segunda-feira, 23 de novembro de 2020

Orixá Òrànmíyàn: pai de Xangô

Òrànmíyàn (Oranian) foi o filho mais novo de Odùduà e tornou-se o mais poderoso de todos eles; aquele cuja fama era a maior em toda a nação ioruba. Tornou-se famoso como caçador desde a juventude e, em seguida, pelas grandes, numerosas e proveitosas conquistas que realizou.* Foi o fundador do reino de Oyó. Uma de suas mulheres, Torosí (Torosi), filha de Elémpe, o rei da nação Tapa (ou Nupê), foi a mãe de Xangô, que, mais tarde, subiu ao trono de Oyó. Oranian instalou um outro filho seu, Eweka, como rei em Benim, tornando-se ele o próprio Óòni de Ifé.

Oranian foi concebido em condições muito singulares, que, sem dúvida, espantariam os geneticistas modernos. Uma lenda relata como Ogum, durante uma de suas expedições guereiras, conquistou a cidade de Ogotún, saqueou-a e trouxe um espólio importante. Uma prisioneira de rara beleza chamada Lakanjê agradou-lhe tanto que ele não respeitou sua virtude. Mais tarde , quando Odùduà, pai de Ogum, a viu, ficou perturbado, desejou-a por sua vez e fez dela uma de suas mulheres. Ogum , amedrontado, não ousou revelar a seu pai o que se passara entre ele e a bela prisioneira. Nove meses mais tarde, Oranian nascia. Seu corpo era verticalmente dividido em duas cores. Era preto de um lado, pois Ogum tinha pele escura, e pardo do outro, como Odùduà, que tinha a pele muito clara.
Essa característica de Oranian é representada todos os anos em Ifé, por ocasião da festa do Olojó, quando o corpo dos servidores do Óòni é pintado de preto e branco. Eles acompanham Óòni de seu palácio até Òkè Mògún, a colina onde se ergue um molito consagrado a Ogum. Essa grande pedra é cercada de màrìwò òpè, franjas de palmeiras desfiadas, e, nesse dia, os sacrifícios de cão e galo são aí pendurados. Óòni chega vestido suntuosamente, tendo na cabeça a coroa de Odùduà. É uma das raras ocasiões, talvez mesmo a única do ano, em que ele , a usa publicamente fora do palácio. Chegando diante da pedra de Ogum, ele cruza por um instante sua espada com Osògún, chefe do culto de Ogum em Ifé, em sinal de aliança, apesar do desprazer experimentado por Odùduà quando descobriu que não era o único pai de Oranian.
Oranian, como já dissemos, foi o fundador da dinastia dos reis de Oyó. O mito da criação do mundo tal como é contado em Oyó atribui-lhe esse ato e não a Odùduà. Estes dois personagens são fundadores das respectivas linhagens reais de Oyó e de Ifé, o que bem demonstra que o mito da criação do mundo é, de um lado e outro, o reflexo da lenda histórica da origem das dinastias que dominam nesses reinos. A supremacia estabelecida por Oranian sobre seus irmãos nos é narrada em um lenda Recolhida no século passado em Oyó**:
No começo, a terra não existia…No alto era o céu, embaixo era a água e nenhum ser animava nem o céu nem a água. Ora, o Todo-Poderoso Olodumaré, o senhor e o pai de todas as coisas…criou, inicialmente, sete príncipes coroados… Em seguida… sete sacos nos quais havia búzios, pérolas, tecidos e outras riquezas. Criou uma galinha e vinte e uma barras de ferro. Criou, ainda, dentro de um pano preto, um pacote volumoso cujo conteúdo era desconhecido. E, finalmente, uma corrente de ferro muito comprida, na qual prendeu os tesouros e os sete príncipes. Depois, deixou cair tudo do alto do céu…No limite só havia água…Olodumaré, do alto de sua divina, jogou uma semente que caiu na água. Logo, uma enorme palmeira cresceu até os príncipes, oferecendo-lhes um abrigo grande e seguro, entre suas palmas. Os príncipes se refugiaram ali e se instalaram com suas bagagens. Eram todos príncipes coroados e, conseqüentemente, todos queriam comandar. Resolveram separar-se. Os nomes desses sete príncipes eram: Olówu, que se tornou rei de Egbá; Onisabe, que se tornou rei de Savé; Orangun, que reinou em Ila; Óòni, que foi soberano de Ifé; Ajerô, que se tornou rei de Ijerô; Alákétu, que reinou em Kêto; e o último criado, o mais jovem, Òrànmíyàn, que se tornou rei de Oyó. Antes de se separem para seguirem os seus destinos, os sete príncipes decidiram repartir entre eles a soma dos tesouros e das provisões que o Todo-Poderoso lhes havia dado. Os seis mais velhos pegaram os búzios, as pérolas, os tecidos e tudo o que julgaram preciosos ou bom para comer. Deixaram para o mais moço o pacote de pano preto, as vinte e uma barras de ferro e a galinha…Os seis príncipes partiram a descoberta nas folhas de palmeira. Quando Oranian ficou sozinho, desejou ver o que continha o pacote envolto no pano preto. Abriu-o e viu uma porção de substância preta que ele desconhecia…sacudiu então o pano e a substância preta caiu na água e não desapareceu. Formou um montículo. A galinha voou para pousar em cima. Ali chegando, ela pôs-se a ciscar essa matéria preta, que se espalhou para longe. E o montículo se ampliou e ocupou o lugar da água. Eis aí como nasceu a terra. Oranian apressou-se em descer para o domínio, assim formado pela substância negra, e tomou posse da terra. Por sua vez, os ouros seis príncipes desceram da palmeira. Quiseram tomar a terra de Oranian, como já lhe haviam tomado, na palmeira, sua parte dos búzios, das pérolas, dos tecidos e dos alimentos…Mas Oranian tinha armas; suas vinte e uma barras de ferro haviam se transformado em lanças, dardos, flechas e machados. Com a mão direita, ele brandia uma longa espada, e lhes dizia: Esta terra é só minha. Lá em cima, quando me roubaram, vocês me deixaram apenas esta terra e este ferro. A terra cresceu e o ferro também; com ele defenderei a minha terra! Vou matar todos vocês. Os seis príncipes pediram clemência, rastejaram aos pés de Oranian, suplicantes. Pediram-lhe que lhes cedesse uma parte de sua terra para que pudessem viver, e continuar príncipes… Oranian poupo-lhes a vida e deu-lhes uma parte da terra. Exigiu apenas uma condição: esses príncipes e seus descendentes; deveriam, todo ano, vir prestar-lhe homenagem e pagar os impostos na sua cidade principal, para demonstrar e lembrar que eles tinham recebido, por Condescendência, a vida e sua parte de terra. Eis aí como Oranian tornou-se rei de Oyó e soberano da nação ioruba, isto é, de toda terra. Porém , Ifé reivindica a preponderância sobre Oyó. É em Ifé que está guardado o sabre de Oranian, chamado sabre da justiça, que os reis do Oyó devem segurar nas Mãos durante as cerimônias de entronização, para garantir sua futura autoridade. Vêem-se ainda em Ifé duas outras relíquias de Oranian: um grande monólito, o Òpá Òrànmíyàn, seu bastão de comando na guerra, e uma grande pedra em forma de laje, Asa Òrànmíyàn, seu escudo.




terça-feira, 20 de outubro de 2020

ADULTÉRIO / INFIDELIDADE

O triângulo afetivo, nunca se forma a contento, e, termina, sempre, na vida, em trio de sofrimento"

Todos nós vivemos em uma sociedade organizada, sujeita a regras de procedimento, úteis e necessárias para facilitar a vida e permitir a coexistência agradável. São as NORMAS de conduta. Por serem havidas como indispensáveis, são ensinadas desde a infância e acabam absorvidas e interiorizadas para nortear o comportamento civilizado. De outro lado existem os IMPULSOS naturais, os instintos do ser humano, tais como a agressividade, a sexualidade, etc, que não conhecem, não aceitam e nem seguem normas.

