segunda-feira, 28 de junho de 2021

A BENÇÃO ÀS MAIS VELHAS, A BENÇÃO AOS MAIS VELHOS



O texto que está circulando começa com “De acordo com o professor Leandro…”. 

Isso é perigoso porque alguém cita o meu nome, mas não fui eu quem o escreveu. Eu fiz uma fala pública e uma pessoa que me ouviu escreveu e publicou no facebook um texto associando os meus argumentos a uma espécie de “história das origens das oferendas e da macumba”. Em seguida, ela aponta outras coisas de tal modo que não é possível fazer uma separação entre um tema que foi discutido em minha fala e depois as suas considerações próprias a respeito do assunto. Na medida em que este texto viralizou, ficou parecendo que se tratava de um texto de minha autoria, mas não é o caso. Peço licença para explicar nestas próximas linhas o meu entendimento sobre o acontecido.

Na semana passada, eu participei de uma banca de defesa de trabalho de conclusão de curso na Universidade de Brasília. Na ocasião, houve uma discussão sobre como as encruzilhadas atuais das cidades modernas são espaços de sociabilidades e de resistências. Nos semáforos, homens, mulheres e crianças, expressivamente negros e negras, realizam trabalhos diários, conseguindo dinheiro por meio da venda de doces, água, panos de prato, frutas, entre outros produtos.

Na condição de historiador e avaliador do trabalho, provoquei o autor da pesquisa, chamando atenção para o fato de que muitas ruas e encruzilhadas das cidades do nosso país são espaços de memórias do nosso povo negro, pois são locais onde homens, mulheres e crianças negras fizeram negócios, venderam produtos e conquistaram níveis de autonomia, bem como conquistaram as suas liberdades, comprando-as, no período da escravidão. A ideia era perceber que a existência majoritária dos corpos negros em situação de vulnerabilidades sociais nas esquinas das cidades brasileiras, lutando diariamente por sobrevivência, é desdobramento do período colonial e do racismo brasileiro e não são apenas um fenômeno da modernização das cidades com seus semáforos e sinaleiras.

Entretanto, além de serem espaços onde negócios aconteciam e acontecem, as encruzilhadas são domínios das entidades das ruas, dos caminhos e da comunicação, como Exus e Pombagiras. As encruzilhadas são, portanto, espaços especiais de cultos que possuem significados específicos para as pessoas que fazem parte das religiões afro-brasileiras. Interessava-me, com este argumento, trazer referências dos conhecimentos africanos e afro-brasileiros ao trabalho do estudante. Foi neste momento da minha fala que enfatizei que as oferendas nas encruzilhadas PODEM também se configurar como uma importante estratégia de proteção às pessoas em situação de rua, ou que no passado estavam em situação de fuga, uma vez que não é novidade entre as pessoas dos candomblés, dizer que as pessoas nas ruas comem os alimentos que estão nos despachos. É comum encontrar nas oferendas elementos como frango, ovos, farofa, frutas, cachaça, velas, dinheiro. Vale salientar que o universo dos despachos e oferendas é complexo e não são reduzidos às práticas nas ruas.

Historicamente falando, não é difícil vincular a circulação destes alimentos ritualísticos nas cidades brasileiras às várias estratégias emancipatórias e de proteção criadas pelos povos negros, sobretudo diante das experiências da colonização, com as marcas do abandono social, que gerou marginalidades e fome nas ruas para estes povos. No entanto, ainda que algumas pessoas tenham feito uso deste possível mecanismo de enfretamento das fomes, como eu falei, estas experiências NÃO SÃO A BASE DA ORIGEM DAS INÚMERAS OFERENDAS DOS CANDOMBLÉS NEM DO “SURGIMENTO DA MACUMBA”. Esta teoria é falsa e levar essa ideia adiante seria o mesmo que dizer que em uma situação hipotética onde não houvesse negros e negras em situação de vulnerabilidades no passado em nosso país, teria cessado a prática que os povos africanos trouxeram do continente de realizar suas oferendas. Eu não acredito nisso.
Ora, imaginar que um irmão ou irmã negra daria jeito para alimentar outros irmãos e irmãs em situação de rua, seja nos tempos da escravidão ou nos anos difíceis do pós-abolição, fazendo uso de comidas, cachaças e sinalizando comidas com velas em lugares estratégicos com as encruzilhadas, não é difícil de se pensar. Mas tais práticas se configurariam como experiências particulares ou ainda como ressignificações dos usos das oferendas que já existiam antes, desde as Áfricas, nos cultos aos voduns, nkices e orixás e não explicam o surgimentos dos candomblés nem das inúmeras modalidades de rituais de oferendas.

De fato, em sala de aula, também já enfatizei e enfatizo as estratégias de sobrevivências e de solidariedades que são fundamentais para a resistência do povo negro e já explorei as potencialidades da imagem da circulação de alimentos num contexto urbano, como é o caso de algumas oferendas constituídas por comidas e bebidas. Um dos principais problemas das ideias que estão no texto que viralizou e que não é da minha autoria é que ele não aponta a dimensão dos conhecimentos, ciências, cosmovisões, projetos de sociedade que os povos africanos trouxeram para o Brasil no tráfico atlântico e dá a entender que os candomblés só podem ser compreendidos no “antes e depois” da escravatura. Isso não poderia ser verdade.
Sobre a viralização deste texto, penso que o fato de ter sido citado que “um historiador da UnB disse…” deve ter tido um peso grande na credibilidade da circulação do mesmo. Há um vício antigo de pensar que historiadores são “os donos da verdade” e profissionais capazes de explicar as origens das coisas.

Pergunto-me, portanto: por quais motivos este tema passou a interessar a tantas pessoas?

As irmãs e os irmãos de candomblé que me procuraram ontem e hoje, perguntaram se o conteúdo do texto era meu e ficaram muito preocupados com a dimensão da circulação das ideias, pelos motivos já aqui expostos. E, portanto, agradeço pelo cuidado em terem me mantido informado sobre como o meu nome estava circulando no Facebook nos últimos dois dias, já que não estou nesta rede social, além de estar fora de Brasília, trabalhando em viagem de campo. Esta dimensão de proteção e cuidado de nós negros e negras com nossos irmãos e irmãos negros é a base da explicação sobre porquê ainda hoje existimos enquanto comunidade, ainda que o projeto colonial do passado, com suas heranças no presente, tenha nos educado para nos destruirmos.

A parte positiva da circulação do texto que escreveram é que foi colocado em pauta a discussão acerca das redes de solidariedades e as práticas de cuidado e amor dos nossos antepassados com os seus irmãos e irmãs negras. Isso também não é novidade para nós! Mas é para muita gente.

Então, para as pessoas que estão impressionadas com a história das comidas, cachaças e velas, saibam que definitivamente não é esse movimento isolado que pode explicar o surgimento nem os fundamentos das complexas oferendas nem dos candomblés. Saibam ainda que os nossos antepassados não só encontraram estratégias para comer e dar de comer aos seus irmãos e irmãs, como construíram inúmeros mecanismos de proteção à escravização de seus corpos no próprio continente africano, fizeram revoltas nos navios negreiros, quebraram engenhos onde realizavam trabalhos forçados, fugiram do cárcere, elaboraram e praticaram projetos de revolução social, criaram e mantiveram quilombos e terreiros de candomblés.

Sem discutir solidariedades, redes de proteção e afetividades é impossível compreender a abolição da escravatura e a permanente luta dos movimentos sociais negros dos séculos XX e XXI. Sem discutir as capacidades de autonomia, autogestão e negação do projeto colonial jamais vamos compreender que os povos africanos que para cá vieram numa migração forçada não foram apenas força de trabalho, como está inscrito na memória nacional. Os negros e as negras que vieram antes de nós, juntamente com os povos originários desta terra, os chamados indígenas, civilizaram este país e jamais vamos compreender a nossa história e as nossas identidades sem conhecermos este patrimônio que nos pertence e que a experiência colonial capitaneada pelos brancos tentou nos tirar. Quando falei publicamente da importância das encruzilhadas quis exatamente chamar a atenção para as formas com as quais estes espaços possuem outras lógicas para o povo de santo, sobretudo no que diz respeito a conhecimentos que estão na oralidade e que a universidade não sabe.

