quinta-feira, 3 de agosto de 2023

CAUSAS DA DESMOTIVAÇÃO DO MÉDIUM DE UMBANDA

Eu acredito que muitos dos que aqui lerem esse texto, já se sentiram desmotivados ou mesmo já se depararam com pessoas que por mais que tinham anos de Umbanda, numa determinada ocasião, fraquejaram e sentiram vontade de largar tudo, digo pessoas mais velhas na religião, mas não deixo como regra, porque esse tipo de sentimento não tem uma determinada época ou regra para acontecer então cabe a todos.

Às vezes a pessoa sente uma perda de energia tão grande, que ela não consegue nem acender uma vela, na realidade ela não sente vontade, ela até se inclina a fazer, mas chega na hora “H”, ela pensa agora não, depois. E nisso vai passando-se os dias. E como um vírus pestilento a desmotivação vai tomando conta.

Essa desmotivação pode ser provocada por inúmeras questões, originadas em nós mesmos (pela forma que nos enxergamos perante a vida), pelos outros (que muitas vezes nos derrotam, nos jogam para baixo), ou mesmo por ordem espiritual (assédio, obsessão).

Vamos refletir juntos a respeito. Muitas vezes essa desmotivação começa pela forma com que nos enxergamos perante nossa vida, pelas nossas próprias expectativas que vamos criando em torno de nós, muitas vezes o médium chega num patamar de tão necessário, diria até insuperável, que ele não se permite fracassar diante de um obstáculo, tipo: “… eu sou médium, filho de Ogum, eu tenho que conseguir ajudar tal pessoa, eu estou acima de tudo, eu nunca erro, tudo dá certo para mim…”, só que infelizmente não é bem assim, e as vezes o Médium se depara com inúmeras dificuldades na vida e obstáculos que ele vai começando a perceber que mesmo ele tendo amparo espiritual está sujeito as entrelinhas que a vida impõe, essas dificuldades poderão surgir em inúmeros aspectos e setores da vida, é no ambiente familiar, aquele filho que está andando em más companhias, e na harmonia conjugal que anda de mal a pior, é na saúde que anda mais frágil do que de costume, é a crise financeira que assola o país que lhe tirou o trabalho, os recursos para manter a sua casa e família e assim por diante, e todas essas questões vão abalando a fé daquela pessoa.

A falta de aceitação perante os obstáculos vai minando as forças, porque nem tudo depende unicamente da pessoa, as vezes os braços se cansam, doem de tanto empunhar a espada na batalha. E o guerreiro fraqueja, e pode se deixar sucumbir. As vezes a aceitação é necessária, é preciso recuar, esperar o melhor momento para continuar, contornar a situação, mas nem sempre a ansiedade deixa que isso aconteça, e quando nada se concretiza a desmotivação aparece.

O Médium começa a perceber que ajuda a muitas pessoas, mas se desmotiva quando não consegue ajudar a si mesmo. E muitas vezes isso acontece porque ele se deu um poder que não pertencia a ele, e se esquece que está aqui em uma escola, um mundo de expiações e o que tiver que passar, ninguém poderá passar por ele. A grande diferença é como ele vai se colocar perante as dificuldades, se vai se abrir a ter apoio ou não de seus guias e mentores. Às vezes é preciso se silenciar para ouvir o espiritual.

É tanto sofrimento que a pessoa vai perdendo a crença nos próprios resultados, e começa a pensar: “…vou todos os dias de gira no terreiro, cumpro minhas obrigações direitinho, e por que meu Pai acontece tanta coisa de ruim comigo? ” Com essas e outras o Médium vai perdendo a crença e a confiança na sua própria capacidade de superação, ninguém é de ferro, somos Médiuns, mas não somos os próprios Orixás que nos regem, e enxergar essa limitação ajuda a criar forças para superar as dificuldades. Porque o que causa a desmotivação é achar que não consegue mais, que não é mais capaz de realizar algo.

Essa visão é tão equivocada que vemos críticas pesadas oriundas de terceiros que dizem: “… está assim desse jeito porque é “macumbeiro”, fica mexendo com coisas de espíritos, isso é atraso de vida…”, até então nem devem ser consideradas porque são perseguições oriundas de pessoas que nem sabem o que estão falando na grande maioria das vezes, agora mais triste é ver críticas de tão forte teor vindas dos próprios irmãos de fé, que dizem: “…fulano está assim porque o terreiro onde frequenta é fraco, suas entidades e guias são fracos…”. Como se nossos guias fossem responsáveis por tudo que nos acontece, essa perseguição ignorante chega ao cúmulo do absurdo quando vemos médiuns que simplesmente sofrem calados, porque temem ser criticados, humilhados por outros irmãos de crença.

Porque lhes digo e afirmo que quem está sofrendo não quer que lhes atire pedras ou críticas, apenas uma motivação ou mesmo o apontar de um caminho, uma saída já ajuda é suficiente, ou quando mais se não puder ajudar apoie.

Uma das causas também da desmotivação é quando o médium acha que já aprendeu tudo, logo sabe de tudo, não se abre a aprender coisas novas, não se defronta perante seus próprios conhecimentos, irredutível não aceita críticas, não se dá o direito a dúvida e ao questionamento de pensar, será que tudo que sei é certo mesmo? E mesmo quando correto, não se deixa aprimorar-se.

A falta de expectativa de renovar-se e aprender no dia a dia na religião também traz desmotivação, tudo vira rotina médium muitas vezes acredita que ele não consegue fazer outras coisas, ele se bloqueia tanto que não consegue ver as esquinas que existem em sua estrada, só vê um caminho reto, sem curvas e vazio. Mas seu medo, a sua falta de crença em si mesmo não permite ver que em cada esquina dessa estrada tem alguém ali, te intuindo, te inspirando a prosseguir, porque nossos guias não podem vir e resolver e viver por nós, mas podem nos intuir, nos encaminhar e nos inspirar a uma saída, até mesmo nos inspirando a aceitação necessária para determinados momentos nos inspirando a desapegar e continuar, porque ficar ali não vai resolver muita coisa.

Quem nunca esteve numa situação e do nada recebeu um telefonema, ou cruzou com uma pessoa que a tempos não via, e bate papo aqui e bate papo ali, quando acabou percebeu que aquela pessoa havia deixado algo, a boa palavra, uma esperança, um encorajamento, as vezes nossos guias usam da boca de outras pessoas para chegar até nós.

A desmotivação muitas vezes é oriunda, pela nossa teimosia e descrença, mesmo dizendo que tem uma fé inabalável, que ama seus guias e Orixás, mas muitas vezes o médium vai pede, ora, faz sua oferenda, acende sua vela e pede muito uma determinada coisa ou quer muito um determinado resultado, e pensa:“… meu Orixá vai me dar, meu Preto Velho vai buscar para mim, meu Exu não há de me faltar..”, e de repente, “BUMM” não rolou, não deu certo, você não conseguiu, e logo vem a revolta, para que eu vou no terreiro, eu não vejo uma melhora na minha vida, eu não consigo nada de bom, eu só me lasco, ah quer saber não quero saber mais de nada de terreiro, de guias etc., e lá fica umas horinhas xingando, praguejando, revoltado. Ah e não me venha dizer que isso não acontece, porque acontece sim, a fé fraqueja, somos falíveis, e estamos bem longe da perfeição.

Só que o médium se esquece, que nem sempre aquilo que ele está pedindo é bom realmente para ele, por isso quando pedirem digam: Senhor, que eu seja abençoado com o que o senhor reservou de melhor para mim. Que seja feita a sua vontade. Muitas vezes não sabemos o que estamos pedindo, mas nossos Orixás, guias e mentores sabem.

Sabe aquela frase que diz: filho de umbanda bambeia, mas não cai, ela é bem cabível nesses momentos, mesmo diante de tanta revolta nossos guias não nos abandonam e sempre buscam nos ajudar na medida do possível que lhes é permitido, porque saibam que nem tudo eles podem intervir.

E o filho de pemba fica ali desmotivado, desanimado diante de tantas lutas e dificuldades, mas as vezes é preciso chegar no fundo poço, para olhar para o alto e ver que tem uma saída, temos nosso instinto de sobrevivência nato, a gente chora, se desespera, mas tem uma coisa ali dentro de cada um que é mais forte do que tudo, a nossa Fé. A Fé é como uma chama de uma vela que tem momentos que ela fica pequenininha quase imperceptível e tem outros que vira uma labareda de fogo imensa. E nós somos a vela e quando nossa chama ameaça de apagar vem nossos guias e nos cercam para que vento nenhum a apague.

