domingo, 2 de junho de 2019

O PIUNGA E A PENA DO SACI

Como eu disse, o Piunga tomou uma das três penas do Saci, quando este se descuidou, e correu para casa, indo esconder aquela pena dentro de sua caixa de tralhas. O Saci tentou alcançá-lo, mas a aproximação de Serafim, o Fimfim do Piunga, afastou-o.
Uma semana se passou sem que o garoto encantado voltasse a dar as caras. Enquanto isto, meu maninho continuava grudado no Serafim, que lhe enchia a cabecinha com as histórias do interior do Brasil. Mamãe não gostava muito daquilo, pois o Piunga passou a viver com a cabeça no mundo da Lua, como dizia ela. Mas as histórias tornavam meu maninho muito criativo. Ele não dava nenhuma bola para o computador nem para a internet. Adorava muito mais ouvir as histórias do Serafim, principalmente à noite, quando deitava sua cabecinha no colo do matuto para ouvi-lo contar as histórias. Piunga olhava para o céu estrelado e dormia ouvindo seu Fimfim narrando contos de príncipes e princesas. Laís e eu também gostávamos muito daquelas histórias e não dispensávamos os contos no início da noite. Papai sempre levava o Piunga para sua caminha depois que ele roncava firme agarrado num sonho qualquer que a internet jamais lhe daria.
Naquela noite a Laís acordou com alguma coisa estranha dentro do quarto. Ergueu-se atenta e ficou prestando atenção  nas sombras que pareciam mover-se à luz fraca e fantasmagórica da lua que entrava pela janela aberta. Sim, alguma coisa estava ali dentro. Laís abriu o mosquiteiro e desceu da cama, cautelosa. Podia ser alguma cobra que entrara sorrateira no seu quarto e minha irmã tinha um medo danado de cobras. Pegando a lanterna ela vasculhou o chão do quarto, mas não viu nada de anormal. Então, pé-ante-pé foi até à janela e ali deu de cara com o Saci. Ele estava pitando um cigarro de palha e segurava na outra mão uma das bonecas da mana. Justamente a Barbie pela qual ela era apaixonada.
– Hei, quem é você, moleque? – Estrilou a Laís, esquecendo-se do medo e tentando tomar das mãos do Saci sua boneca predileta.
– Me dá minha boneca, seu peste. Não sabe que é feio roubar? Pior ainda: não sabe que não se deve entrar no quarto de alguém sem licença para isto? Dá cá minha boneca, diabo!
Todos os esforços da mana foram inúteis, pois o Saci era bem mais rápido que ela. Ele saltou da janela e lhe gritou:
– Vem cá! Se conseguir me alcançar eu lhe dou sua boneca. Vem, quero ver se é capaz de me pegar!
A Laís era bem maior que o Saci e pensou que seria fácil agarrar o menino arteiro. Sem pensar duas vezes, saltou a janela e correu atrás do encantado. E correu, e correu e correu até se sentir cansada. Foi então que viu que estava muito longe de casa. Estava dentro de uma estranha mata, muito verde, muito densa… E se lembrou do que o Piunga tinha contado sobre a mata encantada do Saci, quando lá estivera. Seu coração disparou e a mana tentou voltar por onde tinha vindo, mas o caminho havia desaparecido. Laís gritou por mamãe, por papai, por mim, pelo Chico, pelo Fimfim e não recebeu nenhuma resposta. Com o coração aos pulos mergulhou no cipoal buscando uma saída, mas quanto mais andava, mais se enroscava nos cipós.
Desesperada, Laís começou a chorar.
O dia  amanheceu e todos estranhamos a ausência da mana na mesa do café matinal. Mamãe comentou, preocupada:
– Será que minha filha passou mal?
– Por que pergunta isto? – estranhou papai, sustando o pedaço de bolo que levava à boca.
–  Laís sempre foi gulosa e sempre foi a primeira a se sentar à mesa, pela manhã. Não é estranho que até agora não tenha vindo ter conosco?
– Vai lá no quarto ver se ela está sentindo alguma coisa – Sugeriu papai e mamãe não esperou que ele repetisse a sugestão. Mas  não demorou a retornar com ar alarmado.
– Álvaro, nossa filha não  está no quarto. Ela não é de sair assim, sem tomar o desjejum.