Repito que quem tem o mínimo de conhecimento sobre as religiões de matrizes africanas sabe que relacionar escravidão, fome, oferendas e surgimento dos candomblés não faz o menor sentido. E por isso, muita gente está revoltada com a circulação da referida teoria. Este fenômeno pode revelar também que os povos de santo e o povo negro, de um modo geral, possuem uma memória de contestação das ideias que são elaboradas e defendidas em espaços majoritariamente brancos e elitistas como foram e ainda são as universidades brasileiras.

Muita gente de candomblé, mas não apenas, se enfureceu com o fato de que supostamente um “professor da UnB” teria dito algo sobre o “surgimento” dos cultos de matrizes afro-brasileiras. Ora, certamente muita gente questionou: “quem o professor pensa que é para falar sobre os nossos conhecimentos, mistérios e ciências? Quem ele pensa que é para falar por nós, povos de santo?”. De fato, passou-se o tempo em que intelectuais podiam carregar as supostas verdades sobre as coisas do mundo. Isso levanta uma questão muito importante que a nossa geração de professores e professoras, pesquisadoras e pesquisadores negros (bem como os e as integrantes de movimentos sociais) temos debatido e denunciado nos espaços acadêmicos: nós não aceitamos mais que os discursos ditos científicos digam o que somos sem a nossa participação ativa. Claro que isso não impede que pesquisas e trabalhos, etc, sejam realizados, mas desde a conquista das cotas raciais nas universidades brasileiras que há uma expectativa relacionada a recente entrada de estudantes e professores negros e negras, dos quais me incluo, em transformar urgentemente as metodologias e abordagens que os e as cientistas historicamente utilizaram. Afinal, se antes, nós negros e negras éramos os chamados “objetos” de pesquisa, hoje estamos nas salas de aula e laboratórios na condição de pesquisadoras, pesquisadores e cientistas. Mas ainda somos muito poucos nesta condição (Eu, inclusive, sou professor substituto na Universidade de Brasília. Meu contrato vence este mês de junho). Aliás, qual a porcentagem de docentes negras e negros nas universidades públicas e privadas, estaduais e federais em nosso país podendo falar sobre a história do próprio povo negro, entre outros temas? E professores e professoras indígenas?

O texto que viralizou não traz o meu nome completo e sei que muitas pessoas se referiram a este post associando a imagem do doutor ao branco, não supondo sequer que o “professor Leandro da UnB” poderia ser um homem negro engajado em difundir respeitosamente os conhecimentos ligados às tradições brasileiras de matrizes africanas.

É preciso ressaltar que a falta de conhecimentos que o povo brasileiro tem sobre as religiões de matrizes africanas não é um acidente. É parte do racismo estrutural que demonizou e demoniza, perseguiu e persegue as pessoas que fazem parte destas religiões. São permanências de um Brasil do passado que criminalizou os batuques, a capoeira, os candomblés. Trata-se de desconhecimentos estratégicos que negam as nossas capacidades de pensamento, agência de nossas próprias vidas e soberania intelectual e que trazem à tona a necessidade da Lei 10.639 que em 2003 instaurou a obrigatoriedade do ensino da História e Cultura africana e afro-brasileira nas escolas do nosso país.

Ainda assim, mesmo depois de 14 anos de promulgação desta Lei, o que sabemos sobre as sociedades africanas, especialmente sobre os povos que vieram para o Brasil no tráfico atlântico? O que sabemos sobre a história e a memória das trajetórias dos nossos antepassados negros e sobre os cultos dos orixás, nkises e voduns? As escolas e as universidades estão cumprindo o seu papel no enfrentamento ao racismo e na formação de gente qualificada para lidar com as questões como o racismo religioso? Ora, não é difícil encontrar pessoas que dizem que as oferendas são “coisas do diabo”, nem é difícil encontrarmos irmãos e irmãs negros que já sofreram com o racismo quando tentaram exercer sua fé afro-brasileira. Brasília, por exemplo, nos últimos anos, teve uma série de casos de terreiros de candomblés violentados.
Chego ao fim deste texto, pedindo imensas desculpas, em especial ao povo de santo e aos povos negros deste país, por todo este mal entendido. Sabemos o quanto que áreas como a História foram responsáveis na construção de teorias equivocadas sobre as memórias dos nossos antepassados. Mas a História pode ser também o espaço das releituras do passado, dos novos questionamentos e da elaboração e resinificação dos sentidos.

Quando falamos, não temos controle sobre como nossas ideias podem ser interpretadas. Ontem, uma amiga que está em São Paulo me ligou preocupada porque disseram a ela que estava havendo uma confusão com o meu nome porque teriam me visto fazendo despachos na UnB e que isso tinha virado um escândalo. Eu já recebi diferentes versões do texto que está circulando e parece que já tem diferentes autorias.

Amigos enviaram-me alguns posts de pessoas negras (que se diziam candomblecistas, de outras religiões ou sem religiões) que pareciam encantadas com a história que circulou. O que será que estas pessoas pensam sobre afetividades, solidariedades e quilombismo do nosso povo? O que será que sabem sobre os candomblés? Fiquei pensando: o que será que a minha mãe que está na Bahia e que é negra, sabe sobre os candomblés? E meu pai que morreu e que era branco, que ele sabia sobre tudo isso? Eu também estou aprendendo. Mas sei que quando passei a frequentar alguns terreiros de candomblé, ainda quando eu estava na minha cidade da Bahia, mainha ficou muito preocupada e demorou para compreender que eu e, posteriormente, o meu irmão caçula estávamos nos aproximando do universo das religiões de matrizes africanas. Ela achava que poderia estar perdendo seus filhos para alguma coisa ruim. É muito triste pensar que as nossas ancestralidades permanecem potencialmente negativadas, inclusive entre nós, povo negro. O racismo promoveu e ainda promove muita desinformação e isso afeta a todos nós.

Desta experiência ficaram alguns aprendizados. Entre eles, que os ensinamentos são constantes e que seguimos aprendendo sobre as histórias do nosso povo, tão mal contadas.

Palavra é encruzilhada (Leandro Bulhões – Doutor em História – Universidade de Brasília).




O MISTÉRIO DO ORIXÁ ANCESTRAL, DE FRENTE E ADJUNTÓ

Uma dúvida, e a que mais incomoda os umbandistas é sobre seu Orixá. Nós sabemos que Orixá Ancestral não é o mesmo que Orixá de Frente ou Adjuntó. O Orixá Ancestral está ligado à nossa ancestralidade e é aquele que nos recepcionou assim que, gerados por Deus, fomos atraídos pelo Seu magnetismo divino.

Todos somos gerados por Deus e somos fatorados por uma de suas divindades, que nos magnetiza em sua onda fatoradora e nos distingue com sua qualidade divina.

Uns são distinguidos com a qualidade congregadora e são fatorados pelo Trono da Fé. E, se forem machos, é o Orixá Oxalá que assume a condição de seu Orixá Ancestral. Mas, se for fêmea, aí é a Orixá Oyá Tempo que assume sua ancestralidade.

Uns são distinguidos com a qualidade agregadora e são fatorados pelo Trono do Amor. E, se forem machos é o orixá Oxumaré que assume a condição de seu orixá ancestral. Mas, se forem fêmeas, aí é a orixá Oxum que assume suas ancestralidades.

Uns são distinguidos com a qualidade expansora e são fatorados pelo Trono do Conhecimento. E, se forem machos é o Orixá Oxóssi que assume a condição de seu Orixá Ancestral. Mas, se forem fêmeas, aí é a Orixá Obá que assume suas ancestralidades.

Uns são distinguidos com a qualidade equilibradora e são fatorados pelo Trono da Razão. E, se forem machos é o Orixá Xangô que assume as suas ancestralidades. Mas, se forem fêmeas, aí é a Orixá Egunitá-Oroiná que assume suas ancestralidades.

Uns são distinguidos com a qualidade ordenadora e são fatorados pelo Trono da Lei. E, se forem machos é o Orixá Ogum que assume suas ancestralidades. Mas, se forem fêmeas, aí é a Orixá Iansã que assume suas ancestralidades.

Uns são distinguidos com a qualidade evolutiva (transmutadora) e são fatorados pelo Trono da Evolução. E, se forem machos é o Orixá Obaluayê que assume suas ancestralidades. Mas, se forem fêmeas, aí é a Orixá Nanã que assume suas ancestralidade.