Sabe meu irmão e minha irmã, não é vergonha as vezes fraquejar, bambear, isso acontece mesmo com os mais valorosos médiuns, medo, todo guerreiro tem perante a batalha, e o medo nem sempre é ruim, as vezes o medo nos ajuda a recuar na hora certa e descobrir a melhor estratégia para vencer. E quando sua prece não querer sair da sua boca, porque a tristeza e a dor a está impedindo, reze com a alma e com o coração, feche os olhos e converse com Deus, com seus Orixás e seus guias com seu pensamento, porque este ninguém consegue barrar.

E se sua desmotivação for ocasionada dentro do próprio terreiro, com as pessoas que ali estavam, pensa que talvez essas pessoas lhe foram colocadas para te ensinar algo, para que se auto superasse, para lhe ensinar a não cometer os mesmos erros, sobre as leis de compaixão, perdão e caridade, pense que essas pessoas lhe foram colocadas em sua vida para te ensinar a ser mais forte, e fortalecer sua fé e crença em si mesmo.

Mas, lembre-se que essas pessoas podem se dizer fazer parte da Umbanda, mas não são a Umbanda como um todo, e que dentro dessa egrégora há várias famílias e que se essa não é para você com certeza terá uma que será, porque Orixá é vento que ninguém prende, ele caminha por todos os caminhos e espaço, e onde você estiver seu Orixá irá estar com você.

Mas, há outra questão mais preocupante correlacionada com a desmotivação, é o assédio espiritual oriundo do acumulo da tristeza, depressão, quando nos desmotivamos, nos derrotamos na verdade, abrimos um canal perigoso, nossas armaduras tendem a ir ao chão, ficamos vulneráveis e desprotegidos, e alguns espíritos usam de nossa fraqueja para nos atingir.

Acabamos por nos sintonizar naquela frequência negativa, tudo fica enegrecido em torno da pessoa, parece que a esperança acabou, porque esses espíritos acabam por nos induzir e acentuar ainda mais determinados sentimentos.

Infelizmente muitos médiuns nos chegam até nós no fundo do poço, completamente vampirizados, porque cederam a essas forças nefastas, obsidiados, precisam não só da força de seus guias e mentores mas de toda uma egrégora espiritual que como um exército se prontificará a lhe salvar o espírito, resgatando sua força de viver. É por essas e outras que é tão preocupante quando vemos uma pessoa desmotivada sem vontade de viver.

A desmotivação tem levado a muitos danos e perdas, pode sim ser algo momentâneo como mencionei, algo passageiro, uma doença que após o paciente medicado com uma boa dose de motivação e encorajamento acaba rapidinho, mas como todo mal se não tiver conscientização imediata, incentivo, poderá se tornar algo muito danoso e perigoso, levando a consequências terríveis, uma dessas consequências que temos presenciado é o “suicídio”, que é a fuga, a falta de vontade de viver, é quando a pessoa usa do seu sopro para desligar o botão o laço que liga sua vida a esse mundo, é muito triste, porque se essas pessoas tivessem tido talvez a palavra certa na hora certa, muitos não teriam feito tal ato.

A vida está aí, linda e bela, temos inúmeros motivos para nos motivar, mas como seres humanos falíveis tendemos a sempre olhar para o lado ruim da situação, hoje em dia viver nos dias atuais onde nossos antepassados diziam é uma luta, hoje em dia está sendo uma guerra, são muitas dificuldades e obstáculos, mas temos graças a Deus e aos Orixás uma arma forte e imbatível, nossa Fé, e ela tem que ser renovada todos os dias, é em pensamentos, nas boas palavras e ações. Quando temos Fé sempre há uma luz no final do túnel a nos guiar, que nossa luz chegue na frente, derrubando todas as muralhas escuras impostas. E quando nossa Fé fraquejar, está na hora do filho de pemba, se colocar de joelhos novamente e orar. A oração aquieta e acalma nos dando condições de pensar e sempre aparece uma boa saída.

Por isso, cuidado com a desmotivação, encoraje-se, motive-se, tenha Fé que não há mal que dure para sempre. Tudo passa (Mãe Ignez).



sexta-feira, 28 de julho de 2023

ORIXÁS, descrição

"EXÚ – o mais humano dos orixás, de personalidade traquina, porém, se enfurece quando esquecem dele. É o fogo criativo e essencial ao homem, o impulso natural. É irreverente e criativo. Adora provocar discórdia. Segue-se um verso que descreve o seu comportamento:

“Exu matou um pássaro ontem, com a pedra que jogou hoje”.
Seu nome significa "esfera", e representa a totalidade de seu alcance: todo o plano terrestre. Como não tem compromisso com que é "certo", não sente-se obrigado a seguir os comandos de quem não o respeita.
Sendo responsável pela comunicação entre os homens e os orixás, Exu é umas das divindades africanas que mais efetua contato com o homem sendo que certas entidades são também denominadas Exú.

É filho de Iemanjá e irmão de Ogum e Oxóssi.
- Dia da semana – segunda-feira
- Cor – vermelho e preto.
- Arquétipo de seus filhos – caráter ambivalente, inclinados a maldade, depravação e corrupção, inteligência e intrigas políticas.
- Sincretismo – Diabo cristão católico, pã grego (o saci pererê pode ser considerado uma versão mais branda da entidade).
- Símbolo – tridente de ferro, fallus.
- Lugar consagrado – ar livre, atrás da porta de casa.
- Sephirah - Malkuth

- OGUM – deus da guerra ioruba, seu nome significa luta, batalha, sendo o deus ioruba mais respeitado e temido. Pode ser impiedoso e cruel , mas também dócil e amável. É o grande general no candomblé, pai rígido e severo mas apaixonado e compreensível. É o orixá do ferro, responsável pela metalurgia. Seu irmão preferido é Oxóssi, que ensinou a caçar. Nutre grande afeição por ele, zelando as vezes mais pelos filhos dele do que seus próprios.

É filho de Iemanjá e irmão mais velho de Exu e Oxóssi e o primeiro a ser saudado depois que Exu é despachado.
· Dia da semana – terça-feira
· Cor – azul escuro
· Arquétipo de seus filhos – violentos, impulsivos. Pessoas que persistem em seus objetivos, sendo triunfantes onde a maioria desistiria, não desencorajandas facilmente. batalhadores e empreendedores. Possuem humor mutável. Fisicamente seus filhos são magros porém musculosos.
· Sincretismo – São Jorge, Hórus e Ares (Marte).
· Símbolo – 7 instrumentos de metal, espada, folhas de dendezeiro, espada-de-são-jorge.
· Lugar consagrado – ar livre, entrada de casas e templos.
. Sephirah - Geburah
· Orikí (verso sagrado) -
"Ogum que, tendo água em casa, lava-se com sangue.
Os prazeres de Ogum são os combates e as lutas.
Ogum come cachorro e bebe vinho de palma.
Ogum, violento guerreiro
O homem louco com músculos de aço.
O terrível ebora que se morde a si próprio sem piedade.
Ogum que come vermes sem vomitar.
Ogum que corta qualquer um em pedaços mais ou menos grandes.
Ogum que usa um chapéu coberto de sangue.
Ogum, tu és o medo na floresta e o temor dos caçadores.
Ele mata o marido no fogo e a mulher no fogareiro.
Ele mata o ladrão e o proprietário da coisa roubada.
Ele mata o proprietário da coisa roubada e aquele que critica esta ação.
Ele mata aquele que vende um saco de palha e aquele que o compra."

- OXÓSSI - orixá da caça, filho de Iemanjá e irmão de Exu e Ogum. É o deus da fartura e prosperidade, ligado as matas e terra.Como seus irmãos Exu e Ogum, Oxóssi mora fora de casa, entretanto, vive infurnado na floresta, sendo senhor absoluto das matas. Rege a agricultura e está ligado as artes e a medicina.
- Dia da semana – quinta-feira
- Cor – azul e verde.
- Arquétipo de seus filhos – idependência, rapidez, esperteza. Não apeciam muito ficar em casa. Interessa-se por várias coisas, porém não dá proseguimento a muitas. Seu biotipo é leve e ágil, um tanto nervoso.
- Sincretismo – São Sebastião (Rio de Janeiro), São Jorge (Bahia).
- Símbolo –arco e flecha forjados de ferro (ofá). É associado a lua e a noite.
- Lugar consagrado – ar livre.