Diante de uma situação antagônica o homem entra em conflito. Faz parte de sua essência viver dividido entre as normas e os impulsos, sendo muita ilusão pensar que só será feliz quando seus conflitos terminarem. Precisa é saber administrá-los e isso não consegue sem conhecimento e exercitamento, coisa que não faz sem ajuda.
Um dos problemas mais importantes no desajustamento comum do homem é que ele encara de forma patológica um impulso que é normal. Exemplo constante é o da agressividade que a cultura ensinou tratar-se de algo ruim, mas este impulso, que tem a finalidade de mobilizar o ser paralisado pelo medo, existe em nós para ajudar a estabelecer limites e para defender. Há necessidade de requalificá-lo, pois ele é apenas neutro. Seu resultado é que pode ser mau ou bom.
Com o impulso sexual é a mesma coisa, é neutro, podendo apresentar resultados bons e maus conforme a direção que lhe é imprimida. Conquanto já tenha tido uma boa requalificação em várias partes do mundo civilizado, ainda padece de má interpretação nos países de terceiro mundo onde é visto de três diferentes maneiras:
1) Emoção de segunda classe, um mal, portanto, mas necessário considerando a reprodução. O normal e correto é reprimi-lo.
2) Diferenciação entre mulher e homem, estabelecendo normas masculinas e normas femininas. Claro que a moral vigente diz que, em termos de direitos, homens e mulheres são iguais. Mas, os homens são muito mais iguais! Deles se espera uma vida sexual intensa e precoce, que começa aos doze, treze anos. Se não acontece nesta idade, a família fica ansiosíssima com a possibilidade de o garoto vir a tornar-se homossexual, pelo que, passam a tomar várias providências de provocação. E o que se espera da mulher? Que fique virgem e casta até o casamento e ai da moça que faz o contrário... Ela tem de ser assexuada até o casamento e, então, transformar-se numa messalina. Nesse contexto se tem um rapaz que aprendeu a não ter sexo com a pessoa que ama e uma garota que não aprendeu a ter sexo de jeito nenhum. Benze-se as alianças e jogam os dois numa aventura chamada lua-de-mel. Eles vão ter, a duras penas, de aprender a praticar uma ação altamente emocional, buscando o prazer a que ambos têm direito. Não pode dar certo.
3) Sexo tabu, ninguém pode falar, é vergonhoso, é proibido. O aprendizado é feito na rua, de modo errado e perverso. Talvez, um dia, alguém ensine alguma coisa porque a escola também não ensina. Com as moças é pior ainda. Um dia, talvez, uma tia tenha uma conversa com ela, na véspera do casamento, talvez...
Mas, as coisas já mudaram em várias partes do mundo e estão mudando por aqui. O que houve? Por que mudou? Não foi porque a humanidade tenha amadurecido ou adiantado espiritualmente. Mudou por uma razão econômica. Mudou porque aconteceu uma coisa chamada Revolução Industrial! Mas este é outro assunto.
Uma das características do impulso sexual é o fato de que requer novidade. Significa que, após algum tempo de vida sexual, tanto o homem quanto a mulher podem começar a sentir atração por pessoas diferentes de seu par. É natural do instinto e, portanto, não é patológico. Não pode e não deve ser mal avaliado. É como alguém que resolve fazer regime por motivo de saúde ou por estética. A decisão de entrar na dieta não anula a fome, não faz com que a pessoa não sinta vontade de comer.
Da mesma forma a fidelidade conjugal não anula o desejo por outrem. Acontece que em nossa cultura os casais fazem um contrato de fidelidade, não por escrito e nem, ao menos, verbalizado, mas elaboram uma expectativa de ambos que sejam fiéis, isto é, sexualmente exclusivos.
Mas, ao cumprirem o contrato frustram o instinto e entram em conflito. Por que, então, persiste a fidelidade? Pelas compensações que existem: - o prazer de ver o outro feliz; - o prazer de estar de acordo com os próprios princípios; - a fidelidade que recebe em troca; - a sensação de estar construindo um vínculo sólido e prazeroso; - a suposição de estar de acordo e agradando os bons espíritos assistentes, etc.
Mas, com tudo isso, ainda vão sentir desejo extraconjugal. E, se não se inculpam pela fome durante um regime, também não devem censurar-se por causa do desejo. Fidelidade não é obrigação, é escolha. Pode ser a causa de muita satisfação, mas também pode produzir muita frustração.Um autor comparou, pitorescamente, a fidelidade a algo menos estimulante do que uma salada de chuchu temperada com água.
No Brasil a prática sexual tem sido feita dos dois modos possíveis, o legal e o ilegal ou dentro do casamento, com a aprovação e beneplácito de todos ou fora dele, com a desaprovação, a censura e a condenação geral. Este sistema facilita a entronização da hipocrisia, pois, os mesmos que condenam são, muitas vezes, os próprios participantes ocultos da infração.
O adultério pode ser definido, segundo Millôr Fernandes, como a quebra do contrato vitalício, civil ou religioso, com substituição de sócio, sem aviso prévio. Além de curiosa essa interpretação é bem verdadeira. Haveria apenas uma pequena restrição à substituição de sócio. O que mais se vê não é isso e, sim, uma variante de utilização de sócio.
Eu próprio costumo conceituar o adultério como uma quebra do contrato de exclusividade sexual, porque o sócio indisciplinado, quando não descoberto, continua atuando na empresa como se nada houvesse ocorrido de anormal.
Quando descoberto e penalizado, costuma adotar vários tipos de medidas defensivas: - defesa com negação absoluta e acusação de excesso de desconfiança; defesa sem negação da ocorrência, mas com denúncia de insuficiência, defeito ou problema por parte do outro sócio; defesa com aceitação da crítica e auto-acusação de desvalor e inferioridade; defesa com acusação de que o casamento acabou e que é melhor a separação.
Na verdade, o que o parceiro lesado pretende não é exatamente punir o culpado mas, constantemente, é conseguir uma garantia de que aquilo nunca mais irá acontecer. Quase todas as mulheres, quando nesta situação, são capazes de perdoar e deixar o problema no esquecimento, se puderem ter certeza de encerramento do episódio. Já os homens, auto-havidos como machões, cultivadores de grande orgulho sexual, não conseguem pensar assim e, freqüentemente, partem para uma retaliação, punindo a mulher com agressão física ou com humilhações mil, quando não com uma separação ou até com assassinato.
Comparando estes dos casos e adotando aquela tese espírita de que "quem pode mais cede mais", podemos concluir sobre que é mais adiantado espiritualmente.
É importante considerar que o adultério masculino é muito mais freqüente do que o feminino, talvez até, por uma questão cultural. Desde criança o menino é criado com a idéia de que há uma grande honra em ser macho, agressor, violentador. A conquista para ele é como um troféu - quanto mais difícil, quanto mais proibida e quanto mais numerosa, mais valiosa e admirada. Com isso em mente, desde a infância, o pobre do adulto não poderá, depois, ser tão inculpado, quando praticar um acontecimento para o qual foi tão bem preparado.
Já com a menina é diferente: desde a infância ela recebeu uma instrução para ser virtuosa, honesta. Daí conseguir, diante de uma tentação, ter mais resistência. Isso é falado sem negar-se o valor real do indivíduo espiritual cujo sexo é apenas uma circunstância reencarnatória, considerando que esta virtuosa mulher, de hoje, pode ter sido homem na última existência.
Um dos temas preferidos para justificar-se uma atração fora do casamento é o de se haver encontrado a alma gêmea - uma pessoa de subido valor, alguém de que se estava na expectativa desde a juventude e que já se pensava não existir mais. Seria o afeto idealizado que cada pessoa, normalmente, constrói na existência. Os menos informados em Doutrina Espírita dizem que esta pessoa é a sua alma gêmea ou sua metade eterna e que ambos se estavam buscando com empenho e persistência até se encontrarem e que, daí para frente, seguiriam juntos para todo o sempre, completando-se infinitamente. Em O Livro dos Espíritos Kardec já recusa esta idéia e coloca por terra a tese das almas gêmeas. O que pode ser admitido é que, com o crescimento espiritual as pessoas vão construindo as suas afinidades e ampliando sua capacidade de amar. Na condição de espírito superior teremos as entidades se comportando com tanta afeição e aperfeiçoamento que podem ser tidas como verdadeiras almas gêmeas, irmanadas e felizes na compostura de suas ações benfeitoras.
Na realidade evolutiva de nosso planeta não encontraremos afeições muito profundas que possam sequer lembrar as almas gêmeas. Existe, sim, uma afeição do passado que, constantemente, costuma aparecer no caminho, podendo gerar dificuldades, considerando a nossa baixa resistência à tentação. A este respeito o espírito Cornélio Pires, no livro Retratos da Vida, lança uma série de avisos provisores: "Se uma afeição de outras vidas / Vem, de novo, ao nosso olhar, / A situação em que esteja / É uma lei a respeitar." - "Se você gosta de alguém, / Mas já não está sozinho, / Cultive o amor dos irmãos, / Não complique o seu caminho." - "Em toda parte do mundo, / Se a mulher larga o dever, / Deserções, crimes, suicídios, / São fáceis de aparecer." - "O triângulo afetivo / Nunca se forma a contento, E, termina, sempre, na vida, / Em trio de sofrimento" - "Cumpra o dever que abraçou, / Alegre, calmo, sereno, / Pois, sexo com remorso / É melado com veneno." - "Recorde o antigo ditado, / De valor singelo e raro, / Quem a paca cara compra / Pagará a paca caro."
O que se divulga e se defende no Espiritismo é que a pessoa saiba, correta e conscientemente, o que está fazendo com a sua vida. Se souber, tudo bem, pode continuar, seu débito é conhecido e assumido. Não poderá alegar, depois, nenhuma ignorância. Mas, se não estiver bem certa do que faz, será bom aprender.
Falando pela maioria, as pessoas não suportam o adultério e procuram sempre tomar providências punitivas. Só que estas são, constantemente, estapafúrdias e contraproducentes. O que mais conseguem com o revide é lançar o seu cônjuge nos braços de outra pessoa. Seria muito importante, pela própria economia de dor e de saúde, que estes cônjuges soubessem agir com acerto e acreditassem que poderiam conseguir melhor resultado usando um outro procedimento - a tolerância evangélica, lembrar que um erro não justifica outro e, então, deixar o engano havido inteiramente com a outra pessoa.
Nós não precisamos sofrer porque alguém quis nos abandonar. Afinal, todos têm o direito de fazes suas escolhas, mesmo que estas não recaiam sobre nós.
Pensando bem, só nos pode interessar um amor que nos seja dado espontaneamente e, nunca, um obrigatório. Aprendamos a abençoar e deixemos o afeto seguir o seu caminho. É claro que isso não é muito fácil de conseguir, considerando o nosso condicionamento antigo, mas pode ser obtido, devendo ser tentado. O primeiro passo é aderir à nova postura, ter vontade de fazer, acreditar que pode, desejar intensamente. E continuar insistindo, insistindo, sem cansaço. Você consegue.
Para justificar esta posição quero sugerir a mensagem Infidelidade, contida nos livro Pedaços do Cotidiano, do espírito Silveira Sampaio, onde temos um belíssimo exemplo de procedimento feminino. Evidentemente existem pessoas não espíritas dotadas de consciência espírita, assim como existem espíritas sem ela. O mais comum, todavia, é encontrá-la entre os espíritas porque o Espiritismo trabalha muito as consciências das pessoas (Francisco Cândido Xavier Jornal - Consciência Espírita / Cornélio Pires).