Uns são distinguidos com a qualidade geradora e são fatorados pelo Trono da Geração. E, se forem machos é o orixá Omulu que assume suas ancestralidades. Mas, se forem fêmeas, aí é a orixá Iemanjá que assume suas ancestralidades.

Observem que não estamos nos referindo ao espírito que “encarnou” no plano material e sim ao ser que acabou de ser gerado por Deus e foi atraído pelo magnetismo de uma de suas divindades, que, por serem unigênitas (únicas geradas) transmitem naturalmente a qualidade que são em si mesmas aos seus “herdeiros”, aos quais imantam com seus magnetismos divinos e dão aos seres uma ancestralidade imutável, pois é divina e jamais deixará de guiá-los, porque a natureza íntima de cada um será formada na qualidade que o distinguiu, fatorando-o.

Alguém pode reencarnar mil vezes e sob as mais diversas irradiações que nunca mudará sua natureza íntima. Agora, a cada encarnação, ele será regido por um Orixá de Frente (que o guiará enquanto viver na carne) e será equilibrado por outro Orixá que será o auxiliar (o Adjuntó) desse Orixá de Frente ou “da cabeça”. Usamos o termo “Orixá da Cabeça” porque ele regerá a encarnação do ser e o influenciará o tempo todo pois está de “Frente” para ele.

Sim, o Orixá da Cabeça está à nossa frente nos atraindo mentalmente para seu campo de ação e para o seu mistério, ao qual absorveremos e desenvolveremos algumas faculdades regidas por Ele. Já o Orixá Adjuntó é um equilibrador do ser e atuará através do seu emocional, hora estimulando-o e hora apassivando-o, pois só assim o ser não se descaracterizará e se tornará irreconhecível dentro do seu grupo familiar ou tronco hereditário, regido pelo seu Orixá Ancestral.

A dúvida dos “médiuns” e dos umbandistas se explica pela precariedade dos métodos divinatórios usados para identificar o Orixá da Cabeça e seu Adjuntó. Daí, vemos pessoas reclamarem que a cada Babalorixá ou Ialorixá que consultaram deu um Orixá diferente a cada consulta, criando uma confusão e levando ao descrédito geral. Esta queixa é muito comum e não são poucos os médiuns que estão confusos porque uma consulta diz que é filho desse Orixá e outra consulta diz que é filho de outro Orixá.

Nós dizemos isto: na ancestralidade, todo ser macho é filho de um Orixá masculino e todo ser fêmea é filha de um Orixá feminino.

Na ancestralidade, Orixá masculino só fatora seres machos e os magnetiza com sua qualidade, fatorando-os de forma tão marcante que o Orixá feminino que o secunda na fatoração só participa como apassivadora de sua natureza masculina. E o inverso acontece com os seres fêmeas, onde o Orixá masculino só participa como apassivador dessa sua natureza feminina.

Portanto, no universo da ancestralidade dos seres machos há sete Orixás masculinos e na dos seres fêmeas há sete Orixás femininos. Também há sete naturezas masculinas e sete naturezas femininas, tão marcantes que é impossível ao bom observador não vê-las nas pessoas.

Saibam que, mesmo que o Orixá da Cabeça ou de Frente seja, digamos, a Orixá Iansã, ainda assim, por trás desta regência, poderemos identificar a ancestralidade se observarem bem o olhar, as feições, os traços, os gestos a postura, etc., pois estes sinais são oriundos da natureza íntima do ser, apassivada pela regência da encarnação, mas não anulada por ela. Certo?

E o mesmo se aplica ao Orixá Adjuntó, pois podemos identificá-lo nos gestos e nas iniciativas das pessoas, já que é através do emocional que ele atua.

Outra forma de identificação é através do Guia de frente e do Exu Guardião dos Médiuns. Mas esta identificação exige um profundo conhecimento do simbolismo dos nomes usados por eles para se identificarem. E também, nem sempre o Guia de frente ou o Exu guardião se mostram, pois preferem deixar isto para o Guia e o Exu de trabalho.

Saber interpretar corretamente o simbolismo é fundamental. Certo? Então, que todos entendam isto:

• Orixá Ancestral é aquele que magnetizou o ser assim que ele foi gerado por Deus e o distinguiu com sua qualidade original e natureza íntima, imutáveis e eternas;
• Orixá de Frente é aquele que rege a atual encarnação do ser e o conduz numa direção na qual o ser absorverá sua qualidade e a incorporará às suas faculdades, abrindo-lhes novos campos de atuação e crescimento interno;
• Orixá Adjuntó é aquele que forma par com o Orixá de Frente, apassivando ou estimulando o ser, sempre visando seu equilíbrio íntimo e crescimento interno permanente.

É por isso também que muitos encontram em si qualidades de vários Orixás. A cada encarnação há a troca de regência da encarnação. E, nessa troca, os seres vão evoluindo e desenvolvendo faculdades relativas a todos os Orixás.

Afinal, se somos “humanos”, absorvemos energias e irradiações, magnetismo e vibrações de todos eles. Certo?



Silvia Machado, Carlos Ferreira e outras 2 pessoas
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terça-feira, 8 de junho de 2021

MÃE e PAI DE SANTO, ESPIRITUALIDADE

O significado de uma Mãe e Pai de Santo para a Espiritualidade e para a Umbanda e o que deve significar para seus Filhos de Santo e seguidores.

A Umbanda nasceu muito antes de seu anúncio neste mundo, ela veio do anseio de uma espiritualidade forte em sua luz, conhecedora das mazelas da humanidade, sua descrença e ignorância no conhecimento do espírito e da espiritualidade que domina todos os mundos, cada ponto do universo, que envolve e interage o tempo todo com todo o plano material, com o ser humano no estimulo do bem ou do mal. Reuniu de forma eclética, inteligente, respeitosa e bem articulada os aspectos espirituais mais relevantes das religiões e doutrinas, das quais absorveu o melhor conteúdo conciliador e doutrinário de referencia ao espírito, a se destacar o Candomblé, Catolicismo, Kardecismo e outras.

A Umbanda vem cada vez mais adquirindo essência única, desvinculando-se das associações e sincretismos, aprimorando suas praticas, assumindo sua própria identidade. Nosso Templo baseia-se a partir dos princípios e conceitos da Umbanda de humildade, amor, caridade, ensinamento e valorização do espírito, trazida pelo Caboclo das Sete Encruzilhadas.

A Umbanda nasceu de um projeto espiritual a ser lançado neste mundo, um objetivo e um desafio que Oxalá lançou a esta espiritualidade de luz, um objetivo que se juntou a este anseio e que foi aceito mesmo sabedores das enormes dificuldades, resistências e obstáculos que estariam enfrentando, a existência e o significado do espírito precisavam ser descobertos, compreendidos como a essência encarnada que precisava ser melhorada, aprimorada, pois este seria o único caminho para que o alimento maléfico deixasse de atingir o homem, e toda a influência do bem pudesse envolvê-lo e transformá-lo, dando a ele um pouco que seja da visão de Oxalá.

Para seguir em frente com esta missão, com este desafio, a Espiritualidade de Luz traçou suas estratégias, suas metas, recrutou os Espíritos de Luz aos quais Oxalá deu o desígnio e o domínio sobre todos os elementos e energias universais, cósmicas, naturais, das sensibilidades e dos sentidos, habilidades, intelecto, emoções e tudo mais que rege a natureza de cada mundo e de seus ocupantes, e na Terra ao ser humano.

Estes Espíritos de força, poder e intensa luz, chamamos de Orixás, a eles se juntaram os representantes diretos de Oxalá, criando o plano que governa, dirige e orienta todas as camadas espirituais de Direita e de Esquerda e todos os espíritos encarnados ou não.

Dentro destas estratégias foram também eleitos os espíritos que chamamos de Entidades, a partir de espíritos verdadeiramente redimidos de suas falhas, conhecedores da essência humana encarnada, conscientes de sua necessidade de evolução, vencendo todos os sentimentos contrários a sua nova jornada, através da prática do bem, da caridade, da benevolência do reconhecimento de seu semelhante espiritual como igual e totalmente voltado a auxiliá-lo em seu progresso.