- OSSAIN - orixá das ervas, logo, da medicina. Como Oxóssi, vive no mato, é o senhor da ecologia. Detendo o conhecimento do poder das plantas, Ossain é de importância fundamental nos rituais Iorubás, pois é delas que emana o Axé, a força vital imprescindível a tais cultos. Ele é o feiticeiro, o alquimista, o bruxo (possui estreita ligação com Orunmilá, o senhor das adivinhações). Ossain está presente também nas pesquisas químicas e científicas.
Os adeptos de Ossain são chamados Olosanin ou Onisegum, curandeiros.
· Dia da semana – sábado
· Cor – verde e branco
· Arquétipo de seus filhos – calados, pessoas equilibradas, capazes de controlar seus sentimenos e emoções.Não permite que opiniões alheias mudem o seu julgamento sobre alguma coisa.
· Símbolos – pássaro, um leque de metral com 7 hastes, sendo que a do meio possui um pássaro em cima.
· Lugar consagrado – ar livre, matas.
· Orikí - "Sem folha não há orixá, não há o Axé".

- XANGÔ - o deus do trovão Iorubá. Atrevido, viril, violento e justiceiro, castiga os malfeitores. Pai da justiça.Um dos mais, senão o orixá mais, cultuado no Brasil. É o mais elegante e garboso dos orixás.
· Dia da semana – quarta-feira
· Cor – vermelho e branco
· Arquétipo de seus filhos – fisicamente são robustos, fortes, adiposos. São pessoas energéticas, ativas. Podem ser tanto educados e corteses quanto violentos e inontroláveis.
· Sincretismo – Zeus, Júpiter, São Jerônimo, Thor, Tupã.
· Símbolo – machado de duas lâminas (oxé).
· Lugar consagrado – pedreiras.
.Sephirah - Chesed

- IANSà (OIÁ) - orixá guerreira e poderosa, deusa das tempestades, raios, furacões, vendavais. Orixá da provocação e do ciúme, sendo também a paixão, a paixão violenta que corrói, é o desejo sexual. Mãe dos eguns e senhora dos cemitérios. Possui rivalidade com Ogum.
· Dia da semana – quarta-feira
· Cor – grená (entre vermelho e vinho)
· Arquétipo de suas filhas – audaciosas, poderosas, autoritárias. Temperamento sensual e voluptuoso, podendo ser ciumentas com o marido que elas próprias trairam. Quando contrariadas, podem exprimir grande cólera.
· Sincretismo – Santa Bárbara.
· Símbolo – chifre de búfalo, eruxin feito de rabo de cavalo, espada flamejante.

- OXUM - a orixá da água doce e rainha da cachoeira, da fecundidade e da meiguice. De personalidade vaidosa além de manhosa. É o charme, a pose, a sensualidade, sedução e o dengo. Onde um grupo de mulheres se reúne, lá está Oxum. Por reger a vaidade, o comportamento esnobe e metido também é associado à esta deusa iorubá. É o flerte, o namoro e o carinho. Ela é a deusa do Amor (a paixão é Iansã). Também está ligada a magia, pois possui forte conexão com as Yami Oxongará, as bruxas. Com elas aprendu a arte da magia.
· Dia da semana – sábado
· Cor – amarelo-ouro
· Arquétipo de suas filhas – elegantes, graciosas, sensuais, voluptuosas, desejo de ascensão social.
· Sincretismo – Vênus, Nossa Senhora dos Prazeres, Mãe d'água (Yara).
· Símbolo – obebê (espelho), ouro.
. Sephirah - Netzach

- OBÁ - uma orixá guerreira muito forte. Venceu numa luta sucessivamente Oxalá, Xangô e Orumilá. Ogum só a venceu mediante uma armadilha (ela escorregou numa mistura de quiabo passado por ele no chão). Deusa das enchentes, cheias dos rios e inundações. Está presente também na energia elétrica (graças a seu marido Xangô). Rege a desilusão amorosa, raiva, solidão, depressão, ciúme, sentimento de perda e frustração.
· Arquétipo de suas filhas – valorosas e incompreendidas, militância viril e ativa. Ciúme mórbido, sucesso financeiro.
· Sincretismo – Santa Catarina
- Iemanjá - uma das divindades mais populares no Brasil. A Rainha dos Mares, a Grande Mãe. Ela é o sentimento familiar, está presente no nascimento humano. Exu fecunda, Oxum cuida da gestação e Iemanjá recebe a nova vida e entrega ao Orixá regente. Numa Casa de Santo, Iemanjá organiza o grupo transformando em uma espécie de família. Ela é a família.
· Dia da semana – Sábado
· Cor – azul claro, branco.
· Arquétipo de suas filhas – fortes, rigorosas, protetoras, altivas sendo as vezes arrogantes. Se fazem respeitar, perdoam mas não esquecem uma ofensa. Maternais e sérias. Preocupam-se com os outros. Gostam do luxo e jóias caras.
· Sincretismo – nossa Senhora da Imaculada Conceição
· Símbolos – abano de metal branco.
. Sephirah - Binah

- EWÀ - a orixá da música, das coisas alegres e vivas, a rainha das mutações. Transforma a água em vapor, a lagarta em borboleta o desabrochar das flores. Também é conhecida como a energia que torna possível o abandono do corpo e a entrada do espírito numa nova dimensão.
É irmã gêmea de Oxumaré.
· Dia da semana – segunda-feira
· Cor – verde-mar e rosa
· Arquétipo de suas filhas – encantadoras, confiantes, tagarelas de humor mutável, adoram ser o centro das atenções.
· Símbolos – Arpão com uma serpente enrolada.
. Sephirah - Yesod

- OXUMARÉ - o orixá andrógino, a serpente-arco-íris. É o deus iorubá de funções múltiplas, sendo que as mais conhecidas são as da bonança e mobilidade. Uma de suas obrigações é dirigir as forças que produzem o movimento. Oxumaré negocia, pechincha, compra e vende.
· Dia da semana – terça-feira
· Cor – amarelo e verde
· Arquétipo de seus filhos – paciência, perseverancia, desejo de riqueza. Generosidade, duplicidade.
· Sincretismo – São Bartolomeu.
· Símbolos – serpente, arco-íris e chuva
. Sephirah - Hod

- OMULÚ (Obaluaiê, Xapanã ) - senhor dos cemitérios, orixá das doenças. Sua imagem é de uma pessoa coberta com um tipo de manto feito de palhas, deixando os braços e pernas à mostra. Ele se apresenta desse modo, pois segundo uma lenda Iorubá, seu corpo era coberto de cicatrizes, fazendo com que sua aparência fosse desagradável. Obaluê quer dizer "Senhor da terra", daí sua associação com a morte (além de Xapanã ser o deus da varíola e das doenças contagiosas), pois o fundo da terra é a última morada do corpo. As vezes é colocado como filho de Nanã Buruku.
· Dia da semana – segunda-feira
· Cor – preto e marrom
· Arquétipo de seus filhos – tendências masoquistas, que gostam de exibir seus sofrimentos e tristezas. Capazes de se privar de várias coisas em função dos outros.
· Sincretismo – São Lázaro, Bacalubaca (entidade vudu, senhor dos cemitérios)
· Símbolo – xaxará (um tubo de palha trançada com sementes mágicas e segredos dentro),

- NANÃ BURUKU - a mais temida e velha dos Orixás. Senhora dos pântanos, chuva e da lama, a geradora da morte. Comanda o portal entre as dimensões. É mãe de Omulu.
· Dia da semana – segunda-feira (sábado para alguns)
· Cor – branca e azul.
· Arquétipo de seus filhos – calma, benevolência, dignidade e gentileza. Lentas, gostam de crianças (perfil de vovó), bem equilibradas.
· Sincretismo – Sant'ana Nossa Senhora do Carmo.
· Símbolo – bastão
· Sephirah– Daath