terça-feira, 22 de setembro de 2020

A TRISTEZA DOS ORIXÁS

Foi, não há muito tempo atrás, que essa história aconteceu. Contada aqui de uma forma romanceada, mas que traz em sua essência, uma verdadeira mensagem para os umbandistas…

Ela começa em uma noite escura e assustadora, daquelas de arrepiar os pelos do corpo. Realmente o Sol tinha se escondido nesse dia, e a Lua, tímida, teimava em não iluminar com seus encantadores raios, brilhosos como fios de prata, a morada dos Orixás.

Nessa estranha noite, Ogum, o Orixá das “guerras”, saiu do alto ponto onde guarda todos os caminhos e dirigiu-se ao mar. Lá chegando, as sereias começaram a cantar e os seres aquáticos agitaram-se. Todos adoravam Ogum, ele era tão forte e corajoso.
Iemanjá que tem nele um filho querido, logo abriu um sorriso, aqueles de mãe “coruja” quando revê um filho que há tempos partiu de sua casa, mas nunca de sua eterna morada dentro do coração:

- Ah Ogum, que saudade, já faz tanto tempo! Você podia vir visitar mais vezes sua mãe, não é mesmo? – ralhou Iemanjá, com aquele tom típico de contrariedade.
- Desculpe, sabe, ando meio ocupado – Respondeu um triste Ogum.
- Mas, o que aconteceu? Sinto que estás triste.
- É, vim até aqui para “desabafar” com você “mãinha”. Estou cansado! Estou cansado de muitas coisas que os encarnados fazem em meu nome. Estou cansado com o que eles fazem com a “espada da Lei” que julgam carregar. Estou cansado de tanta demanda. Estou muito mais cansado das “supostas” demandas, que apenas existem dentro do íntimo de cada um deles… Estou cansado…

Ogum retirou seu elmo, e por de trás de seu bonito capacete, um rosto belo e de traços fortes pôde ser visto. Ele chorava. Chorava uma dor que carregava há tempos. Chorava por ser tão mal compreendido pelos filhos de Umbanda.

Chorava por ninguém entender, que se ele era daquele jeito, protetor e austero, era porque em seu peito a chama da compaixão brilhava. E, se existe um Orixá leal, fiel e companheiro, esse Orixá é Ogum. Ele daria a própria Vida, por cada pessoa da humanidade, não apenas pelos filhos de fé. Não! Ogum amava a humanidade, amava a Vida.