Ainda como parte fundamental da estratégia espiritual para que a Umbanda fosse erguida e se tornasse uma realidade, foram formadas e recrutadas as Mães e Pais de Santo, e estes encarnaram neste mundo com esta missão, vieram com eles seus mais próximos seguidores, aqueles que iriam contribuir com o sucesso desta empreitada, que chamamos de Médiuns da Umbanda, aqueles através dos quais as Entidades se manifestam, ajudando, passando os ensinamentos e equilibrando, mas principalmente orientando no sentido de incutir em cada um as leis e propósitos da Umbanda e dentro do projeto espiritual traçado por Oxalá.

Vieram também junto a estes, os escritores, oradores, disseminadores, habilidades profissionais, conhecimentos Médicos e de Cura, através de todos os dons dado ao ser humano para este fim, bem como, toda uma linha de informação orientada e dirigida pela espiritualidade.

Porém de todas estas estratégias, uma das de maior significado para o êxito deste objetivo, é o nascer de um Templo de Umbanda, de um Terreiro de Umbanda, com todo o seu aparato e estrutura espiritual, consistente e bem formada, sua linha de Entidades e Médiuns, da mesma forma, previamente definidos para estarem naquele lugar, naquele momento, seguindo as mesmas diretrizes, a mesma missão, unidos como irmãos, buscando o mesmo intuito, cada um dentro de suas atividades, exercendo-as com compromisso e responsabilidade, com a vontade do espírito e principalmente com humildade, sabedores de que sua função bem executada será também, e da mesma forma a pedra que sustentará e alicerçará o sucesso destes Templos e da Umbanda neste mundo, e certos de que a vaidade continuada será eliminada, pois fere os objetivos da missão que está muito acima das individualidades.

A frente de todo este movimento estratégico da Espiritualidade de Luz, junto à matéria, aos espíritos encarnados, a toda esta estrutura de Médiuns e Entidades, esta a presença de maior significado em seu comando dentro de um Templo de Umbanda sobre a terra, a figura da Mãe e do Pai de Santo, eles são os indicados, às vezes até contrariando suas vontades, eles são os Mentores espiritualmente preparados, eles são os arrebanhadores, eles são o elo forte da Corrente, o ponto nobre que é diretamente alimentado pela luz e pela energia vibrante da Espiritualidade Maior, dos Orixás e toda formação espiritual que compõe esta estrutura. Uma Mãe e um Pai de Santo são previamente escolhidos pela espiritualidade que se formou quando da concepção da Umbanda como nova Religião a ocupar a Terra, antes mesmo de fazê-la nascer neste plano, ainda embrionária.

São espíritos que reúnem pré-requisitos para esta missão, foram escolhidos para iniciarem a jornada da Umbanda sobre a Terra, foram preparados desde outras vidas e continuam sendo preparados para as próximas encarnações.

Estes espíritos trazem no DNA espiritual o diferencial para que seja aplicado, ativado quando de sua chamada para o exercício de sua missão, fundando Templos e adotando as práticas, ensinamentos, a consciência religiosa umbandista, reunindo seguidores, orientando-os e formando-os para o objetivo de despertá-los para o reconhecimento da existência do espírito, dos planos espirituais e suas camadas, da necessidade da evolução galgando os degraus de luz que podem levá-los mais próximos da luz mais intensa, da luz maior de Oxalá, que é a referencia que a Umbanda dá ao maior, único e absoluto padrão de luz que um espírito pode atingir, mas nunca se igualar. Da mesma forma a consciência da escuridão e suas profundezas até o mais escuro estágio que um espírito pode atingir, onde a referencia é a maldade perversa que leva as trevas e aos mais desesperadores martírios que o abismo espiritual pode impingir a seus ocupantes, o frio intenso e doloroso, somente sentido pelos espíritos isolados de qualquer resquício de luz presos as amarras do mal ao qual sua própria índole o levou.

É com esta consciência que uma Mãe e um Pai de Santo, seus Filhos e seguidores devem levar adiante o objetivo traçado por Oxalá para a Espiritualidade de Luz e por consequência para todos que foram recrutados por eles. Este é o maior sentido de responsabilidade e comprometimento que um espírito pode ter, está acima de qualquer outro, pois nele está incutido todo o significado do bem e o maior requisito para alcançar a luz.

Médiuns e seguidores umbandistas, falando do Templo Espiritual de Umbanda Caboclo Pena Verde, este relato pode dar a todos, a significância de uma Mãe de Santo, que se iniciou com Dona Anna D`Orto e tem em sua continuidade junto a missão espiritual com todos os requisitos que credencia uma Mãe de Santo junto a seus Filhos de Santo, no maior sentido e amplitude do que é ser uma Mãe na relação com seus Filhos, gerados e nascidos da espiritualidade, muito além dos laços da família carnal, das ideologias, das crenças e religiões nas quais se originaram, dos modos, costumes e valores, até então estranhos em suas identidades, atitudes e reações, de visão e opiniões divergentes, porém agora unidos pela mesma fé, pela mesma religião que se tornou Mãe da Mãe, a Umbanda, mas primordialmente, unidos pelos laços de maior importância, os laços do mesmo propósito.

Em meio a todas as diferenças de seus Filhos uma Mãe ou um Pai de Santo devem ter também estrutura íntima e espiritual que lhe permita reunir esforços, paciência e prudência para poder lidar com antagonismos, egos e divergências, sempre procurando preservar a harmonia e união do grupo, bem como o equilíbrio da Casa e da Corrente.

A Mãe ou o Pai de Santo, são e serão sempre a maior referencia dentro de um Templo de Umbanda, não somente para seus Filhos e seguidores, mas para toda espiritualidade, eles são posicionados a frente do Congá, e é a partir deste Congá que a Espiritualidade de Luz e seus braços espirituais que iniciaram toda esta empreitada, os alimentam com sua energia, traduzida de diferentes formas sob a orientação dos emissários de Oxalá, dos Orixás e todas as linhas que representam as Entidades em suas mais diversificadas formas de manifestação, sempre ligadas às forças e elementos em seu meio natural e na essência do espírito em seu efeito sobre a matéria que rege, seu corpo físico.

O Congá é a fonte por onde a Espiritualidade de Luz faz jorrar sua carga energética e vibratória que irá ocupar todo o ambiente e a Corrente a partir da Mãe ou do Pai de Santo, e é por este motivo que não deve ser tocado, a não ser por aqueles previamente autorizados pelo Comando da Casa, antes de iniciados os trabalhos. Após iniciados, somente poderá ser tocado pela Mentora da Casa, preservando desta forma, sua fluidez, pureza e força de emanação. O toque no Congá é uma demonstração de indisciplina e desrespeito, vistos não só pela autoridade em terra, mas também pela espiritualidade que dele faz uso na sustentação e no comando das Giras.

Um Pai e uma Mãe de Santo não surge do nada, não são feitos a partir de um simples curso ou se aprende da experiência de se vivenciar uma prática por melhor que seja, ela vem pronta e já predestinada, se assim não for nunca terá êxito e continuidade neste propósito, impondo sua vontade própria e isolada, sem nenhum respaldo.

Um Pai e uma Mãe de Santo são requisitados por uma missão, por uma hierarquia espiritual de grande poder e luz, e sendo desta forma é a presença encarnada de topo da hierarquia de um Templo de Umbanda, de um Terreiro, e como tal devem ser considerados, respeitados, tratados e reverenciados.

Eles são o elo de união e firmeza, a vertente maior de um Templo por onde irá fluir toda vibração da espiritualidade que se espalha pela Corrente dando a cada Médium e Entidade a capacidade e a qualidade da emanação de seus potenciais mediúnicos e de manifestação de suas Entidades na execução das funções que o Templo através deles determinou a cada um, sem comportamentos e contestações vaidosas e insolentes, indisciplinadas ou irresponsáveis, fazendo com que o resultado obtido na ajuda e auxilio aos Assistidos seja sempre o melhor e mais duradouro.

O respeito e reverência para com a Mãe ou o Pai de Santo chega ao ponto de absolutamente ninguém poder sentar-se em sua cadeira, pois assim como uma guia, ela é firmada pelas Entidades de Comando do Templo, para uso único de uma Mãe ou um Pai de Santo, isso se estende a suas roupas, e principalmente as suas guias, que como no caso de Dona Anna, agora Mentora Espiritual, foram entregues no Santuário e as guias neste caso algumas delas ficaram para uso da nossa Babá, herdeira na linha hierárquica de comando da Casa ou transferidas para quem ela, por decisão ainda em vida determinou por orientação da Espiritualidade de Comando do Templo.