- OXALÁ - um dos orixás mais respeitados, conhecido como o Grande Pai. É considerada a maior das divindades Iorubás (Oludumaré é inascecível). É ele quem decide a hora da morte.Exu inicia e Oxalá termina. É um dos 5 Orixás Balés, os ligados a morte. Os outros são: Ogum, Omulu, Iansã e Nanã. É conhecido também por Oxalufã e Oxagiã, respectivamente Oxalá velho e novo.
Segundo uma lenda, Oxalá fora proibido de tomar vinho de palma, porém ignorou a recomendação e bebeu ao fazer os homens do barro. Ao se exceder, os homens saiam defeituosos, deformados, capengas, corgundas, etc. Alguns foram retirados do forno antes da hora, saindo pálidos, eram os albinos. Por isso todos os albinos são consagrados a Oxalá. As pessoas consagradas devem sempre vestir branco (cor de luto iorubá).
Além disso, Oxalá rege a paz e a tranquilidade, é o equilíbrio de todas as coisas, em suma, a organização final.
· Dia da semana – sexta-feira
· Cor – branca
· Arquétipo de seus filhos – Alto, robusto, porte majestoso e elegante, guerreiros embora não agressivos, lentos e cabeçudos. Idealistas, pensamento a frente de seu tempo, intuição do futuro
· Sincretismo – Senhor do Bonfim (na Bahia existem 16 Oxalás), Odin, Cristo.
· Símbolo – cajado, canjica (comida)
· Sephirah - Chokmah - Oxalufã e Thiphareth - Oxagiã.
Complemento

EXÚS - apesar de Exu ser um orixá, também são denominados exus, as entidades que realizam os pedidos dos ebós. Oriundos da Quimbanda, existem um sem número de exus, cada um com sua característica própria e adequados a determinados pedidos. A maioria está ligada a algum Orixá. São 7 os Exus comandantes de falanges, sendo que cada subordinado, comanda mais 7. os comandantes são:
- Exu Sete Encruzilhadas
- Exu Marabô
- Exu Tranca Ruas
- Exu Tiriri
- Exu Gira Mundo
- Exu Veludo;
- Exu Pomba Gira (exus femIninos)

ORUNMILÁ - o senhor das adivinhações. Apesar de não ser um orixá, Orunmilá é de fundamental importância no candomblé. O Babalaôs (responsáveis pelo jogo de búzios) são seus porta-vozes.
Eguns - espíritos dos antepassados. O seu culto é forte no Brasil, onde as suas aparições são cercadas de mistério: eles adentram o local repentinamente, de baixo de uma garnde coberta de pano colorida, de onde não se pode ver nada. Os braços e pernas ficam ocultos, assim como o rosto. Alguns falam que não há nada debaixo da vestimenta. Os mais evoluidos falam (em Iorubá), mas a maioria rosna e geme. São conduzidos pelo Ojé e sua varinha (inxan). Alguns Eguns são de linha menos evoluidas trazendo consigo uma carga de maldade grande; são conhecidos como Quiumbas .
Existe uma tribo indígena no nordeste brasileiro, os Pankarurus que valem-se da mesma prática. No caso deles os eguns são chamados de Encantados. A semelhança adveio da formação cultural: possuem antepassados negros, os escravos fugidos e posteriormente libertados.

ZÉ PILINTRA - considerado por muitos um mistério nas religiões afro, Zé Pilintra aparece tanto no Candomblé quanto na Umbanda. Pode se manifestar tanto como guia (pretos velhos por exemplo) ou exu. Sua principal imagem é vestindo roupa e chapéus brancos. Sua personalidade é alegre e brincalhona. Quando se manifesta na linha de exus, a roupa muda para preto. Além do chapéu (preto), pode pedir também uma cartola, assemelhando-se muito a uma entidade vudu chamada Barão Samedi (sendo mais irritado e dominador, é da família do Cemiteire, cujo líder é Bacalubaca, que por sua vez, assemelha-se a Omulu).

PRETO VELHO - entidades benevolentes da Umbanda. São amorosos e oferecem conselhos as pessoas, conselhos esses considerados indiscutíveis. São considerados espíritos de luz não apenas de escravos mas de outras raças também.

ODUDUÁ - figura histórica Iorubá. Grande rei e conquistador africano. As vezes confundido com orixá. Existe uma versão de que os orixás eram seres humanos e Oduduá foi pai de alguns.

AJÉS - são as terríveis feiticeiras, bruxas iorubás. Representam os aspectos terríveis das coisas: inveja, ciúme, ambição, etc. Os bruxos são chamados oxôs. Enquanto estes não costumam atacar familiares, as ojés matam até os próprios filhos. Estão sempre prontas a descarregar sua ira sobre os humanos. O símbolo das ajés são pássaros, destacando as corujas. São eles que levam os feitiços das bruxas. A ajé mãe é conhecida pelo nome Iyami Oxorongá. Apenas Orumilá as acalma.

CANDOMBLÉ - sistema religioso oriundo dos Iorubás na África, e muito difundido no Brasil. Vale-se do trabalho com os Orixás e tem no Brasil a sua representação mais fiel as origens (mais do que na própria África).
Umbanda - sistema religioso sincrético de base africana, fundado em 1904 que junta elementos do Espiritismo, Candomblé, Cristianismo, Hinduismo. Mais conhecido por seus "guias": Preto Velho, Cabolclo e Criança. Trabalha inclusive com guias de características raciais e culturais como ciganos, guias de linhas do oriente, exus cruzados (exu mais alguma outra linha) e outros.

QUIMBANDA - sistema mágico africano de origem Bantu. Em vez e trabalhar com os Orixás, como fazem o povo Iorubá, a Quimbanda relaciona-se com os Eguns (cascões). Mais popularmente conhecidos como Exus. O Vodu na América Central, segue a mesma linha de trabalho.
Vodu (Vodoo) - O Vodu é um sistema religioso africano onde o seu centro encontra-se na no Haiti, na América Central, antiga colônia francesa. Possui muita semelhança com as religiões afro-brasileiras: Candomblé e Umbanda. o deus supremo, como o do Candomblé, é inacessível ao ser humano, sendo chamado de Gran Met (Grande Mestre) ou Bondye (Bom Deus). O equivalente dos Orixás são chamados Iwa. O Iwa mais famoso, principalmente devido ao cinema, é o Barão Samedi, o Senhor dos Cemitérios. Acompanhado de sua esposa ,Mama Brigitte, ele age no caso de doenças graves e guarda o conhecimento dos ancestrais. Como acontece na Quimbanda, algumas entidades são confundidas com Iwa, mas são chamados Djab (Eguns).





sábado, 23 de julho de 2022

IORI, ERÊS (COSME E DAMIÃO)

Essas entidades, altamente evoluídas, externam pelos seus cavalos, maneiras e vozes infantis de modo sereno, às vezes um pouco vivas. Quando no plano de protetores, gostam de sentar no chão e comer coisas doces, mas sem desmandos. Seus pontos cantados são melodias alegres e algumas vezes tristes, falando muito em Papai e Mamãe de céu e em mantos sagrados...

Os Santos Cosme e Damião, irmãos gêmeos, morreram por volta de 300 d.C. Crê-se que foram médicos, e sua santidade é atribuída pelo motivo de haverem exercido a medicina sem cobrar por isso, devotados à fé. Na Igreja Católica sua festa é celebrada no dia 26 de setembro, de acordo com o atual Calendário Litúrgico Romano do Rito Ordinário, e no dia 27 de setembro, pelo Calendário Litúrgico Romano do Rito Extraordinário. Na Igreja Ortodoxa são celebrados no dia 1 de novembro e também em 1 de julho pelos ortodoxos gregos. Nas religiões afro-brasileiras, onde são sincretizados como entidades infantis, também são festejados em 27 de setembro.

Os gêmeos nasceram em Egeia (agora Ayas, no Golfo do İskenderun, Cilícia, Ásia Menor), e tinham outros três irmãos. O pai foi mártir durante a perseguição dos cristãos na era de Diocleciano. Cosme e Damião eram médicos que curavam os enfermos não só com seu saber mas através de milagres propiciados por suas orações. Seus nomes verdadeiros eram Acta e Passio. Sua mãe se chamava Teodata, e também é venerada como santa pelos ortodoxos.