Papai gritou pelo Serafim e lhe contou que Laís tinha saído muito cedo. Pediu-lhe que desse uma volta pelas redondezas para descobrir seu paradeiro. Mamãe, agoniada, tinha perdido o apetite e eu, também. Só o Piunga e o Chico comeram com vontade. O Chico era um moleque de rua que meus pais tinham adotado quando da aventura do rapto do Piunga. Desde aquele dia que o moleque era como se fosse nosso irmão. Era tão arteiro quanto o Piunga, de quem era companheiro inseparável. Mas tendo sido moleque de rua, não acreditava muito em contos de carochina.  No entanto, desde quando nos tínhamos enrolado com o Lobisomem, que o Piunga chamava de Lobis, que ele andava meio balançado com sua descrença.
Mal  acabaram de sair da mesa e o Piunga puxou  o Chico pelo braço e correu com ele para fora de casa. Quando estavam longe, ele se voltou para seu companheiro e disse:
– Eu sei quem levou a Laís.
– É? E por que não disse isto à sua mãe? Ela está aflita…
– É porque não posso. A culpa foi minha. Eu tomei uma das penas do braço  do Saci. Aí, ele levou a Laís.
– E você viu quando o Saci fez isto?
– Ver, não vi. Mas ouvi a Laís brigando com alguém. Alguém que tinha pegado a boneca da mana. E Laís não é sonâmbula, logo, tinha de estar discutindo com um moleque – foi assim que eu ouvi ela dizer. E quem é moleque aqui, senão o Saci?
– Hum… Acho melhor a gente falar com o Fimfim. Ele vai saber o que…
– Não! O Fimfim, não. Ele vai correndo falar com meus  pais. Eu prefiro que nós dois vamos libertar a Laís.
– Mas Piunga, como é que vamos fazer isto?
– Todos nós temos um anjo de guarda, Chico. Até você tem um. A gente encontra o Saci, ele nos leva para a floresta encantada e nossos anjos de guarda nos ajudam a fugir de lá. Como o meu já fez daquela vez, quando eu queria capturar meu lobis, lembra? Foi meu anjo de guarda que me tirou da floresta encantada.
– Piunga, eu não quero nem saber de floresta encantada. Estou muito bem aqui…
O redemoinho chegou de surpresa e o moleque Saci saltou dele rapidinho. Chico arregalou os olhos. O garoto encantado não era nada parecido com aquele que lhe tinham descrito, lá nas ruas de Sampa. Não era preto. Não fumava cachimbo. Não tinha barrete vermelho na cabeça. Não tinha uma só perna nem tinha o pé para trás. Era normal. Normalíssimo. Um menino simpático, só com um olhar maldoso na face. No resto, era igualzinho a qualquer molecote índio.
– CADÊ MINHA IRMÃ! – Gritou o Piunga tão logo viu o Saci.
– E eu sei lá! – Respondeu o garoto maroto, dando de ombros e se afastando de meu mano que tentava segurá-lo.
– Sabe, sim. Eu vi quando você esteve aqui ontem à noite e pegou a boneca dela. Anda, devolve a Laís.
– Vai devolver minha pena?
–  Não!
– Então, fica sem sua irmã.
Naquele momento o Serafim se aproximou. O Saci sentiu  seus passos e sumiu dentro do redemoinho. Mal o pé-de-vento se foi, e o Fimfim  chegou  até os dois traquinas.
– Quem estava aqui cum vancês?
– O Saci – gritou o Chico, afobado, para contrariedade do Piunga.
– Vancê  o viu? – Perguntou  o Serafim, desconfiado.
– Vi, sim. E ele não é nada do que eu pensava, Fimfim.
– Eu sei, eu sei. E… Ele tá co’ a minina Laís, nun tá?
–  Tá, sim, tá sim – gritou o  Chico, recebendo um pisão no pé, dado pelo  Piunga que o olhava com raiva.
– Ih! – Exclamou  Serafim, levando a mão à carapinha branca. – Num vai sê fáci dá a nutíça aos pais de vancês. 
– Não vai falar nada com eles, Fimfim – gritou Piunga, adiantando-se ao Chico. – Eu vou buscar a Laís lá na floresta encantada. Prometo.
– Ô minino, num se brinca com o muleque Saci, nhor não. Ele pode…
– Eu  sei o que ele pode, Fimfim. Já estive lá na floresta dele, se esqueceu? E voltei. Mesmo que digam que ninguém volta de lá, eu voltei. E vou fazer a Laís voltar também, com a ajuda do Chico.
– Minha ajuda uma ova!!! – gritou o Chico recuando para se distanciar do mano. – Eu já  disse que não  quero nada com  o tal de Saci. E depois do que vi aqui é que quero mais distância dele. Não conta comigo, não, Piunga. Eu acho melhor a gente ir contar aos seus pais.  Eles saberão o que fazer. Afinal,  são gente grande.
– Gente grande é burra, Chico. Eles não  sabem  nada de gente encantada. Nós  é que devemos ir atrás da Laís e você vai comigo. Não se discute… 
Naquele momento o pé-de-vento voltou e antes que alguém pudesse fazer alguma coisa envolveu o Chico num funil de poeira. Quando passou, o nosso moleque de rua tinha sumido…



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