Vejam bem a importância de todo este teor, da harmonia de cada peça nesta engrenagem, da relevância e do sentido espiritual que envolve todo este contexto, da grandiosidade que tudo isso envolve e representa, mas principalmente do reconhecimento de que somos somente peças minúsculas, mas que podem mover toda esta engenharia espiritual, levando ao êxito do objetivo traçado muito acima do que somos capazes de minimamente imaginar.

Com humildade, respeito e acato a nossa Fé, a nossa Religião, a nossos Irmãos, a nossa Mãe de Santo, a Umbanda, a toda esta Espiritualidade de Luz que nos permitiu estar juntos, unidos nesta caminhada, e a seu maior articulador, Oxalá, vamos ser sim, peças pequenas, mas firmes, fortes, bem focadas, perseverantes e obstinadas, podendo contribuir com nosso pequeno, mas importante esforço, com toda este imenso mecanismo que irá transformar este mundo no melhor lugar e na melhor escola que um espírito possa ter.

Desde seu surgimento a Umbanda vem evoluindo, se aprimorando, como tudo no universo, como tudo nos planos espirituais, e nesta direção já vem mostrando ao mundo e a humanidade sua nova visão totalmente adaptada à realidade atual e a vindoura, no objetivo de dar sustentação, amparo e orientação voltada aos novos anseios e exposições, físicas, emocionais, psíquicas, das expectativas frente ao novo modelo de mundo, da educação e formação pessoal, profissional e espiritual, as quais o ser humano, crianças, jovens, e adultos, vem sendo colocados.

As novas aspirações dotadas de novos objetivos, nos aspectos tecnológicos, de transformação e de adaptação íntima, da mente e do espírito, ao novo cenário social, cultural, educacional e econômico do mundo que vão estar sempre ligados e sempre serão fatores de referencia do espírito encarnado e desencarnado sobre a Terra.

A espiritualidade se molda de forma a atender esta nova demanda por uma orientação equilibrada, por uma formação religiosa e espiritual, atualizada e moderna que possa suprir as novas e diferentes carências que dominam o ser humano. Esta é a missão da Umbanda e de todos os seus articuladores espirituais dentro desta nova versão do mundo no qual vivemos.






terça-feira, 1 de junho de 2021

CIGANOS E MALANDROS E AS LINHAS AUXILIARES E TRANSITÓRIAS NA UMBANDA.

Ao dissertarmos e debruçarmos sobre linhas auxiliares na Umbanda, temos nosso raciocínio, reflexão e inspiração voltadas para as encantadoras e alegres linhas de ciganos e malandros dentro do ritual de Umbanda, a nossa amada Religião que abre suas portas através do amor à todo espírito benfazejo e de boa vontade que queira servir Deus servindo seus semelhantes através das virtudes que nos distinguem e nos qualificam como seres humanos e humanizadores.

Tanto as linhas dos ciganos quanto a linha dos malandros, são egrégoras de espíritos que estão voltadas ao auxílio da humanidade com seus conhecimentos particulares e conhecimentos milenares nos campos da magia e no campo do conhecimento profundo da natureza humana.

O que são linhas auxiliares? Explicaremos!

Sabemos que toda manifestação a nível espiritual dentro da Umbanda, são realizadas por espíritos humanos que se consagraram como manifestadores humanos e espirituais dos sagrados orixás seus regentes nas suas linhas de trabalhos.

Na Umbanda os graus simbólicos preto-velho, caboclo, boiadeiro, baiano, marinheiro, Exu e Pomba-gira, são graus simbólicos que representa uma patente espiritual, tal como uma patente militar (soldado, cabo , sargento, comandante, etc,) dentro desses graus-patentes temos suas especificações tal como: (boina verde, boina preta, etc,) temos também o campo de atuação tal como: (marinha - atua e exerce sua função no mar, aeronáutica - atua e exerce sua função no ar e outro na terra e assim sucessivamente).

Ou seja, todos eles vinculados a uma instituição no qual eles representam legitimamente e falam em nome dela, pois são seus manifestantes, onde há um agente do exército, ali está o exército e seu porta voz.

Com a Umbanda não é diferente, pois um espírito ao se vincular e assumir um grau dentro da instituição religiosa de Umbanda, ali ele se torna um manifestador natural desse grau e da divindade regente desse grau, exemplo : espírito agregado a instituição religiosa de Umbanda sobre o grau Caboclo, vinculado ao mistério Beira-Mar que se torna um manifestador natural das qualidades, atributos e atribuição desse mistério, pois se torna o manifestador humano e espiritual do grau excelso beira mar que a nível Orixá intermediário está ligado ao sagrado Pai Ogum Beira-Mar o comandante dessa linha e intermediário dos mistérios maior do regente supremo Ogum, para os campos da mãe Orixá Iemanjá e o Pai Orixá Obaluaiê.

Entendam que um espírito quando vinculado a uma instituição religiosa e agregado em seu graus-patentes, ele está sujeito aos ditames, dogmas e liturgia desse grau assumido perante a instituição Religiosa que o acolheu que aqui no caso é a Umbanda.

Então entendemos que linhas auxiliares são como agentes comunitários de uma sociedade ou bairro, que não são policiais e não estão vinculados aos dogmas e leis internas que um soldado da polícia está sujeito, porém auxiliam ligando no 190 e comunicando possíveis crimes e delitos, denunciando tráficos de drogas e tudo que atenta contra a sociedade e sua comunidade em específico. Reparem que um agente não é um policial, porém auxilia com sua boa vontade o trabalho de um policial que está vinculado a uma instituição militar.

Assim são a linha de ciganos e malandros que também são espíritos luminosos, benfazejos e de boa vontade tão quanto os guias espirituais de Umbanda, tal como Caboclo, Preto-Velho, etc… tão evoluídos quanto os espíritos vinculados aos graus de Umbanda tal como caboclo, boiadeiro, marinheiro, etc, porém que auxiliam como agentes espirituais junto a esses graus simbólicos dentro da Umbanda, Caboclo, baiano, etc… e auxiliam nos seus trabalhos e nos seus campos de atuações na natureza tal como a beira mar, matas, etc.

Entendam o arquétipo libertador no qual está implícito a liberdade de ação e movimentação, tanto na linha dos ciganos que tem na sua filosofia de vida o ditado que a sua pátria “" A Terra é meu lar, o céu é meu teto e a liberdade é minha religião."
Bem como na linha dos malandros que simbolicamente traz o arquétipo daquele que tem um jogo de cintura para passar pelas dificuldades da vida, simbolizando aquele que vive e trabalha tendo no seu sustento vindo do biscate, e biscate aqui significa emprego esporádicos sem registro, um bico aqui outro ali, um rolinho aqui e outro ali e assim vai se tocando a vida, um dia comendo ovo e outro dia Filét mingnon, um dia tomando uísque e outro dia pinga.

Entendam que por trás desse arquétipo simbólico eles estão lhe dizendo: somos agentes comunitários da espiritualidade, por isso não somos regidos pela liturgia, regras ou dogmas dos graus que se manifestam na Umbanda, temos a nossa própria sociedade e egrégora no qual auxiliamos como linhas auxiliares ou como no exemplo aqui descrito por nós como agente comunitário que ajuda a polícia sem ser polícia, que auxilia a polícia sem os deveres e obrigações de um policial, por isso o arquétipo libertador, pois onde fomos, seja qual Religião ou faixa vibratória espiritual que venhamos a estar, lá somos somentes agentes da espiritualidade auxiliando os graus fixos que nelas trabalham, por isso temos o nosso modo próprio de nos vestirmos e falarmos, e os sábios guias de lei de Umbanda nos entendem e até abrem um dia no ano ou de mês em mês para que venhamos trabalhar em suas casas espirituais ou terreiros sem exigirem que alteremos nossa natureza e vestimenta ou forma de trabalhar, justamente porque não somos espíritos agregados ao grau de Umbanda, mas sim egrégoras auxiliares ou como bem exemplificados, agentes comunitários.