Mas infelizmente suas atribuições não eram realmente entendidas. As pessoas não viam em sua espada, a força que corta as trevas do ego, e logo a transformavam em um instrumento de guerra. Não viam nele a potência e a força de vencer os abismos profundos, que criam verdadeiros vales de trevas na alma de todos. Não viam em sua lança, a direção que aponta para o autoconhecimento, para iluminação interna e eterna.
Não! Infelizmente ele era entendido como o “Orixá da Guerra”, um homem impiedoso que se utilizava de sua espada para resolver qualquer situação. E logo, inspirados por isso, lá iam os filhos de fé esquecer-se dos trabalhos de assistência a espíritos sofredores, a almas perdidas entre mundos, aos trabalhos de cura, esqueciam-se do amor e da compaixão, sentimentos básicos em qualquer trabalho espiritual, para apenas realizaram “quebras e cortes” de demandas, muitas das quais nem mesmo existem, ou quando existem, muitas vezes são apenas reflexos do próprio estado de espírito de cada um. E mais, normalmente, tudo isso se torna uma guerra de vaidade, um show “pirotécnico” de forças ocultas. Muita “espada”, muito “tridente”, muitas “armas”, pouco coração, pensamento elevado e crescimento espiritual.

Isso magoava Ogum. Como magoava:

- Ah, filhos de Umbanda, por que vocês esquecem que Umbanda é pura e simplesmente amor e caridade? A minha espada sempre protege o justo, o correto, aquele que trabalha pela luz, fiando seu coração em Olorum. Por que esquecem que a Espada da Lei só pode ser manuseada pela mão direita do amor, insistindo em empunhá-la com a mão esquerda da soberbia, do poder transitório, da ira, da ilusão, transformando-a em apenas mais uma espada semeadora de tormentos e destruição.

Então, Ogum começou a retirar sua armadura, que representava a proteção e firmeza no caminho espiritual que esse Orixá traz para nossa vida. E totalmente nu ficou frente à Iemanjá. Cravou sua espada no solo. Não queria mais lutar, não daquele jeito. Estava cansado…

Logo um estrondo foi ouvido e o querido, mas também temido Tatá Omulu apareceu. E por incrível que pareça o mesmo aconteceu. Ele não aguentava mais ser visto como uma divindade da peste e da magia negativa. Não entendia, como ele, o guardião da Vida podia ser invocado para atentar contra Ela. Magoava-se por sua alfange da morte, que é o princípio que a tudo destrói, para que então a mudança e a renovação aconteçam ser tão temida e mal compreendida pelos homens.

Ele também deixou sua alfange aos pés de Iemanjá, e retirou seu manto escuro como a noite. Logo se via o mais lindo dos Orixás, aquele que usa uma cobertura para não cegar os seus filhos com a imensa luz de amor e paz que se irradia de todo seu ser. A luz que cura, a luz que pacifica aquela que recolhe todas as almas que se perderam na senda do Criador. Infelizmente os filhos de fé esquecem-se disso…

Mas o mais incrível estava por acontecer. Uma tempestade começou a desabar aumentando ainda mais o aspecto incrível e tenebroso daquela estranha noite. E todos os outros Orixás começaram a aparecer, para logo, começarem também a despir suas vestimentas sagradas, além de deixarem ao pé de Iemanjá suas armas e ferramentas simbólicas.

Faziam isso em respeito a Ogum e Omulu, dois Orixás muito mal compreendidos pelos umbandistas. Faziam isso por si próprios. Iansã queria que as pessoas entendessem que seus ventos sagrados são o sopro de Olorum, que espalha as sementes de luz do seu amor. Oxossi queria ser reverenciado como aquele que, com flechas douradas de conhecimento, rasga as trevas da ignorância. Egunitá apagou seu fogo encantador, afinal, ninguém se lembrava da chama que intensifica a fé e a espiritualidade. Apenas daquele que devora e destrói. Os vícios dos outros, é claro.

Um a um, todos foram despindo-se e pensando quanto os filhos de Umbanda compreendiam erroneamente os Orixás.

Iemanjá, totalmente surpresa e sem reação, não sabia o que fazer. Foi quando uma irônica gargalhada cortou o ambiente. Era Exu. O controvertido Orixá das encruzilhadas, o mensageiro, o guardião, também chegava para a reunião, acompanhado de Pombagira, sua companheira eterna de jornada.

Mas os dois estavam muito diferentes de como normalmente apresentam-se. Andavam curvados, como que segurando um grande peso nas costas. Tinham na face, a expressão do cansaço. Mas, mesmo assim, gargalhavam muito. Eles nunca perdiam o senso de humor!

E os dois também repetiram aquilo que todos os Orixás foram fazer na casa de Iemanjá. Despiram-se de tudo. Exu e Pombagira, sem dúvida, eram os que mais razões tinham de ali estarem. Inúmeros eram os absurdos cometidos por encarnados em nome deles. Sem contar o preconceito, que o próprio umbandista ajudou a criar, dentro da sociedade, associando-o a figura do Diabo:

- Hahaha, lamentável essa situação, hahaha, lamentável! – Exu chorava, mas Exu continuava a sorrir. Essa era a natureza desse querido Orixá.
Iemanjá estava desesperada! Estavam todos lá, pedindo a ela um conforto. Mas nem mesmo a encantadora Rainha do Mar sabia o que fazer:
Espere! – pensou Iemanjá! – Oxalá, Oxalá não está aqui! Ele com certeza saberá como resolver essa situação.

E logo Iemanjá colocou-se em oração, pedindo a presença daquele que é o Rei entre os Orixás. Oxalá apresentou-se na frente de todos. Trazia seu opaxorô, o cajado que sustenta o mundo. Cravou ele na Terra, ao lado da espada de Ogum. Também despiu-se de sua roupa sagrada, pra igualar-se a todos, e sua voz ecoou pelos quatro cantos do Orun:

- Olorum manda uma mensagem a todos vocês meus irmãos queridos! Ele diz para que não desanimem, pois, se poucos realmente os compreendem, aqueles que assim o fazem, não medem esforços para disseminar essas verdades divinas. Fechem os olhos e vejam, que mesmo com muita tolice e bobagem relacionada e feita em nossos nomes, muita luz e amor também está sendo semeado, regado e colhido, por mãos de sérios e puros trabalhadores nesse às vezes triste, mas abençoado planeta Terra. Esses verdadeiros filhos de fé que lutam por uma Umbanda séria, sem os absurdos que por aí acontecem. Esses que muito além de “apenas” prestarem o socorro espiritual, plantam as sementes do amor dentro do coração de milhares de pessoas. Esses que passam por cima das dificuldades materiais, e das pressões espirituais, realizando um trabalho magnífico, atendendo milhares na matéria, mas também, milhões no astral, construindo verdadeiras “bases de luz” na crosta, onde a espiritualidade e religiosidade verdadeira irão manifestar-se. Esses que realmente nos compreendem e buscam-nos dentro do coração espiritual, pois é lá que o verdadeiro Orun reside e existe. Esses incríveis filhos de umbanda, que não colocam as responsabilidades da vida deles em nossas costas, mas sim, entendem que tudo depende exclusivamente deles mesmos. Esses fantásticos trabalhadores anônimos, soltos pelo Brasil, que honram e enchem a Umbanda de alegria, fazendo a filhinha mais nova de Olorum brilhar e sorrir…

Quando Oxalá calou-se os Orixás estavam mudados. Todos eles tinham suas esperanças recuperadas, realmente viram que se poucos os compreendiam grande era o trabalho que estava sendo realizado, e talvez, daqui algum tempo, muitos outros se juntariam nesse ideal. E aquilo os alegrou tanto que todos começaram a assumir suas verdadeiras formas, que são de luzes fulgurantes e indescritíveis. E lá, do plano celeste, brilharam e derramaram-se em amor e compaixão pela humanidade.

Em Aruanda, os caboclos, pretos-velhos e crianças, o mesmo fizeram. Largaram tudo, também despiram-se e manifestaram sua essência de luz, sua humildade e sabedoria comungando a benção dos Orixás.