Os gêmeos praticavam a medicina em Egeia e alcançaram, por isso, grande reputação. Não aceitavam nenhum pagamento por seus serviços e foram por isso chamados de anargiras (em grego antigo: Ανάργυροι anargyroi – avessos ao dinheiro). Dessa forma, eles trouxeram muitos novos adeptos para a fé católica. Quando a perseguição de Diocleciano começou, o prefeito Lísias mandou prender Cosme e Damião e ordenou-lhes que se retratassem. Eles se mantiveram constantes sob tortura e de forma milagrosa não sofriam nenhum ferimento por água, fogo, ar, nem mesmo na cruz, até que foram decapitados por uma espada. Seus três irmãos, Antimo, Leôncio e Euprepio também morreram como mártires com eles. A execução ocorreu em 27 setembro, provavelmente entre 287/303.

Mais tarde, surgiu uma série de relatos fabulosos sobre os gêmeos ligadas em parte às suas relíquias. Os restos mortais dos mártires estavam enterrados na cidade de Ciro, na Síria; o imperador Justiniano I (527-565) suntuosamente restaurou a cidade em sua honra, depois de ter sido curado de uma doença perigosa por intercessão de Cosme e Damião. Justiniano reconstruiu e decorou a igreja dos mártires em Constantinopla, que veio a se tornar um lugar famoso de peregrinação. Em Roma, o Papa Félix IV (526-530) edificou uma igreja em sua honra.

A Igreja grega celebra a festa dos santos Cosme e Damião em 1 de Julho, 17 de Outubro e 1 de Novembro e venera três pares de santos com o mesmo nome e profissão. Cosme e Damião são considerados os patronos dos médicos e cirurgiões e por vezes são representados por emblemas médicos. Eles são invocados no Cânon da Missa e na Ladainha de Todos os Santos.

O O Antigo Martirológio Inglês (The Old English Martyrology) conta a seguinte lenda:

Quando eles curaram uma senhora de uma grave enfermidade, ela secretamente trouxe a Damião um pequeno presente; os textos dizem que eram três ovos. E então ela suplicou em nome de Deus que ele os aceitasse então Damião os guardou. Cosme ficou tão triste por causa isso que pediu para quando morressem seus corpos não fossem sepultados juntos. Então na mesma noite, o Senhor apareceu para Cosme e disse: “Por que dissestes aquilo pelo presente que Damião recebeu? Ele não o recebeu como pagamento, mas porque lhe foi pedido em meu nome.”(…) Quando foram martirizados, os homens que acolheram seus corpos estavam indecisos sobre onde deveriam sepultá-los em separado por causa do que Cosme havia dito, até que surgiu um camelo e disse em voz humana: “Não separem os corpos dos santos, sepultem-nos juntos.”

IBEJI

Existe uma confusão latente entre Ibeji e os Erês. É evidente que há uma relação, mas não se trata da mesma entidade, confundindo até mesmo como orixá. Ibeji são divindades gêmeas, sendo costumeiramente sincretizadas aos santos gêmeos católicos Cosme e Damião.

Por serem gêmeos, são associados ao princípio da dualidade; por serem crianças, são ligados a tudo que se inicia e brota: a nascente de um rio, o nascimento dos seres humanos, o germinar das plantas etc.

Seus filhos são pessoas com temperamento infantil, jovialmente inconsequente: nunca deixam de ter dentro de si a criança que já foram. Costumam ser brincalhonas, sorridentes, irrequietas, tudo enfim que se possa associar ao comportamento típico infantil. Muito dependentes nos relacionamentos amorosos e emocionais em geral, podem então revelar-se teimosamente obstinados e possessivos. Ao mesmo tempo, sua leveza perante a vida se revela no seu eterno rosto de criança e no seu modo ágil de se movimentar, sua dificuldade em permanecer muito tempo sentado, extravasando energia.

Podem apresentar bruscas variações de temperamento, e certa tendência a simplificar as coisas, especialmente em termos emocionais, reduzindo, à vezes, o comportamento complexo das pessoas que estão em torno de si a princípios simplistas como “gosta de mim” ou “não gosta de mim”. Isso pode fazer com que se magoem e se decepcionem com certa facilidade. Ao mesmo tempo, suas tristezas e sofrimentos tendem a desaparecer com facilidade, sem deixar grandes marcas. Como as crianças em geral, gostam de estar no meio de muita gente, das atividades esportivas, sociais e das festas.

A grande cerimônia dedicada a Ibeji acontece a 27 de setembro, dia de Cosme e Damião, quando comidas como caruru, vatapá, bolinhos, doces, balas (associadas às crianças, portanto) são oferecidas tanto a eles como aos frequentadores dos terreiros.

Ibeji, na nação Queto, ou Nvunji, nas nações Angola e Congo. É a divindade da brincadeira, da alegria; sua regência está ligada à infância. Ibeji está presente em todos os rituais do Candomblé pois, assim como Exu, se não for bem cuidado pode atrapalhar os trabalhos com suas brincadeiras infantis, desvirtuando a concentração dos membros de uma Casa de Santo.
É a divindade que rege a alegria, a inocência, a ingenuidade da criança. Sua determinação é tomar conta do bebê até a adolescência, independente do orixá que a criança carrega. Ibeji é tudo de bom, belo e puro que existe; uma criança pode nos mostrar seu sorriso, sua alegria, sua felicidade, seu engatinhar, falar, seus olhos brilhantes.

Na natureza, a beleza do canto dos pássaros, nas evoluções durante o vôo das aves, na beleza e perfume das flores. A criança que temos dentro de nós, as recordações da infância. Feche os olhos e lembre-se de uma felicidade, de uma travessura e você estará vivendo ou revivendo uma lenda dessa divindade. Pois tudo aquilo de bom que nos aconteceu em nossa infância, foi regido, gerado e administrado por Ibeji. Portanto, ele já viveu todas as felicidades e travessuras que todos nós, seres humanos, vivemos.

A palavra Eré vem do iorubá iré, que significa “brincadeira, divertimento”. Daí a expressão siré, que significa “fazer brincadeiras”. O Ere (não confundir com “criança”, que, em iorubá, é omodé) aparece instantaneamente logo após o transe do orixá: ou seja, o Ere é o intermediário entre o iniciado e o orixá. Durante o ritual de iniciação, o Ere é de suma importância, pois é o Ere que, muitas vezes, trará as várias mensagens do orixá do recém-iniciado.

O Ere, na verdade, é a inconsciência do novo omon-orixá, pois o Ere é o responsável por muita coisa e ritos passados durante o período de reclusão. O Ere conhece todas as preocupações do iyawo(filho), também aí chamado de omon-tú ou “criança-nova”. O comportamento do iniciado em estado de Ere é mais influenciado por certos aspectos de sua personalidade que pelo caráter rígido e convencional atribuído a seu orixá. Após o ritual do orúko, ou seja, nome de iaô, segue-se um novo ritual, ou o reaprendizado das coisas, chamado Apanan.

ERÊS

Na Umbanda, erês, ibejada, dois-dois, crianças, ou ibejis são entidades de caráter infantil, que simbolizam pureza, inocência e singeleza e se entregam a brincadeiras e divertimentos. Pedem-lhes ajuda para os filhos, para fazer confidências e resolver problemas. Geralmente supõe-se que são espíritos que desencarnaram com pouca idade e trazem características de sua última encarnação, como trejeitos e fala de criança e o gosto por brinquedos e doces. Diz-se que optaram por continuar sua evolução espiritual através da prática de caridade, incorporando em médiuns nos terreiros de Umbanda.

São tidos como mensageiro dos Orixás, respeitados pelos caboclos e pretos-velhos. Geralmente, são agrupados em uma linha própria, chamada de Linha das Crianças, Linha de Yori ou Linha de Ibêji. Costumam ter nomes típicos de crianças brasileiras, como Rosinha, Mariazinha, Ritinha, Pedrinho, Paulinho, Vítor, Cosminho. Seus líderes de falange incluem Cosme e Damião. Comem bolos, balas, refrigerantes, normalmente guaraná e frutas.

Diz-se que os pedidos feitos a uma criança incorporada (frequentemente de cura) normalmente são atendidos de maneira bastante rápida, mas a cobrança dos presentes prometidos também é e as “travessuras” que podem fazer a quem não cumpre a promessa podem ser terríveis.
Confira os Falangeiros na Postagem Sobre as sete linhas da Umbanda.