A polícia ou a instituição militar não exige que seus agentes comunitários façam a barba ou ilustre suas botas ou tenha qualquer comportamento condizente com aqueles que estão agregados às suas ordens militares, porém necessitam dos agentes comunitários para que tornem seus trabalhos enquanto instituição melhores e mais eficazes. Por isso disponibiliza um telefone Disque denúncia (meio mediúnico de incorporação) ou um canal de comunicação para auxiliar a polícia.

Sendo assim passamos a entender que os espíritos que se manifestam como ciganos ou malandros não seguem uma liturgia no qual os graus caboclos e todos os outros graus de manifestações corriqueiras na Umbanda seguem, tal como o agente comunitário também não é regido pelas normas internas de um policial em exercício, entendemos o motivo deles terem suas próprias individualidades e formas de culto, pois nessa lógica os entendemos como linha auxiliares de Umbanda e não graus fixos dentro da Umbanda.

Sendo assim que sejam sempre bem vindos esses amados espíritos agentes comunitários da espiritualidade e egregoras espirituais auxiliares das linhas de Umbanda, que não são vinculados a uma religião (a) ou (b) mas servem Deus como um Todo, e onde a bondade divina se manifestar lá está a auxiliar e servir Deus um agente espiritual ciganos ou malandros, pois um agente comunitário não é o policial mas ajuda a polícia, e a linha de ciganos ou de malandros não é de um espírito vinculados aos graus e liturgia de Umbanda mas ajuda e muito a Umbanda, muito mais que possamos imaginar.

A vantagem de ser um agente comunitário é que não só auxiliamos a sociedade ou a comunidade avisando a polícia, mas também ajudamos a comunidade levando alimentos aos menos favorecidos, dando banho e alimentando aos mais necessitados, se organizando para ajudar no nascimento de uma criança no qual os pais não tem condições de arcar com os valores hospitalares, auxiliamos quando alguém morre e a família não tem condições de enterrá-la e aí fazemos uma vaquinha e enterramos com dignidade aquele irmão que viveu junto de nós e trazendo a tranquilidade à família em ver um seu ente querido sendo entregue a Deus com a mesma dignidade em que venho ao mundo, etc. Ou seja, temos liberdade de ação… entendem agora o arquétipo do cigano, pois só o agente ou auxiliar tem a liberdade de ajudar aonde for chamado, pois não está vinculado à uma única instituição e sim exerce a bondade onde é convidado e se faz necessário, sendo assim entenda que todos nós temos um espírito protetor e auxiliar cigano e um malandro, que representa e agrega todos os espíritos que decidiram servir Deus sem uma cátedra religiosa a se vincular, por isso se autodenominam como espíritos livres, pois um agente é isso: um servidor de Deus que O serve onde for solicitado ou no caminho daquele que necessita da ajuda do Pai Maior, saiba que todos temos um espírito amparador e representante de Deus como seus agentes livres para fazer o bem sem alterar sua natureza e sem se vincular há uma instituição religiosa de forma definitiva. Sendo assim muitos desses espíritos são passivos em nossa incorporação porém são muito ativo em nosso dia-a-dia e estão nos assistindo quase que diuturnamente, pois a exemplo ao necessitar de um médico ou polícial temos que ligar e correr para o hospital e quase sempre não somos atendidos prontamente devido a uma grande quantidade de pessoas que um policial ou um médico atende, porém um agente por estar mais próximo de nós, com determinados procedimento auxiliares pode salvar vidas até que os especialistas médico ou policial cheguem e assuma seus procedimentos aos quais estão devidamente instituídos. Por isso um agente é vital pois sempre estão mais próximos de nós, pois um “agente do bem” todos podemos ser, já um médico nem todos podem ser, porém um médico antes de ser médico foi um agente. Os agentes de Deus são a bondade infinita do Pai que se manifestam sem rótulos ou títulos e muitas vezes são marginalizados pela sociedade material e até a espiritual, por isso que só a Umbanda enquanto Religião espiritualista com prática de incorporação é umas das poucas ou únicas que lhes facultam uma oportunidade de trabalho. Portanto é por isso que Sêo Zé ou outro espírito que se manifesta sobre o arquétipo e a personalidade do malandro não é Exu e nem baiano e sim um agente auxiliar disposto a ajudar onde lhe abrir uma oportunidade espiritual, por isso o amado Pai e Mestre Zé pelintra não é Exu e nem baiano, porém se manifesta nas duas linhas sem deixar de ser o que é e sempre será: “um agente de Deus e um auxiliar da espiritualidade, servindo Deus através do auxílio do seu semelhante”

E por isso mesmo que o doutor José pelintra, é doutor sem ser médico, pois ele não está vinculado há uma cátedra universitária, porém tem a liberdade como todo agente os tem, então o seu Zé é doutor quando cura um mal do corpo, é doutor quando cura um mal da alma, é doutor quando cura uma dor de amor, seu Zé é o Zé dos pobres quando ajuda a alimentar aquele que tem fome, é Zé da morte, quando ajuda enterrar com dignidade aquele quase indigente encarnado cuja a família não é abastada, é o Zé da vida quando ajuda a levantar fundos para custear o nascimento de uma criança ou seu direito a vida, é Zé do lar quando auxilia e mobiliza toda uma sociedade a ajudar a custear o direito à moradia daquele que não tem condições, etc... é por isso que se cantar para seu Zé na igreja ele vem para fazer o bem, na encruzilhada ele vem, na mesa kardecista ele vem, ele vem onde lhe chamar para fazer o bem. No cabaré ou na igreja ele vem nos ajudar.

Lembre-se que foi preciso fundar uma Religião chamada de Umbanda, porque índios com suas egrégoras de espíritos não podiam dar uma palavra de fé, carinho e esclarecimento, lembrem-se que pelos mesmos motivos os negros escravos e africanos também foram banidos das escolas e “casas espíritas de caridade” e lembre-se que, no fundo tanto um policial quanto um agente comunitário são antes de tudo seres humanos dispostos a fazerem o bem.

Encerramos essa reflexão em forma de texto dizendo um lema de nossos amados agentes do amor pois onde lhe permitem, se manifestam e auxiliam a aumentar mais esse sentimento ímpar que nos une e nos distinguem como filhos do Pai de todos os Pais, “ O céu é meu teto; a terra é minha pátria e a liberdade é minha religião” um agente comunitário espiritual ou um cigano é isso : um espírito excelso que traz em seu íntimo um arquétipo daquele que se permite em acreditar e servir Deus através do amor alcançando tanto a religião e aqueles que se conduzem regidos por Ela, quanto aquele que crê em Deus, porém não se conduzem através de uma religião ou manifesta sua fé através de uma égide Religiosa.

Encerro este texto e agora prometo que vou encerrar (kkk), com a frase da linha dos malandros:

“Malandro é como Deus, está em todo lugar, amando canta a vida e ensina sem julgar, pois quem​ julga se torna juiz de um rei que só é amar, e que rei é esse? É nosso pai Oxalá e que também pode ser Jesus, ou pode ser o nome naquele que sua fé depositar.


Axé meus irmãos…

Optcha, arriba ciganos!

Salve a malandragem!



OS CAMINHOS DA UMBANDA

Religião nascida no Brasil prega a caridade e o livre arbítrio

Não é um caminho fácil. É um caminho de muito fundamento, de muito preconceito. Mas, para aquele que se entrega, é um caminho lindo”. É assim que o advogado Cristian Moraes define a trajetória para quem escolhe a umbanda como religião.

A Umbanda nasce como reflexo da miscigenação que tanto caracteriza o Brasil. É um conjunto do catolicismo — a religião do homem branco -, dos rituais indígenas — a origem do povo brasileiro -, e dos cultos afro — dos negros que, sem querer, foram trazidos para cá. A antropóloga Lígia Magalhães afirma, “ainda que os candomblecistas talvez não concordem com isso que eu estou falando [risos]”, que a umbanda é a única religião nascida no país. Isso porque o candomblé nasce na África e vem, com os escravos, para a América do Sul. Ainda que os povos indígenas que aqui habitava tivessem suas crenças, a concepção de Brasil como terra começa depois da chegada dos portugueses, e que também tem como elemento a escravidão africana.

“O Brasil é uma mistura das culturas, e a umbanda representa isso”, conta Lígia, que é capitã — espécie de auxiliar do pai de santo — na CDO. Justamente devido a essa mistura é que a religião é bastante complexa, de muitos fundamentos.

