora, sincopada, desafiadora do padrão normativo. A pombagira, como diz um antigo ponto de umbanda, é uma ventania que se encanta nos corpos:
“Naquela ventania, ô Ganga
Que sopra ao pé da serra
Vejo Maria Padilha, ô Ganga
Que vem girar na terra.”
PELINTRA ENCONTRA PADILHA
No carnaval de 2016, Zé Pelintra deixou os terreiros de macumba e ganhou a Marquês de Sapucaí, avenida onde as escolas de samba do Rio de Janeiro desfilam durante o Carnaval. Não precisou alterar as cores de sua vestimenta, já que a escola que o homenageou, o GRES Acadêmicos do Salgueiro, veste vermelho e branco, feito a gravata e o terno do malandro encantado. As pombagiras também tomaram conta do sambódromo.
O enredo da agremiação, “Ópera dos Malandros”, partia do musical de Chico Buarque de Hollanda para falar da malandragem. Nesse aspecto, trazia referências ao icônico Rio de Janeiro da década de 1930, território por excelência do “malandro histórico”, e referências ao “malandro divino”, cujo território de atuação é o terreiro de santo.
O enredo do Salgueiro causou celeuma, confirmada pelo desfile. Na frente da escola vinha Seu Tranca Rua, exu de umbandas e quimbandas, com sua desconcertante multiplicidade cruzada de quem cozinha a gambá na hora que quer. Atrás dele, a turma da guma, da curimba, da raspa do tacho, da beleza desconcertante e amedrontadora da rua, dos feitiços da Jurema, dos catimbós, das tabernas ibéricas e biroscas cariocas, daqueles que correram gira pelo Norte.
Dias antes do desfile oficial, a escola se apresentou em um ensaio geral na avenida. A rainha de bateria, Viviane Araújo, veio representando as pombagiras em sua performance. O fato gerou uma enxurrada de comentários preconceituosos nas redes sociais, especialmente de neopentecostais que acusaram Araújo de emprestar seu corpo ao diabo.
No dia do desfile, contrariando expectativas, a rainha de bateria não veio representando uma pombagira. Foi a vez de os adeptos das religiões afro-brasileiras acusarem o Salgueiro de ter recuado em virtude dos ataques evangélicos.
O fato é que o malandro batuqueiro e a dama da noite incomodaram de todas as formas. Para desamarrar o nó dessa polêmica, nos resta tentar responder à pergunta que o desfile salgueirense escancarou: quem tem medo de Seu Zé Pelintra e de Dona Maria Padilha?
A GIRA
As reflexões que o encontro entre Seu Zé Pelintra e as pombagiras sugerem, com toda a controvérsia provocada pelo desfile do Salgueiro, devem ser dimensionadas a partir de uma constatação: a exclusão social no Brasil é um projeto de Estado. A afirmação simples apenas constata que, com momentos raros de relativização desse processo, o Brasil foi um país que articulou estratégias em relação à pobreza, fundadas na experiência que é o maior marco da nossa formação: a escravidão. A dominação do outro se articulava em estratégias de controle dos corpos com inúmeras variantes: o corpo amansado pela catequese, pelo trabalho bruto, pela chibata e pelo confinamento em espaços precários – porões de navios negreiros, senzalas, canaviais e cadeias.
O fim da escravidão exigiu redefinições nas estratégias de controle dos corpos e coincidiu com os projetos modernizadores que buscaram estabelecer, a partir da segunda metade do século XIX, caminhos de inserção do Brasil entre os povos ditos civilizados. Tomo o Rio de Janeiro como horizonte dessas reflexões.
A relação das elites e do poder público com os pobres, dentro dessa aventura modernizadora, era paradoxal. Os “perigosos” maculavam, do ponto de vista da ocupação e reordenação do espaço urbano, o sonho da cidade moderna e cosmopolita. Ao mesmo tempo, falamos dos trabalhadores urbanos que sustentavam – ao realizar o trabalho braçal que as elites não cogitavam fazer – a viabilidade desse mesmo sonho: operários, empregadas domésticas, seguranças, porteiros, soldados, policiais, feirantes, jornaleiros, mecânicos, coveiros, floristas, caçadores de ratos, desentupidores de bueiros.
Novas e velhas estratégias de confinamento dos corpos então se articularam, agora em favelas, subúrbios, vagões lotados e cadeias. O ideal era que os pobres não estivessem nem tão perto, a ponto de macular a cidade restaurada e higienizada, e nem tão longe, a ponto de obrigar a madame a realizar os serviços domésticos que, poucas décadas antes, eram tarefas das mucamas de sinhá.