Na Terra, baianos, marinheiros, boiadeiros, ciganos e todos os povos de Umbanda, sorriam. Aquelas luzes que vinham lá do alto os saudavam e abençoavam seus abnegados e difíceis trabalhos. Uma alegria e bem – aventurança incríveis invadiram seus corações. Largaram as armas. Apenas sorriam e abraçavam – se. O alto os abençoava…

Mas, uma ação dos Orixás nunca fica limitada, pois é divina, alcançando assim, a tudo e a todos. E lá no baixo astral, aqueles guardiões e guardiãs da lei nas trevas também foram alcançados pelas luzes Deles, os Senhores do Alto. Largaram as armas, as capas, e lavaram suas sofridas almas com aquele banho de luz. Lavaram seus corações, magoados por tanta tolice dita e cometida em nome deles. Exus e Pombagiras, naquele dia foram tocados pelo amor dos Orixás, e com certeza, aquilo daria força para mais muitos milênios de lutas insaciáveis pela Luz.

Miríades de espíritos foram retirados do baixo-astral, e pela vibração dos Orixás puderam ser encaminhados novamente à senda que leva ao Criador. E na matéria toda a humanidade foi abençoada. Aos tolos que pensam que Orixás pertencem a uma única religião ou a um povo e tradição, um alerta. Os Orixás amam a humanidade inteira, e por todos olham carinhosamente.

Aquela noite que tinha tudo para ser uma das mais terríveis de todos os tempos, tornou-se benção na vida de todos. Do alto ao embaixo, da esquerda até a direita, as egrégoras de paz e luz deram as mãos e comungaram daquele presente celeste, vindo diretamente do Orun, a morada celestial dos Orixás.

Vocês, filhos de Umbanda, pensem bem! Não transformem a Umbanda em um campo de guerra, onde os Orixás são vistos como “armas” para vocês acertarem suas contas terrenas. Muito menos esqueçam do amor e compaixão, chaves de acesso ao mistério de qualquer um deles. Umbanda é simples, é puro sentimento, alegria e razão. Lembrem-se disso.

E quanto a todos aqueles, que lutam por uma Umbanda séria, esclarecida e verdadeira, independente da linha seguida, lembrem-se das palavras de Oxalá ditas linhas acima.
Não desanimem com aqueles que vos criticam, não fraquejem por aqueles que não tem olhos para ver o brilho da verdadeira espiritualidade.

Lembrem-se que vocês também inspiram e enchem os Orixás de alegria e esperança. A todos, que lutam pela Umbanda nessa Terra de Orixás, esse texto é dedicado. Honremo-los. Sejam de luz, assim como Eles!




domingo, 20 de setembro de 2020

INTOLERÂNCIA RELIGIOSA AINDA É DESAFIO A CONVIVÊNCIA DEMOCRÁTICA

O direito de criticar dogmas e encaminhamentos é assegurado como liberdade de expressão, mas atitudes agressivas, ofensas e tratamento diferenciado a alguém em função de crença ou de não ter religião é crime inafiançável e imprescritível.

A intolerância religiosa é um conjunto de ideologias e atitudes ofensivas a crenças e práticas religiosas ou mesmo a quem não segue uma religião. É um crime de ódio que fere a liberdade e a dignidade humana.

O agressor costuma usar palavras ofensivas ao se referir ao grupo religioso atacado e aos elementos, divindades e hábitos da religião. Há casos em que o agressor desmoraliza símbolos religiosos, destruindo imagens, roupas e objetos ritualísticos. Em situações extremas, a intolerância religiosa pode se tornar uma perseguição.

Crítica não é o mesmo que intolerância. O direito de criticar encaminhamentos e dogmas de uma religião, desde que isso seja feito sem desrespeito ou ódio, é assegurado pelas liberdades de opinião e expressão. Mas, no acesso ao trabalho, à escola, à moradia, a órgãos públicos ou privados, não se admite tratamento diferente em função da crença ou religião. Isso também se aplica a transporte público, estabelecimentos comerciais e lugares públicos, como bancos, hospitais e restaurantes.

Ainda assim, o problema é frequente no país. Algumas denúncias se referem à destruição de imagens de orixás do candomblé ou de santos católicos. Ficou famoso no Brasil o então pastor da Igreja Universal do Reino de Deus Sérgio Von Helder, que, em 1995, chutou uma imagem de Nossa Senhora Aparecida em rede nacional de TV. Há também casos de testemunhas de Jeová que são processadas por não aceitarem que parentes recebam doações de sangue, de adventistas do Sétimo Dia a quem não são dadas alternativas quando não trabalham ou não fazem prova escolar no sábado e de medidas judiciais que impedem sacrifício de animais em ritos religiosos.

Em janeiro, a TV Bandeirantes foi condenada pela Justiça Federal de São Paulo por desrespeito à liberdade de crenças porque, em julho de 2010, exibiu comentários do apresentador José Luiz Datena relacionando um crime bárbaro à “ausência de Deus”. “Um sujeito que é ateu não tem limites. É por isso que a gente vê esses crimes aí”, afirmou o apresentador. A emissora foi condenada a exibir em rede nacional, no mesmo programa, esclarecimentos sobre diversidade religiosa e liberdade de crença.
Recentemente têm provocado reações algumas ­declarações do presidente da Comissão de Direitos Humanos eMinorias da Câmara, Marco Feliciano (PSC-SP). Pastor evangélico, ele escreveu no Twitter que africanos sãodescendentes de um “ancestral amaldiçoado por Noé” e que sobre a África repousam maldições como paganismo, misérias, doenças e fome. A presidente da Comissão de Direitos Humanos (CDH) do Senado, senadora Ana Rita (PT-ES), se manifestou a respeito.

— São declarações e atitudes que instigam o preconceito, o racismo, a homofobia e a intolerância. Todas absolutamente incompatíveis e inadequadas para a finalidade do Legislativo — disse.
A quantidade de denúncias de intolerância religiosa recebidas pelo Disque 100 da Secretaria de Direitos Humanos da Presidência da República cresceu mais de sete vezes em 2012 em relação a 2011, um aumento de 626%. A própria secretaria destaca, no entanto, que o salto de 15 para 109 casos registrados no período não representa a real dimensão do problema, porque o serviço telefônico gratuito da secretaria não possui um módulo específico para receber esse tipo de queixa. Ou seja, muitos casos não chegam ao conhecimento do poder público. A maior parte das denúncias é apresentada às polícias ou órgãos estaduais de proteção dos direitos humanos e não há nenhuma instituição responsável por contabilizar os dados nacionais.

A Secretaria de Políticas de Promoção da Igualdade Racial da Presidência da República (Seppir) também não possui dados específicos sobre violações ao direito de livre crença religiosa. No entanto, o ouvidor do órgão, Carlos Alberto Silva Junior, diz que o número de denúncias de atos violentos contra povos tradicionais (comunidades ciganas, quilombolas, indígenas e os professantes das religiões e cultos de matriz africana) relatadas à Seppir também cresceu entre 2011 e 2012.

Muitas agressões são cometidas pela internet. Segundo a associação ­SaferNet, em 2012, a Central Nacional de Denúncias de Crimes Cibernéticos ­ recebeu 494 ­ denúncias de intolerância religiosa praticadas em perfis do Facebook. O mundo virtual reflete a situação do mundo real. De 2006 a 2012, foram 247.554 denúncias ­anônimas de páginas e perfis em redes sociais que continham teor de intolerância religiosa.