Em termos gerais, a umbanda surge no Rio de Janeiro, em 1908, quando o médium Zélio Fernandino de Moraes, então com 17 anos, incorporou um espírito que se apresentou como Caboclo das Sete Encruzilhadas. Um tempo antes, fatos estranhos começaram a acontecer em sua vida. Zélio sentia vibrações e, em alguns momentos, era visto com a postura de um velho, falando manso e com sotaque diferente de sua religião. Em outros, discorria a respeito dos mistérios da natureza. Aqueles ao seu redor achavam que o rapaz poderia estar doente ou, pior, com uma possessão psíquica! Após ser acometido por uma paralisia parcial e se curar, de forma aparentemente milagrosa, o jovem foi encaminhado a um centro de mesa branca, onde ocorreu a manifestação de um espírito

“Se é preciso que eu tenha um nome, digam que sou o Caboclo das Sete Encruzilhadas, pois para mim não existirão caminhos fechados. Venho trazer a umbanda, uma religião que harmonizará as famílias e que há de perdurar até o final dos séculos”, teria dito aos que lá estavam. Surge, então, a Tenda Espírita Nossa Senhora da Piedade, primeira casa de umbanda e que existe até hoje.

Ao contrário de outras religiões, a umbanda não é codificada. Nesta crença, portanto, não existe documento equivalente ao Código de Direito Canônico, por exemplo, que organiza a Igreja Católica Romana. Pelo fato de o Brasil ser tão extenso, cada região com suas características, os terreiros têm, cada qual, suas peculiaridades, ainda que a raiz seja a mesma.

“O que é, verdadeiramente, regra geral e absoluta para se saber sobre a religião é que não pode haver cobrança financeira e não se pode usar do sangue de animais. Então, tudo aquilo que tem uma manifestação de um espírito e é feito pela caridade, sem sacrifício de animal, pode hoje ser reconhecido como umbanda”, esclarece Cristian.
Oxalá ou Jesus Cristo?

Quem já leu ou assistiu a uma das inúmeras adaptações de “O Pagador de Promessas”, peça fundamental do teatro brasileiro, nascida da cabeça e das mãos de Dias Gomes, certamente se lembra que o simples Zé do Burro, devoto de Santa Bárbara, pede à divindade que cure seu pobre quadrúpede. Como não havia igreja dedicada à santa em sua pequena cidade do interior baiano, Zé do Burro faz a promessa em um terreiro de candomblé, onde Santa Bárbara é conhecida como Iansã.

Embora seja uma crença monoteísta, que tem na figura de Olorum um Deus criador, supremo, a umbanda, assim como outras religiões afrodescendentes — como o candomblé a que Zé do Burro recorre -, cultua orixás. Forças da natureza, os orixás são responsáveis por emanar a luz que vem de Deus.

Quando os escravos aqui chegaram e quiseram continuar com a prática de sua fé, a saída encontrada para evitar possíveis represálias dos homens brancos e cristãos foi associar aos orixás santos católicos que pudessem representar cada um deles. Assim, o sincretismo trouxe a aproximação das religiões com raízes africanas ao catolicismo, dentro do que cada orixá se aproxima com o que foi santificado na religião católica.

Cristian conta que até hoje essas imagens são utilizadas nos terreiros porque é comum que muitas pessoas procurem a umbanda em momentos de desespero, com dor, com uma necessidade de salvação. “Ao se deparar com um congá [como é chamado o altar na umbanda] que tem a imagem do santo a quem essa pessoa se devotou desde pequena, ela se sente mais próxima, acolhida”, afirma o pai de santo.

De forma básica, a umbanda cultua sete orixás (saiba mais no PDF interativo abaixo). Oxalá representa a fé, a religiosidade, o amor, e está sincretizado com Jesus Cristo. Oxum é o amor, encontrado na água doce e cultuado nas cachoeiras, e que tem Nossa Senhora Aparecida como figura equivalente no catolicismo. Oxóssi, comparado a São Sebastião, está nas matas e irradia o conhecimento. Xangô, orixá da justiça, é cultuado nas grandes pedreiras e está sincretizado com São João Batista.

Ogum, São Jorge, representa o caminho da lei e tem nas estradas seu ponto de oferenda. Iansã, a Santa Bárbara de Zé do Burro, trabalha em conjunto com Ogum e aplica a lei, recolhendo aqueles que estão desvirtuados. “Iansã é cultuada nos bambuzais, nas grandes tempestades, na força da chuva”, explica Cristian. Talvez o mais conhecido dos orixás dentre aqueles que não são umbandistas, Iemanjá é a rainha do mar, que simboliza o amparo de mãe. Se Oxum é o amor que se tem por tudo de forma equilibrada, Iemanjá é o amor maternal. É sincretizada com Nossa Senhora dos Navegantes.

A sabedoria dos espíritos

É importante salientar que os médiuns umbandistas, diferentemente dos candomblecistas, não incorporam os orixás, ainda que os cultuem. Quem é incorporado são espíritos que já passaram pela terra, chamados de guias, que atuam na força de um determinado orixá e integram uma linha de trabalho. De forma grosseira, pode-se dizer que as linhas de trabalho são as classificações dos espíritos que se manifestam na umbanda.

Em sua origem, apresentaram-se à umbanda espíritos de apenas três linhas de trabalho, que ficaram conhecidas como “linhas da direita”. Tanto é que o símbolo tradicional da religião é o triângulo. Os outros guias, por sua vez, apresentaram-se à medida em que a crença evoluiu. Essas linhas originais, por assim dizer, são os Caboclos, os Erês e os Pretos Velhos. Com o arquétipo do homem forte, que trabalha, os Caboclos conhecem os mistérios das ervas e da cura. Já os Erês são as crianças, que trazem pureza, sonho e alegria. “Aquilo que, muitas vezes, está adormecido dentro de nós”, diz Cristian. Os Pretos Velhos, por fim, são a sabedoria e a humildade, a voz baixa que traz a esperança para o amanhã.

“A umbanda é mudança de consciência universal.” (Cristian Moraes, pai de santo)

Conforme a umbanda cresce, outros guias começam a se aproximar, integrantes das chamadas “linhas auxiliares” e “linhas da esquerda”. Integram as auxiliares os Ciganos, os Marinheiros, os Baianos e os Boiadeiros. Há também os Malandros, que trabalham tanto à direita quanto à esquerda. Os Ciganos trazem a valorização do momento, de aproveitar o agora, enquanto os Baianos representam a fé do homem simples. Os Boiadeiros, que trabalham muito na frequência de Iansã, laçam espíritos perdidos e os orientam para o caminho da lei espiritual, enquanto os Marinheiros, com Iemanjá , limpam o ambiente a fim de trazer alegria e conforto. Com Zé Pelintra como uma de suas entidades mais conhecidas, os Malandros acreditam que a vida deve ser direcionada da forma com que os malandros de antigamente faziam, de que há sempre um jeitinho para se estar bem diante das dificuldades.

Talvez a mais marginalizada das linhas da umbanda, a linha de esquerda é dos Exus e das Pombagiras. “É comum que pessoas leigas digam que elas são representações do demônio, ligadas ao satanismo, mas não é nada disso”, fala Cristian. Essas entidades, nada mais são, espíritos que possuem um conhecimento muito grande do plano material, da frequência terrena.

“Há muita gente que procura a umbanda sem estar disposta para obter autoconhecimento de forma imediata. Imagine alguém que perdeu o emprego, levou ‘um pé’ da mulher, descobriu que tem uma doença… Essa pessoa chega ao terreiro e, muitas vezes, não é o Preto Velho dizendo para ter sabedoria, o Caboclo indicando um banho e ervas ou uma criança que avisa ‘tio, fique feliz!’ que vai acalentar o coração dela”, exemplifica o advogado.

Por motivos assim é que guias com uma maior compreensão da dor humana se apresentaram à umbanda. Os Exus neutralizam, retiram a densidade da carga com que a pessoa chega ao terreiro, e encaminham para as Pombagiras, que movimentam, abrem caminhos, trabalham por amor e prosperidade. Segundo Cristian, “essas figuras, portanto, não têm nada a ver com satanismo, com figuras horrorosas que se colocam por aí. Elas têm a permissão divina para ingressar nas vibrações energéticas mais densas e sombrias possíveis com o intuito de restabelecer o equilíbrio do ser humano”.