Dia do ano: 27 de setembro
Cor: Azul claro e Rosa
Saudação: Oni beijada ou salve as crianças !
Vela: Azul claro e rosa
Comida para ofertar: doces de frutas, arroz doce, cocadas, balas, bolos açucarados, quindins
Frutas: uva, pêssego, pêra, goiaba, maçã, morango, cerejas, ameixa
Bebida para saudar: refrigerantes, água de coco, suco de frutas
Dia da semana: Domingo
Flores: todas
Ervas: Rosas “cor de rosa”, Graviola folhas, Alcaçuz, Erva Doce, Manjericão, Rosa Branca, Camomila, Alecrim
Elemento: Fogo
Símbolo: coração
Domínio: parques e jardins



terça-feira, 28 de junho de 2022

UMBANDA

Descendentes dos africanos traficados e trazidos para o Brasil, a maioria foi escravizada

Os Pretos-Velhos e Pretas-Velhas são entidades ancestrais típicas da Umbanda, religião brasileira fundada em 1918 e marcada pelo forte sincretismo cultural. Enquanto encarnados na vida aqui na Terra, foram seres humanos como todos nós. Descendentes dos africanos traficados e trazidos para o Brasil, a maioria foi escravizada. Após sua morte, os Pretos e Pretas-Velhas se tornaram espíritos evoluídos e hoje voltam para ajudar e orientar todos que a eles recorrerem.

A principal lição que nos passam é a sua humildade, simplicidade e generosidade. Inclusive, são uma das entidades mais carismáticas da Umbanda. Estar diante deles nos dá a sensação de paz, de abrigo, amparo e carinho. São espíritos que curam, fazem milagres e dão alento, nos ensinando sobre o amor, a fé na humildade e na esperança, bem como a festejar a vida enquanto estamos vivos. Mas, a trajetória destas entidades não para por aí. Conheça a história dos Pretos-Velhos!
História dos Pretos-Velhos

Já dizia o samba "Nas veias do Brasil", de Luiz Carlos da Vila: "Os negros/ Trazidos lá do além- mar/ Vieram para espalhar/ Suas coisas transcendentais. Tantos o Preto-Velho já curou/ E a mãe preta amamentou/ Tem alma negra o povo."

Os africanos chegaram ao Brasil na condição desumana e cruel do tráfico de pessoas durante a escravidão. Pessoas negras de várias etnias foram sujeitas a viajar em um mesmo navio negreiro, em uma mistura forçada de Bantos, Congos, Angolanos, de Luanda, da Guiné e por aí vai. Destituídos de seus títulos por conta das guerras territoriais do seu continente, a população negra em nenhum momento foi fraca. Entre eles haviam reis, rainhas, guerreiros e sábios, espalhados não apenas no solo brasileiro, mas por toda a Europa e Américas.


Quando chegaram ao Brasil, foram vendidos e escravizados. As mulheres tornavam-se amas de leite e cozinheiras na Casa Grande, enquanto os homens mais fortes eram tratados como reprodutores para manter a linhagem da escravidão. As senzalas onde viviam acabaram por se tornar o berço da resistência negra. Nelas, africanos das diferentes etnias eram obrigados a compartilhar um único ambiente, assim como nos navios negreiros.

Os senhores brancos acreditavam que o fato de não falarem a mesma língua e serem considerados inimigos em sua terra natal impediria qualquer motim ou rebelião. Mas não foi o que aconteceu. Os africanos, percebendo que independente do que eram em sua África Mãe estavam todos na mesma situação, pouco a pouco foram dialogando. Passaram a compreender e aceitar a cultura regional um do outro, seus costumes e crenças, achando semelhanças nas diferenças e tornando a união cada vez mais forte.


Aos poucos foram surgindo os levantes pela liberdade, os quilombos, as fugas. Muitos mantinham seu temperamento e sua fé e eram lenhados no tronco. Outros tantos davam guaridas e orientavam os mais fortes e jovens a buscarem o caminho para a libertação do povo. Assim, diretamente da resistência da população negra, surgem os Pretos e Pretas-velhas, entidades sábias, ancestrais, que voltam à Terra para guiar e amparar seus descendentes.



A bênção às mais velhas, a bênção aos mais velhos!

O texto que está circulando começa com “De acordo com o professor Leandro…”. Isso é perigoso porque alguém cita o meu nome, mas não fui eu quem o escreveu. Eu fiz uma fala pública e uma pessoa que me ouviu escreveu e publicou no facebook um texto associando os meus argumentos a uma espécie de “história das origens das oferendas e da macumba”. Em seguida, ela aponta outras coisas de tal modo que não é possível fazer uma separação entre um tema que foi discutido em minha fala e depois as suas considerações próprias a respeito do assunto. Na medida em que este texto viralizou, ficou parecendo que se tratava de um texto de minha autoria, mas não é o caso. Peço licença para explicar nestas próximas linhas o meu entendimento sobre o acontecido.

Na semana passada, eu participei de uma banca de defesa de trabalho de conclusão de curso na Universidade de Brasília. Na ocasião, houve uma discussão sobre como as encruzilhadas atuais das cidades modernas são espaços de sociabilidades e de resistências. Nos semáforos, homens, mulheres e crianças, expressivamente negros e negras, realizam trabalhos diários, conseguindo dinheiro por meio da venda de doces, água, panos de prato, frutas, entre outros produtos.

Na condição de historiador e avaliador do trabalho, provoquei o autor da pesquisa, chamando atenção para o fato de que muitas ruas e encruzilhadas das cidades do nosso país são espaços de memórias do nosso povo negro, pois são locais onde homens, mulheres e crianças negras fizeram negócios, venderam produtos e conquistaram níveis de autonomia, bem como conquistaram as suas liberdades, comprando-as, no período da escravidão. A ideia era perceber que a existência majoritária dos corpos negros em situação de vulnerabilidades sociais nas esquinas das cidades brasileiras, lutando diariamente por sobrevivência, é desdobramento do período colonial e do racismo brasileiro e não são apenas um fenômeno da modernização das cidades com seus semáforos e sinaleiras.

Entretanto, além de serem espaços onde negócios aconteciam e acontecem, as encruzilhadas são domínios das entidades das ruas, dos caminhos e da comunicação, como Exus e Pombagiras. As encruzilhadas são, portanto, espaços especiais de cultos que possuem significados específicos para as pessoas que fazem parte das religiões afro-brasileiras. Interessava-me, com este argumento, trazer referências dos conhecimentos africanos e afro-brasileiros ao trabalho do estudante. Foi neste momento da minha fala que enfatizei que as oferendas nas encruzilhadas PODEM também se configurar como uma importante estratégia de proteção às pessoas em situação de rua, ou que no passado estavam em situação de fuga, uma vez que não é novidade entre as pessoas dos candomblés, dizer que as pessoas nas ruas comem os alimentos que estão nos despachos. É comum encontrar nas oferendas elementos como frango, ovos, farofa, frutas, cachaça, velas, dinheiro. Vale salientar que o universo dos despachos e oferendas é complexo e não são reduzidos às práticas nas ruas.

Historicamente falando, não é difícil vincular a circulação destes alimentos ritualísticos nas cidades brasileiras às várias estratégias emancipatórias e de proteção criadas pelos povos negros, sobretudo diante das experiências da colonização, com as marcas do abandono social, que gerou marginalidades e fome nas ruas para estes povos. No entanto, ainda que algumas pessoas tenham feito uso deste possível mecanismo de enfretamento das fomes, como eu falei, estas experiências NÃO SÃO A BASE DA ORIGEM DAS INÚMERAS OFERENDAS DOS CANDOMBLÉS NEM DO “SURGIMENTO DA MACUMBA”. Esta teoria é falsa e levar essa ideia adiante seria o mesmo que dizer que em uma situação hipotética onde não houvesse negros e negras em situação de vulnerabilidades no passado em nosso país, teria cessado a prática que os povos africanos trouxeram do continente de realizar suas oferendas. Eu não acredito nisso.

Ora, imaginar que um irmão ou irmã negra daria jeito para alimentar outros irmãos e irmãs em situação de rua, seja nos tempos da escravidão ou nos anos difíceis do pós-abolição, fazendo uso de comidas, cachaças e sinalizando comidas com velas em lugares estratégicos com as encruzilhadas, não é difícil de se pensar. Mas tais práticas se configurariam como experiências particulares ou ainda como ressignificações dos usos das oferendas que já existiam antes, desde as Áfricas, nos cultos aos voduns, nkices e orixás e não explicam o surgimentos dos candomblés nem das inúmeras modalidades de rituais de oferendas.