A tendência é de queda: de 2.430 páginas em 2006 para 1.453 em 2012. Mas a tendência não significa que o número de casos reportados de intolerância religiosa tenha diminuído. “Uma das razões é a classificação feita pelo usuário. Mesmo páginas reportadas por possuir conteúdo racista, antissemita ou homofóbico têm, também, conteúdo referente à intolerância religiosa”, explica Thiago Tavares, coordenador da central.

Os dados foram ­divulgados pela Agência Brasil este ano no Dia Nacional de Combate à Intolerância Religiosa, 21 de janeiro. A data foi instituída em 2007 pela Lei 11.635, em homenagem a Gildásia dos Santos e Santos, a Mãe Gilda, do terreiro Axé ­Abassá de Ogum, de Salvador. A religiosa do candomblé sofreu um enfarte após ver sua foto no jornal ­evangélico Folha Universal, com a manchete “Macumbeiros charlatões lesam o bolso e a vida dos clientes”. A Igreja Universal do Reino de Deus foi condenada a indenizar os herdeiros da sacerdotisa.

A ministra da Seppir, Luiza Bairros, disse, nas comemorações de 21 de janeiro, que os ataques a religiões de matriz africana chegaram a um nível insuportável. “O pior não é apenas o grande número, mas a gravidade dos casos. São agressões físicas, ameaças de depredação de casas e comunidades. Não se trata apenas de uma ­disputa religiosa, mas também de uma disputa por valores civilizatórios”, disse.
Na ocasião, a Secretaria de Direitos Humanos da Presidência da República lançou um comitê de combate à intolerância religiosa. A iniciativa pretende promover o direito ao livre exercício das práticas religiosas e auxiliar na elaboração de políticas de afirmação da liberdade religiosa, do respeito à diversidade de culto e da opção de não ter religião.

O comitê terá 20 integrantes, sendo 15 deles representantes da sociedade civil com atuação na promoção da diversidade religiosa. Ainda sem data definida para começar efetivamente a funcionar, o comitê depende de um edital que selecionará os integrantes.

O Brasil é um país laico. Isso significa que não há uma religião oficial e que o Estado deve manter-se imparcial no tocante às religiões. Porém, sendo um país de maioria cristã, práticas religiosas africanas foram duramente perseguidas pelas delegacias de costumes até a década de 1960.
No período colonial, as leis puniam com penas corporais as pessoas que discordassem da religião imposta pelos escravizadores. Decreto de 1832 obrigava os escravos a se converterem à religião oficial. Um indivíduo acusado de feitiçaria era castigado com pena de morte. Com a proclamação da República, foi abolida a regra da religião oficial, mas o primeiro Código Penal republicano tratava como crimes o espiritismo e o curandeirismo.

A lei penal atual, aprovada em 1940, manteve os crimes de charlatanismo e curandeirismo.
Até 1976, havia uma lei na Bahia que obrigava os templos das religiões de origem africana a se cadastrarem na delegacia de polícia mais próxima. Na Paraíba, uma lei aprovada em 1966 obrigava sacerdotes e sacerdotisas dessas religiões a se submeterem a exame de sanidade mental, por meio de laudo psiquiátrico.

Muitas mudanças ocorreram até 1988, quando a Constituição federal passou a garantir o tratamento igualitário a todos os seres humanos, quaisquer que sejam suas crenças.
O texto constitucional estabelece que a liberdade de crença é inviolável, sendo assegurado o livre exercício dos cultos religiosos. Determina ainda que os locais de culto e as liturgias sejam protegidos por lei.

Já a Lei 9.459, de 1997, considera crime a prática de discriminação ou preconceito contra religiões. Ninguém pode ser discriminado em razão de credo religioso. O crime de discriminação religiosa é inafiançável (o acusado não pode pagar fiança para responder em liberdade) e imprescritível (o acusado pode ser punido a qualquer tempo).

Uma pesquisa mundial feita em 2009 e 2010 indicou o aumento da intolerância religiosa. Segundo o Instituto Pew Research Center, com sede nos Estados Unidos, 5,2 bilhões de pessoas (75% da população mundial ) vivem em locais com restrições a crenças.

No período, passou de 31% para 37% a proporção de países com nível elevado ou muito alto de restrições. Entre os países com as maiores restrições governamentais (leis, políticas e ações para limitar práticas religiosas), estavam Egito, Indonésia, Arábia Saudita, Afeganistão, China, Rússia e outros que somaram 6,6 pontos ou mais em um índice de máximo 10. Os que mais sofrem são os que pertencem a minorias religiosas. O Brasil aparece, junto com Austrália, Japão e Argentina, em nível baixo, entre os países com 0 a 2,3 pontos, o que denota bom nível de liberdade religiosa.

Mesmo nos países com nível moderado ou baixo de restrições, houve aumento da intolerância. Na Suíça, foi proibida a construção de novos minaretes (torres em mesquitas). O aumento dessas restrições foi atribuído a fatores como crescimento de crimes e violência motivada por ódio religioso.

Entre as propostas em tramitação no Congresso para combater a intolerância religiosa, está o PLC 160/2009, que dispõe sobre as garantias e os direitos fundamentais ao livre exercício da crença, à proteção aos locais de cultos religiosos e liturgias, e à liberdade de ensino religioso, buscando regulamentar a Constituição. O projeto, do deputado George Hilton (PRB-MG), está na Comissão de Assuntos Sociais do Senado (CAS). O relator, Eduardo Suplicy (PT-SP), propôs uma audiência, ainda não agendada, para debater o texto.

O assunto vem sendo discutido também no âmbito da proposta de reforma do Código Penal, tema de comissão especial do Senado. Um grupo de juristas preparou o anteprojeto, posteriormente apresentado como projeto (PLS 236/2012) por José Sarney (PMDB-AP). A intolerância religiosa está relacionada a assuntos do Código, como os crimes contra os direitos humanos e os que podem ser praticados pela internet.






O QUE É QUIMBANDA OU KIBANDA

A Quimbanda ou Kimbanda não é simplesmente mais uma das linhas existentes dentro dos cultos afro-brasileiros, suas influências não são somente Bantu, Nagô e Yorubá, também abrangem em larga escala vários aspectos da Religião Indígena, Católica,  o Espiritismo moderno, a alquimia, o estudo da natureza fundamental da realidade e Correntes Orientais.

É importante lembrar que o sincretismo entre Exu e o Diabo existe, salvaguardando várias confusões ao verificar que atualmente muitas pessoas pensam que a Quimbanda é um culto satanista, tendo aquele sentimento de dualidade aonde as pessoas vêem o bem e o mal em uma luta eterna confundindo a figura do Diabo com tudo de ruim sem lembrar que Ele já teve seu martírio e foi vencido por Deus que é Quem determina o espectro e a liberdade de suas ações desde o princípio dos tempos.

O conceito de polaridades, positiva e negativa não se encaixa no plano material, aonde não quer dizer o mesmo que atitudes, positiva e negativa, principalmente tratando-se de energia pura. É como disse o sábio preto velho Pai Maneco, falando da importância dos Exus, apontou uma lâmpada e disse: “Aquela é resultado do perfeito encontro entre o positivo e o negativo”.

É bom deixar claro também que o Exu da Quimbanda não é o mesmo Exu do Candomblé aonde ele é um Orixá menor da cultura Yorubá, o Exu da Quimbanda é geralmente um Egum sendo que na maioria dos casos é a Alma de alguém que pertenceu ao culto, conscientemente ou não, e agora trabalha como mensageiro dos Orixás, como Exu, mais ou menos o mesmo que ocorre em outras Linhas e Bandas dedicadas a algum Orixá, por exemplo como na Linha de Ogum trabalham Espíritos de Índios e Negros que em vida foram guerreiros, usaram espada e de alguma forma pertenceram ao culto, como sabemos que Seu Ogum Sete Espadas e Ogum Sete Ponteiras do Mar não são o mesmo que o Orixá maior Ogum.