Para ajudar o médium a entrar em uma frequência de acesso aos guias com maior intensidade, para “facilitar o transe”, como diz Cristian, os umbandistas lançam mão da música, por meio de canções que eles chamam de “pontos”.

Além dos pontos cantados, há os pontos riscados, um dos instrumentos mais poderosos da umbanda, que servem para delimitar a área de atuação de um guia durante um trabalho. O que, exatamente, os desenhos significam, permanece um dos maiores mistérios da religião.

“Ele [o guia] faz o risco para que todo o trabalho fique concentrado nesse lugar. Imagine, por exemplo, se o guia está trabalhando com uma energia densa. Se não houver essa limitação, a energia do trabalho vai se espalhar para todo o terreiro”, conta o pai de santo.

Lígia explica, contudo, que mediunidade não é sinônimo de incorporação. “Médium é aquela pessoa que tem a sensibilidade para lidar com o imaterial. É alguém que tem a crença e a consciência do mundo espiritual, e tem a sensibilidade de trabalhar junto com esse mundo realizando ações aqui”, afirma a antropóloga, que trabalha com a questão sensitiva. Cristian, por outro lado, incorpora espíritos, tarefa que exige muito estudo e preparação, da mente e do corpo. Ele esclarece que dizer que um médium fica 100% inconsciente durante um trabalho é mito. Existem, é claro, momentos da gira — como se chama o principal ritual da umbanda, comparável à missa para um católico — que exigem um grau de consciência pequeno por parte do médium, talvez pela intensidade do trabalho.

“A umbanda é mudança de consciência universal. Que religião seria essa em que um espírito com tanta coisa boa para ser passada não traz essas coisas boas para seu médium? O médium é quem mais precisa ouvir, aprender, quem mais precisa estar ciente do que está acontecendo. Por isso é que o médium tem, sim, consciência de boa parte do que está acontecendo, mas em graus diferentes. Às vezes é 90% a entidade e 10% o médium. Às vezes é 70% a 30%, muitas vezes 50% a 50%. A gente costuma dizer que é café com leite. Tem dias em que você toma com mais café, outras com mais leite. Assim é a relação entre médium e espírito”, explana Cristian.

As bebidas alcoólicas e o charuto, muito criticados por aqueles que atacam a umbanda, são utilizados com papel específico dentro de uma gira. A fumaça, também utilizada na Igreja Católica, por meio dos incensos, tem função de limpeza e descarrego. Já o álcool facilita o acesso dos espíritos ao plano terreno. Nesse sentido, tudo o que está no terreiro tem uma razão de ser.

“Os chapéus, as estátuas, todos eles estão aqui cumprindo uma função. Nada aqui dentro é apenas uma estátua, uma peça de gesso, um quadro, um leque. É um elemento que deve estar aqui para os trabalhos que a cada realiza. Eles são sagrados, são consagrados pelas entidades”, ensina Lígia.

Tanto o material influencia no trabalho realizado na umbanda que uma prática comum na religião é realizar oferendas aos guias e aos orixás. Muitas vezes vista como “macumba” ou “magia negra”, essas oferendas nada mais são que uma forma de agradecer e de se aproximar de um espírito ou de uma força que muito te ajudou.

“Aqui no terreiro a gente sugere as oferendas a cada orixá pelo menos uma vez ao ano, por mais simples que sejam. Para o meu pólo energético do conhecimento estar aflorado, vivo, eu preciso, pelo menos uma vez ao ano, ir à mata, respirar a mata, sentir pai Oxóssi, acender uma vela e me alimentar daquela energia. Ir a uma pedreira e sentir pai Xangô, e por aí vai”, exemplifica Cristian, a respeito das oferendas aos orixás.

Já as oferendas para os guias são indicadas pelos próprios espíritos, e podem variar de carne crua a farofa, de cachaça a espumante. Os locais para o depósito dessas oferendas também são indicados pelos guias. Pode ser uma esquina, um trilho de trem… Tudo depende de qual é a linha de trabalho da entidade em questão.
Enfeite ou proteção?

Quem acompanhar uma gira, certamente irá reparar que os integrantes da corrente espiritual utilizam grandes e coloridos colares no pescoço. Mas para que eles servem, afinal?

Chamados de guias — o mesmo nome que se dá aos espíritos que realizam trabalhos na umbanda -, esses adereços são utilizados como uma espécie de para-raios para o médium durante um trabalho, a fim de evitar que energias muito densas atinjam diretamente a pessoa. “Às vezes acontece, numa gira muito pesada, da guia de alguém estourar. A gente trabalha com energia”, conta Cristian. Por isso é que, de tempos em tempos, recomenda-se que os médiuns façam uma reenergização, uma limpeza, dessas guias, em água corrente e até com ervas específicas.
Sem pecado

Os umbandistas, ao contrário da maioria dos seguidores das religiões ocidentais, não acreditam em pecado. Para eles, que têm na vida e no livre arbítrio dons primordiais, é tudo uma questão de causa e consequência. “É claro que não vamos dizer que, por exemplo, matar uma pessoa é correto, porque a vida é sagrada… Mas você vai arcar com as consequências das suas escolhas”, diz a antropóloga.

E a homossexualidade? É condenada pela umbanda? Lígia esclarece que “a sexualidade humana, desde que não seja utilizada de maneira a cometer violência ou a influenciar o livre arbítrio de alguém, desde que seja praticada entre pessoas conscientes, que sabem o que estão fazendo, que o fazem de livre e espontânea vontade, é irrelevante para a vida espiritual”.
Medo do desconhecido

A umbanda talvez seja uma das religiões que mais sofre preconceito por parte daqueles que não a conhecem. Além do medo do desconhecido, Cristian acredita que muitas coisas praticadas, supostamente, em nome da religião corroboram para a discriminação. Terreiros que cobram pelo trabalho e “pais de santo de poste”, aqueles que lançam mão de nomes de orixás prometendo amor, são citados pelo advogado como exemplo da falta de credibilidade que a umbanda pode trazer. Lígia também atenta para o fato de a umbanda ser uma religião afrodescendente, de negros, num país que ela considera brutalmente racista.

“Por que os Exus são demônios e o cara que faz psicografia é quase considerado um novo Jesus Cristo? Porque um é negro. ‘Exu’ é uma palavra negra, é e uma tradição africana, e o outro vem da França”, opina.

Justamente por conta desse preconceito é que muitos confundem umbanda e candomblé. Lígia acredita que “tudo o que é negro, a gente trata de maneira amorfa. Fica mais fácil de disseminar o preconceito. Mas são duas religiões diferentes”.
Mas é umbanda ou candomblé?

O próprio Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), em pesquisas, não difere umbanda de candomblé. Por isso fica até difícil precisar com exatidão quantos brasileiros são umbandistas. No censo de 2010, 0,3% da população se declarou umbandista ou candomblecista, com maioria — 0,5% — concentrada na Região Sul.

De forma sintética, até porque ambas as religiões são bastante fundamentadas, as diferenças principais são que o candomblé aceita o sacrifício de animais e não cultua espíritos que já passaram pela Terra, como os Caboclos e Pretos Velhos. No terreiro de candomblé, os médiuns incorporam os próprios orixás e todo o ritual é feito por meio de danças e oferendas, uma vez que os orixás não falam.

Sobre a matança de animais, Cristian explica que ela é feita de forma fundamentada, pois o sangue é utilizado por sua energia vital. “É importante que se diga que o animal eleito para a oferenda ao orixá é sacrificado pela mão do candomblecista. Há toda uma preparação para que esse integrante ‘tenha mão’ para isso”, explica. Depois, todas as partes do animal são transformadas em comida, distribuída à comunidade ou dentro do próprio terreiro.

“É até mais louvável utilizar o sangue de um animal para uma oferenda e depois aproveitar o resto como alimento, do que matar um boi para vender no açougue. É que, talvez, o ato do sacrifício traga um pouco de impacto”, divaga o pai de santo.

Para quem ainda tem preconceito, seja com a umbanda ou com o candomblé, o recado de Lígia é para que as pessoas se permitam enxergar o outro sem tantas barreiras, preconceitos ou pré-conceitos. “Baixar a guarda e entender que diferenças sempre existiram, que sempre vão existir e essa é a grande riqueza do ser humano”, finaliza.



JOGO DE BÚZIOS

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