De fato, em sala de aula, também já enfatizei e enfatizo as estratégias de sobrevivências e de solidariedades que são fundamentais para a resistência do povo negro e já explorei as potencialidades da imagem da circulação de alimentos num contexto urbano, como é o caso de algumas oferendas constituídas por comidas e bebidas. Um dos principais problemas das ideias que estão no texto que viralizou e que não é da minha autoria é que ele não aponta a dimensão dos conhecimentos, ciências, cosmovisões, projetos de sociedade que os povos africanos trouxeram para o Brasil no tráfico atlântico e dá a entender que os candomblés só podem ser compreendidos no “antes e depois” da escravatura. Isso não poderia ser verdade.

Sobre a viralização deste texto, penso que o fato de ter sido citado que “um historiador da UnB disse…” deve ter tido um peso grande na credibilidade da circulação do mesmo. Há um vício antigo de pensar que historiadores são “os donos da verdade” e profissionais capazes de explicar as origens das coisas.

Pergunto-me, portanto: por quais motivos este tema passou a interessar a tantas pessoas?

As irmãs e os irmãos de candomblé que me procuraram ontem e hoje, perguntaram se o conteúdo do texto era meu e ficaram muito preocupados com a dimensão da circulação das ideias, pelos motivos já aqui expostos. E, portanto, agradeço pelo cuidado em terem me mantido informado sobre como o meu nome estava circulando no Facebook nos últimos dois dias, já que não estou nesta rede social, além de estar fora de Brasília, trabalhando em viagem de campo. Esta dimensão de proteção e cuidado de nós negros e negras com nossos irmãos e irmãos negros é a base da explicação sobre porquê ainda hoje existimos enquanto comunidade, ainda que o projeto colonial do passado, com suas heranças no presente, tenha nos educado para nos destruirmos.

A parte positiva da circulação do texto que escreveram é que foi colocado em pauta a discussão acerca das redes de solidariedades e as práticas de cuidado e amor dos nossos antepassados com os seus irmãos e irmãs negras. Isso também não é novidade para nós! Mas é para muita gente.

Então, para as pessoas que estão impressionadas com a história das comidas, cachaças e velas, saibam que definitivamente não é esse movimento isolado que pode explicar o surgimento nem os fundamentos das complexas oferendas nem dos candomblés. Saibam ainda que os nossos antepassados não só encontraram estratégias para comer e dar de comer aos seus irmãos e irmãs, como construíram inúmeros mecanismos de proteção à escravização de seus corpos no próprio continente africano, fizeram revoltas nos navios negreiros, quebraram engenhos onde realizavam trabalhos forçados, fugiram do cárcere, elaboraram e praticaram projetos de revolução social, criaram e mantiveram quilombos e terreiros de candomblés.

Sem discutir solidariedades, redes de proteção e afetividades é impossível compreender a abolição da escravatura e a permanente luta dos movimentos sociais negros dos séculos XX e XXI. Sem discutir as capacidades de autonomia, autogestão e negação do projeto colonial jamais vamos compreender que os povos africanos que para cá vieram numa migração forçada não foram apenas força de trabalho, como está inscrito na memória nacional. Os negros e as negras que vieram antes de nós, juntamente com os povos originários desta terra, os chamados indígenas, civilizaram este país e jamais vamos compreender a nossa história e as nossas identidades sem conhecermos este patrimônio que nos pertence e que a experiência colonial capitaneada pelos brancos tentou nos tirar. Quando falei publicamente da importância das encruzilhadas quis exatamente chamar a atenção para as formas com as quais estes espaços possuem outras lógicas para o povo de santo, sobretudo no que diz respeito a conhecimentos que estão na oralidade e que a universidade não sabe.

Repito que quem tem o mínimo de conhecimento sobre as religiões de matrizes africanas sabe que relacionar escravidão, fome, oferendas e surgimento dos candomblés não faz o menor sentido. E por isso, muita gente está revoltada com a circulação da referida teoria. Este fenômeno pode revelar também que os povos de santo e o povo negro, de um modo geral, possuem uma memória de contestação das ideias que são elaboradas e defendidas em espaços majoritariamente brancos e elitistas como foram e ainda são as universidades brasileiras.

Muita gente de candomblé, mas não apenas, se enfureceu com o fato de que supostamente um “professor da UnB” teria dito algo sobre o “surgimento” dos cultos de matrizes afro-brasileiras. Ora, certamente muita gente questionou: “quem o professor pensa que é para falar sobre os nossos conhecimentos, mistérios e ciências? Quem ele pensa que é para falar por nós, povos de santo?”. De fato, passou-se o tempo em que intelectuais podiam carregar as supostas verdades sobre as coisas do mundo. Isso levanta uma questão muito importante que a nossa geração de professores e professoras, pesquisadoras e pesquisadores negros (bem como os e as integrantes de movimentos sociais) temos debatido e denunciado nos espaços acadêmicos: nós não aceitamos mais que os discursos ditos científicos digam o que somos sem a nossa participação ativa. Claro que isso não impede que pesquisas e trabalhos, etc, sejam realizados, mas desde a conquista das cotas raciais nas universidades brasileiras que há uma expectativa relacionada a recente entrada de estudantes e professores negros e negras, dos quais me incluo, em transformar urgentemente as metodologias e abordagens que os e as cientistas historicamente utilizaram. Afinal, se antes, nós negros e negras éramos os chamados “objetos” de pesquisa, hoje estamos nas salas de aula e laboratórios na condição de pesquisadoras, pesquisadores e cientistas. Mas ainda somos muito poucos nesta condição (Eu, inclusive, sou professor substituto na Universidade de Brasília. Meu contrato vence este mês de junho). Aliás, qual a porcentagem de docentes negras e negros nas universidades públicas e privadas, estaduais e federais em nosso país podendo falar sobre a história do próprio povo negro, entre outros temas?

E professores e professoras indígenas?

O texto que viralizou não traz o meu nome completo e sei que muitas pessoas se referiram a este post associando a imagem do doutor ao branco, não supondo sequer que o “professor Leandro da UnB” poderia ser um homem negro engajado em difundir respeitosamente os conhecimentos ligados às tradições brasileiras de matrizes africanas.

É preciso ressaltar que a falta de conhecimentos que o povo brasileiro tem sobre as religiões de matrizes africanas não é um acidente. É parte do racismo estrutural que demonizou e demoniza, perseguiu e persegue as pessoas que fazem parte destas religiões. São permanências de um Brasil do passado que criminalizou os batuques, a capoeira, os candomblés. Trata-se de desconhecimentos estratégicos que negam as nossas capacidades de pensamento, agência de nossas próprias vidas e soberania intelectual e que trazem à tona a necessidade da Lei 10.639 que em 2003 instaurou a obrigatoriedade do ensino da História e Cultura africana e afro-brasileira nas escolas do nosso país.

Ainda assim, mesmo depois de 14 anos de promulgação desta Lei, o que sabemos sobre as sociedades africanas, especialmente sobre os povos que vieram para o Brasil no tráfico atlântico? O que sabemos sobre a história e a memória das trajetórias dos nossos antepassados negros e sobre os cultos dos orixás, nkises e voduns? As escolas e as universidades estão cumprindo o seu papel no enfrentamento ao racismo e na formação de gente qualificada para lidar com as questões como o racismo religioso? Ora, não é difícil encontrar pessoas que dizem que as oferendas são “coisas do diabo”, nem é difícil encontrarmos irmãos e irmãs negros que já sofreram com o racismo quando tentaram exercer sua fé afro-brasileira. Brasília, por exemplo, nos últimos anos, teve uma série de casos de terreiros de candomblés violentados.

Chego ao fim deste texto, pedindo imensas desculpas, em especial ao povo de santo e aos povos negros deste país, por todo este mal entendido. Sabemos o quanto que áreas como a História foram responsáveis na construção de teorias equivocadas sobre as memórias dos nossos antepassados. Mas a História pode ser também o espaço das releituras do passado, dos novos questionamentos e da elaboração e resinificação dos sentidos.