Os Espíritos, Exus, com os quais estamos tratando tiveram em sua maioria encarnações aqui na Terra em finais do século XIX e princípios a meados do século XX, daí vêm as suas vestimentas e a forma de seu comportamento.

Ainda na questão do sincretismo é muito importante frisar que os autores que até hoje discorreram sobre o assunto usaram um organograma básico para apresentar o que muitos pensam ser a verdadeira organização hierárquica da Quimbanda mas é somente a cópia de um livro antigo de evocação e cultos diabólicos da cultura ocidental que fala sobre os demônios, suas hierarquias e poderes, o “Grimorium Verum”.

Considerando que este livro já existia muito antes do descobrimento do Brasil e que a Quimbanda como conhecemos é uma religião brasileira afirmo que é errado basear-se neste organograma como base para estudarmos este assunto porém não devemos esquecê-lo pois os Exus, como nós, tiveram já várias encarnações, alguns inclusive viveram nos primórdios da nossa civilização como por exemplo Exu Tata Caveira que foi um Sacerdote no Egito antigo ou inda mais longe Exu Caveira que a 30.000 anos atrás era um nômade bruxo e curandeiro, outrora estes Espíritos já trabalharam no plano astral nesta mesma Linha e alguns até ajudaram a escrever o “Grimorium”.

A Umbanda não vive sem a Quimbanda, como a árvore não vive sem a copa ou sem a raiz, então com base em estudos e prática na Quimbanda podemos afirmar que o culto como o conhecemos é o mesmo praticado na maior parte dos Terreiros de Umbanda do Brasil que para obterem equilíbrio em seus trabalhos cultuam as Sete Linhas da Umbanda e as Sete Linhas da Quimbanda, desta forma podemos discorrer aqui sobre o assunto de uma forma mais ampla e que leve a implementar os atuais conhecimentos sobre os Exus.

Quimbanda não é sinônimo de satanismo e de jeito nenhum pode ser ligada a obscuridade, é apenas um termo usado no Espiritismo é uma forma de estar na vanguarda do Espiritismo e da magia trabalhando a espiritualidade como um todo, uma ferramenta destinada a evolução espiritual através do poder e dos conselhos destes nossos guias protetores, os Exus, que tanto nos auxiliam nas horas de aflição.

Embora não devamos julgar sabemos sim que lamentavelmente existem pessoas inescrupulosas e de má índole que usam a magia da Quimbanda para a prática do mal mas isto é culpa exclusiva do homem e não das entidades, não podemos culpar o veneno por matar e sim aquele que o utiliza como arma, não podemos culpar o Exu por fazer o que lhe é pedido mas sim quem se aproveitou deste contato espiritual para pedir que praticasse o mal. Nunca podemos esquecer da imutável Lei do Karma, tudo o que você fizer volta pra você.

Existe muita confusão a respeito do termo Macumba e acho importante esclarecer isto, este nome deriva do Banto “ma-quiumba” que quer dizer espíritos da noite, também este nome era usado no sul do país para definir mulheres negras no tempo da escravidão, por isso o uso do nome ainda hoje é usado de forma preconceituosa por pessoas ignorantes a respeito do assunto.

A Macumba pelo que sabemos é o mais primitivo culto sincretista do Brasil e originou-se na região sul dada a sua maior predominância da nação Banto, é desta nação que descendem a maior parte dos cultos afro-brasileiros com influências da Igreja Católica, Indígenas e das nações do Congo, Angola e Nagô.

A principal razão do culto ser denominado como Macumba foi justamente por motivo de os rituais serem realizados à noite em razão de os trabalhos serem feitos com Eguns e porque durante o dia os negros trabalhavam sem descanso, vem daí a interpretação errada do ritual pelos leigos, os negros que praticavam a Maquiumba ou como ficou conhecida Macumba eram geralmente menosprezados, perjuriados e mal interpretados pelos que os escravizaram em razão de sua fé.

A Igreja também condenava estes cultos com influências indígenas ou africanas dizendo que praticavam beberagens e até orgias. É verdade que as entidades bebem e até pitam e que as curimbas, danças, as vezes são bastante sensuais mas venhamos e convenhamos que entre isto e orgias e beberagem há uma grande diferença.

Quando os grupos de nações começaram a procurar e a valorizar mais a sua natureza e identidade cultural é que a Macumba se dividiu, surgiu então o Candomblé de Angola, o Candomblé do Congo, o Candomblé de Caboclo ou dos Encantados e o Catimbó, no final do século XIX surgiu a Macumba Urbana que tinha participação de brancos pobres e descendentes de escravos, finalmente no inicio do século XX surgiram a Umbanda e a Quimbanda com uma forte influência do Espiritismo e com o sincretismo religioso.

A formação da Quimbanda teve uma forte influência dos escravos e índios que sincretizaram Exu com o Diabo por este ser “inimigo dos brancos” e por não aceitarem os Santos Católicos, identificando-se assim mais uma vez com o Diabo. Com o advento da Umbanda começou o trabalho de Quimbanda em Terreiros de Umbanda o que deu sustentação firme aos trabalhos com os, “Compadres”, Exus e assim formatou-se o atual culto da Quimbanda.

Na verdade pode-se dizer que a Quimbanda como a conhecemos atualmente nasceu juntamente com a Umbanda em 15 de novembro de 1908 pois uma Linha completa o outra formando esta força que nos da vida e este reino cheio de luz.

A Quimbanda esta organizada hierarquicamente em sete grandes reinos, as Sete Linhas da Quimbanda, sendo que na Quimbanda também é Oxalá quem manda, o Sr. Omolu é o Rei,  coroado por Oxalá, este delega os poderes aos Exus Chefes de Falange:

1.    Linha das Encruzilhadas: Exu Tiriri
2.    Linha dos Cruzeiros: Exu Meia Noite
3.    Linha das Matas: Exu Arranca Toco
4.    Linha da Calunga Pequena (cemitérios): Exu Caveira
5.    Linha das Almas: Exu Tranca Ruas das Almas
6.    Linha da Lira: Exu Sete Liras
7.   Linha da Calunga Grande (praia): Exu do Lodo

É importante lembrar que quando o Exu, qualquer um Deles, estiver incorporado no Pai de Santo, no dirigente dos trabalhos, Ele esta trabalhando com a Coroa e por este motivo é o Chefe dos trabalhos da Gira de Quimbanda tendo liberdade de movimento entre os Reinos através do contato com os outros Exus presentes no trabalho. Trabalhar com os, “compadres”, Exus requer muito respeito e consideração por parte dos dirigentes, médiuns e consulentes pois são Entidades muito poderosas, de muito Axé.



 

 

 

 

terça-feira, 18 de agosto de 2020

SER MÉDIUM UMBANDISTA

 Ser médium, de forma geral, é uma grande dádiva que nos é concedida por Deus, sempre no sentido do nosso aprimoramento espiritual.

O importante, como afirmam os amigos espirituais, não é ser médium, é ser um bom médium.

Ser um bom médium é, certamente, estar em sintonia o mais perfeitamente possível com os planos do Cristo Jesus na ação de redimir e conduzir as pessoas à uma vivência real da sua existência, que é a de ascender, destruindo a ignorância, mãe da superstição e crendice, para uma vida em conformidade com o Plano de Deus para o ser humano, encontrar-se, encontrando Deus em si, para encontrar a felicidade tão almejada e inata em todos.