Aqui vem a questão que precisa ser levantada com mais clareza: o controle dos corpos se articula permanentemente ao projeto de desqualificação das camadas subalternas como agentes incessantes de invenção de modos de vida. Esse projeto de desqualificação da cultura atua em algumas frentes. Entre elas, vale citar a criminalização de batuques, sambas, macumbas, capoeiras; e a repressão aos elementos lúdicos do cotidiano dos pobres (o jogo do bicho – reprimido por ser, no início do século XX, uma loteria dos mais humildes – é exemplo disso).
Essa prevenção contra a pobreza articulou-se também no campo do discurso em que atua a história como espaço de produção de conhecimento. Apenas elementos externos aos pretos, indígenas e pobres em geral – a ciência, o cristianismo, a democracia representativa, a economia de mercado, a inclusão pelo consumo de bens, a escola ocidental etc. – poderiam inseri-los, ainda que precariamente e como subalternos, naquilo que imaginamos ser a história da humanidade.
Os corpos pelintras e pombagirados, nesse contexto, funcionam como antinomias ao projeto colonizador. Escapam da normatividade pelo transe, questionam em suas gingas e narrativas performáticas o estatuto canônico, levam ao limite da exasperação um projeto civilizatório que não consegue lidar com tamanha radicalização na alteridade.
A estranheza repulsiva que Seu Zé e Maria Padilha, Dona Molambo, Dona Sete Saias e tantas outras pombagiras causam revela, assim, desmantelando os velamentos cordatos, o pano de fundo da formação brasileira: o racismo de base colonial. É evidente que raça aqui não é o conceito biológico já superado. Penso, e não há novidade nisso, a raça como categoria política-social-cultural historicamente constituída, que continua atuando com vivacidade em nossas ruas, cadeias e cemitérios.
O racismo, nesse sentido, opera de três maneiras: na impressão mais direta da cor da pele; na desqualificação dos bens simbólicos daqueles a quem o colonialismo tenta submeter; e no trabalho cruel de liquidar a autoestima dos submetidos, fazendo com que introjetem a percepção da inferioridade de suas culturas. A discriminação, portanto, vai além do corpo físico (mas parte dele) e também se estabelece a partir da inferiorização de bens simbólicos daqueles a quem o colonialismo tenta submeter: crenças, danças, comidas, visões de mundo e formas de celebrar a vida, enterrar os mortos, educar as crianças etc.
O desfile do Salgueiro se localiza, portanto, no campo explicitamente oposto ao daquele em que os mecanismos coloniais atuam, ao trazer para o centro da perspectiva o catimbozeiro virado em malandro e as pombagiras de corpos ajustados, paradoxalmente, na lógica do desajuste normativo da experiência dos corpos livres. Zé Pelintra e as pombagiras, nesse sentido, não são sobreviventes. Nossa proposta é entendê-los a partir de outra categoria: a de supraviventes.
Valemo-nos, para definir a supravivência, da artimanha mandingueira das palavras, esticando a percepção da linguagem para o campo da poesia no qual o arrebatamento, inclusive conceitual, atua. Nossa hipótese é a de que somente a encantação da língua pode dar conta dos corpos malandreados no samba.
O projeto de normatização da vida pressupõe, para que seja bem-sucedido, estratégias de desencantamento do mundo e aprofundamento da colonização dos corpos. É o corpo, afinal, que sempre ameaçou, mais do que as palavras, de forma mais contundente, o projeto colonizador fundamentado na catequese, no trabalho forçado, na submissão da mulher e na preparação dos homens para a virilidade expressa na cultura do estupro e da violência: o corpo convertido, o corpo escravizado, o corpo domesticado e o corpo poderoso. Todos eles doentes. Nenhum deles corpos de pelintras e padilhas salgueirenses.
A colonização (pensada como fenômeno de longa duração, que está até hoje operando suas artimanhas) gera sobras viventes, gentes descartáveis que não se enquadram na lógica hipermercantilizada e normativa do sistema. Algumas sobras viventes conseguem virar sobreviventes. Outras, nem isso. Os sobreviventes podem se tornar supraviventes – aqueles que foram capazes de driblar a própria condição de exclusão (as sobras viventes), deixaram de ser apenas reativos ao outro (como sobreviventes) e foram além, inventando a vida como potência (supraviventes).
É na supravivência que o malandro divino e a dona das tabernas e encruzilhadas atuam. Eles trazem em seus corpos o grande signo da malandragem, a capacidade de se adaptar aos espaços do precário, e acabam subvertendo esses próprios espaços ao praticá-los como terreiros de saberes encantados, sacralizando o mundano e profanando o sagrado. São os corpos de pelintras e padilhas, em interação fantástica com seus cavalos de santo, que operam na mais radical oposição ao projeto colonial. São, por isso mesmo, talhados para o exercício sublime da liberdade. É como tal que incomodam, desafiam e, sobretudo, amedrontam os normatizados na lógica da contenção dos corpos ao insistir, gargalhando, na vida.
Laroiê!






JOGO DE BÚZIOS

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