Quando falamos, não temos controle sobre como nossas ideias podem ser interpretadas. Ontem, uma amiga que está em São Paulo me ligou preocupada porque disseram a ela que estava havendo uma confusão com o meu nome porque teriam me visto fazendo despachos na UnB e que isso tinha virado um escândalo. Eu já recebi diferentes versões do texto que está circulando e parece que já tem diferentes autorias.

Amigos enviaram-me alguns posts de pessoas negras (que se diziam candomblecistas, de outras religiões ou sem religiões) que pareciam encantadas com a história que circulou. O que será que estas pessoas pensam sobre afetividades, solidariedades e quilombismo do nosso povo? O que será que sabem sobre os candomblés? Fiquei pensando: o que será que a minha mãe que está na Bahia e que é negra, sabe sobre os candomblés? E meu pai que morreu e que era branco, que ele sabia sobre tudo isso? Eu também estou aprendendo. Mas sei que quando passei a frequentar alguns terreiros de candomblé, ainda quando eu estava na minha cidade da Bahia, mainha ficou muito preocupada e demorou para compreender que eu e, posteriormente, o meu irmão caçula estávamos nos aproximando do universo das religiões de matrizes africanas. Ela achava que poderia estar perdendo seus filhos para alguma coisa ruim. É muito triste pensar que as nossas ancestralidades permanecem potencialmente negativadas, inclusive entre nós, povo negro. O racismo promoveu e ainda promove muita desinformação e isso afeta a todos nós.

Desta experiência ficaram alguns aprendizados. Entre eles, que os ensinamentos são constantes e que seguimos aprendendo sobre as histórias do nosso povo, tão mal contadas.

Palavra é encruzilhada (Leandro Bulhões – Doutor em História – Universidade de Brasília).



sexta-feira, 24 de junho de 2022

XANGÔ, sincretizado SÃO JOÃO BATISTA!

Nem seria preciso falar do poder de Xangô (Sòngó), porque o poder é a sua síntese. Xangô nasce do poder morre em nome do poder. Rei absoluto, forte, imbatível. O prazer de Xangô é o poder. Xangô manda nos poderosos, manda em seu reino e nos reinos vizinhos. Xangô é rei entre todos os reis. Não existe uma hierarquia entre os orixás, nenhum possui mais axé que o outro, apenas Oxalá, que representa o patriarca da religião e é o orixá mais velho, goza de certa primazia. Contudo, se preciso fosse escolher um orixá todo-poderoso, quem, senão Xangô para assumir esse papel?

Xangô gosta dos desafios, que não raras vezes aparecem nas saudações que lhe fazem seus devotos na África. Porém o desafio é feito sempre para ratificar o poder de Xangô.

A maneira como todos devem se referir a Xangô já expressa o seu poder. Procure imaginar um elefante, mas um Elefante-de-olhos-tão-grandes-quanto-potes-de-boca-larga: esse é Xangô e, se o corpo do animal segue a proporção dos olhos, Xangô realmente é o Elefante-que-manda-na-savana, imponente, poderoso.

Percebe-se que a imagem de poder está sempre associada a Xangô. O poder real, por exemplo, lhe é devido por ter se tornado o quarto alafim de Òyó, que era considerada a capital política dos iorubas, a cidade mais importante da Nigéria. Xangô destronou o próprio meio-irmão Dadá-Ajaká com um golpe militar. A personalidade paciente e tolerante do irmão irritavam Xangô e, certamente, o povo de Òyó, que o apoiou para que ele se tornasse o seu grande rei, até hoje lembrado.

O trono de Òyó já pertencia a Xangô por direito, pois seu pai, Oranian, foi fundador da cidade e de sua dinastia. Ele só fez apressar a sua ascensão. Xangô é o rei que não aceita contestação, todos sabem de seus méritos e reconhecem que seu poder, antes de ser conquistado pela opressão, pela força, é merecido. Xangô foi o grande alafim de Òyo porque soube inspirar credibilidade aos seus súbditos, tomou as decisões mais acertadas e sábias e, sobretudo, demonstrou a sua capacidade para o comando, persuadindo a todos não só por seu poder repressivo como por seu senso de justiça muito apurado.

Não erram, como se viu, os que dizem que Xangô exerce o poder de uma forma ditatorial, que faz uso da força e da repressão para manter a autoridade. Sabe-se, no entanto, que nenhuma ditadura ou regime despótico mantém-se por muito tempo se não houver respaldo popular. Em outros termos, o déspota reflete a imagem de seu povo, e este ama o seu senhor, seja porque nos momentos de tensão responde com eficiência, seja por assumir a postura de um pai. No caso de Xangô, sua retidão e honestidade superam o seu carácter arbitrário; suas medidas, embora impostas, são sempre justas e por isso ele é, acima de tudo, um rei amado, pois é repressor por seu estilo, não por maldade.

Fato é que não se pode falar de Xangô sem falar de poder. Ele expressa autoridade dos grandes governantes, mas também detém o poder mágico, já que domina o mais perigoso de todos os elementos da natureza: o fogo. O poder mágico de Xangô reside no raio, no fogo que corta o céu, que destrói na Terra, mas que transforma, que protege, que ilumina o caminho. O fogo é a grande arma de Xangô, com a qual castiga aqueles que não honram seu nome. Por meio do raio ele atinge a casa do próprio malfeitor.

Xangô é bastante cultuado na região de Tapá ou Nupê, que, segundo algumas versões históricas, seria terra de origem de sua família materna.
Tudo que se relaciona com Xangô lembra realeza, as suas vestes, a sua riqueza, a sua forma de gerir o poder. A cor vermelha, por exemplo, sempre esteve ligada à nobreza, só os grandes reis pisavam sobre o tapete vermelho, e Xangô pisa sobre o fogo, o vermelho original, o seu tapete.

Xangô sempre foi um homem bonito extremamente vaidoso, por isso conquistou todas a mulheres que quis, e, afinal, o que seria um "olhar de fogo "senão um olhar de desejo ardente? Quem resiste ao olhar de “flirt” de Xangô?

Xangô era um amante irresistível e por isso foi disputado por três mulheres. Iansã foi sua primeira esposa e a única que o acompanhou em sua saída estratégica da vida. È com ela que divide o domínio sobre o fogo.

Oxum foi à segunda esposa de Xangô e a mais amada. Apenas por Oxum, Xangô perdeu a cabeça, só por ela chorou.

A terceira esposa de Xangô foi Oba, que amou e não foi amada. Oba abdicou de sua vida para viver por Xangô, foi capaz de mutilar o seu corpo por amor o seu rei.

Xangô decide sobre a vida de todos, mas sobre a sua vida (e sua morte) só ele tem o direito de decidir. Ele é mais poderoso que a morte, razão pela qual passou a ser o seu anti-símbolo.

Características dos filhos de Xangô

É muito fácil reconhecer um filho de Xangô apenas por sua estrutura física, pois seu corpo é quase sempre muito forte, com uma quantidade razoável de gordura, apontando a sua tendência à obesidade; mas a sua boa constituição óssea suporta o seu físico avantajado. Há também os magros e muito elegantes.

Com forte dose de energia e autoestima, os filhos de Xangô têm consciência de que são importantes e respeitáveis, portanto quando emitem sua opinião é para encerrar definitivamente o assunto. Sua postura é sempre nobre, com a dignidade de um rei. Sempre andam acompanhados de grandes comitivas; embora nunca estejam sós, a solidão é um de seus estigmas.

Conscientemente são incapazes de ser injustos com alguém, mas um certo egoísmo faz parte de seu arquétipo. São extremamente austeros (para não dizer sovinas), portanto não é por acaso que Xangô dança alujá com a mão fechada. Gostam do poder e do saber, que são os grandes objetos de sua vaidade.

São amantes vigorosos, em seu lado negativo, pobre das mulheres cujos maridos são de Xangô. Um filho de Xangô está sempre cercado por amigos, auxiliares, no caso de governantes, empresários, mas a tendência é que aqueles que decidem ao seu lado sejam sempre homens.

Os filhos de Xangô são obstinados, agem com estratégia e conseguem o que querem. Tudo que fazem marca de alguma forma sua presença; fazem questão de viver ao lado de muita gente e têm pavor de ser esquecido, pois, sempre presentes na memória de todos, sabem que continuarão vivos após a sua "retirada estratégica".



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