Não existe possibilidade de ser um bom médium se não se adota como regras essenciais de sua vivência mediúnica o estudo e a disciplina.

O conhecimento desmitifica o mediunismo, e mostra o quão natural é o processo mediúnico; a disciplina facilita o afastamento do excesso de animismo e assenta o médium na humildade.

Mediunidade não é fenômeno sobrenatural ou mágico, é o uso natural do aparelho físico do médium, a partir do consentimento do mesmo, para que juntos possam, médium e guia, espalhar a palavra de conforto, ensinamento, e de ajuda através das manipulações energéticas, sempre no sentido de mostrar a grande misericórdia de Deus e a necessidade de reforma íntima, de aprimoramento moral, para se conquistar a real paz e alegria, que é a felicidade almejada, mesmo que inconscientemente.

Ora, se oferecemos o nosso aparelho físico para ser usado pelos amigos desencarnados é preciso que o aparelhemos, para que possa ser hábil e apto às comunicações dos Guias e Mentores.

Ilusão mentirosa pensar que o guia faz tudo sozinho, pois a mediunidade psicofônica (incorporação) é uma mediunidade de efeito intelectual, ou seja, é realizada na intelectualidade do médium, no uso de seu cérebro físico como receptor, decodificador e transmissor das mensagens espirituais.

Não havendo códigos doutrinários, evangélicos, racionais formados pelo conhecimento adquirido, o médium será deficiente na possibilidade de decodificar intelectualmente as mensagens doutrinárias e evangélicas dos Guias e, pior, em se tratando de médium fantasista e supersticioso, essas mensagens serão fonadas cheias de deturpações e vícios supersticiosos de propriedade do medianeiro.

Se o trabalho mediúnico é feito a dois, médium – guia, a contribuição do médium será um fracasso no que concerne ao plano critico de esclarecimento e elevação mental e espiritual, através do mecanismo mediúnico.

Não existe milagre na mediunidade, mas um evento natural de ligação mental entre o medianeiro e o irmão espiritual a se comunicar, seja através da palavra, dos gestos ou das manifestações físicas.

Muitas vezes médiuns verdadeiros, mas atacados de escrúpulos, o que é outro grande erro prejudicial ao desenvolvimento mediúnico, nos falam da sua excessiva preocupação com o famoso e famigerado animismo.

Vejam bem, existe sempre animismo em qualquer tipo de mediunidade, pois o aparelho que está sendo usado é o corpo físico do médium, que está “habitado”, ligado ao espírito do mesmo.

As atuações, ideias etc., do espírito comunicante passam pela vivência, conhecimento e experiência do médium para chegarem ao mundo físico, portanto sempre haverá animismo, ou seja, a presença da “anima”, da alma do médium.

Esse, como diz Ramatis, é um animismo sadio, quando o médium é maduro, consciente da sua responsabilidade e aparelhado com conhecimentos doutrinários e evangélicos que afastem da sua memória intelectiva as sombras da ignorância, das crendices e superstições, que podem até fascinar as pessoas sem conhecimento e maturidade espiritual, mas não ajuda, não eleva, não conduz à libertação, razão da mediunidade nos Planos do Cristo.

Esse seria um animismo pernicioso e ruim.

Voltando a Ramatis, lembramos o seu ensinamento a respeito da mediunidade sem sombras de superstições e ilusões. Ele compara a mediunidade a uma xícara que contém café com leite.

O café é o médium, o leite o guia.

Ocorre a mistura, o café não é mais apenas café e o leite não mais apenas o leite, trata-se de café com leite.

Agora, a maior ou menor quantidade de café ou de leite na xícara, que seria o medianeiro, depende do médium. Da sua seriedade, maturidade, fé, confiança e conhecimentos.

A mediunidade se processa de forma natural quando, nos momentos competentes e nos lugares certos, o guia envolve o perispírito do médium com suas energias mentais e emocionais.

O perispírito do médium, como é natural, projeta esse envolvimento ao Duplo Etérico do medianeiro que, automaticamente, pelas rasuras existentes na sua tela etérica comunica essas energias mentais e emocionais ao corpo físico desse médium, mediunizando-o, ou seja, tornando-o medianeiro, instrumento comunicador das ideias e sentimentos do guia comunicante.

Nada, portanto, de sobrenatural, apenas o exercício, planejado pela espiritualidade, de trabalho conjunto pela caridade, para ajudar na ascensão da humanidade.

Outro fator importantíssimo para a realização da mediunidade com Jesus é a disciplina.

Os guias são espíritos que estão inseridos num processo evolutivo já consciente e irmanados à vivência espiritual da busca de Deus.

São profundamente disciplinados, pois a ordem e o respeito são fatores preponderantes ao bom andamento evolutivo, que afasta a interferência das sombras, onde habitam espíritos indisciplinados, motivados pela ignorância.

Sempre digo que quando há movimentos de indisciplina, desrespeito à hierarquia e à filosofia da Casa onde médium-guia trabalham, não se trata do espírito comunicante e sim da interferência do médium.

Guia não invade o livre arbítrio do médium, não cria desordens, não atrapalha a evolução dos seus aconselhados, não perde tempo com futilidades, mas aproveita todas as oportunidades, quando presentes na mediunidade do encarnado, para doutrinar, ensinar e evangelizar.

Creio ser esse o sintoma prático de uma boa incorporação.

Diz o Pai Tomé que “Umbanda não é teatro e terreiro não é tablado para apresentação de irmãos carentes, desavisados e vaidosos”.

Daí a necessidade da disciplina num Templo Umbandista.

Disciplina que ensina, que ordena e organiza o trabalho religioso de um Templo, que deve ser Igreja onde se ora, Escola onde se ensina e Hospital onde se trata.

Como existir essa bela realidade sem disciplina que organiza e favorece a organização de uma Casa dedicada ao trabalho de caridade com Jesus?

Gosto da frase de André Luiz quando diz: Caridade sem disciplina é perda de tempo.

Médium que não aceita ou não quer se adaptar à disciplina do seu Templo, não está buscando espiritualidade e o intercâmbio sadio com o plano espiritual, mas sim preencher seus problemas carenciais e emocionais com a “religião” que satisfaça aos seus desejos e caprichos.

Trata-se de mais uma máscara do ego, que só plantará mais o indivíduo na superficialidade e sentimentalismo vazio. E isso não é mediunidade com Jesus.

A mediunidade será sempre uma oportunidade dada pela misericórdia divina para que reconquistemos oportunidades perdidas em encarnações passadas, ressarcindo as dívidas contraídas com a Lei Universal pela nossa inércia e preguiça de caminhar com Jesus, nos caminhos da evolução espiritual.

Quantos médiuns continuam a se perderem nos emaranhados da vaidade, do orgulho e da ignorância, pulando de Templo em Templo, sem se estabilizarem em nenhum e sempre culpando esses Templos sem se darem a oportunidade de, humildemente, enxergarem a sua vaidade e orgulho, quando não sua preguiça em se lançar na labuta do estudo, da disciplina e do trabalho.

Lembremo-nos que: “Tolo é aquele que naufragou seus navios duas vezes e continua culpando o mar” (Publio Siro).

Emmanuel dizia a Chico ser necessário para trabalhar com ele de disciplina, disciplina e disciplina.

Pai Ventania diz ser necessário para trabalhar com ele de austeridade, austeridade e austeridade.

Ele entende austeridade como seriedade no comportamento que implica em respeito e acatamento aos preceitos disciplinares contidos no Regimento Interno, respeito e acatamento à hierarquia constituída, respeito e acatamento ao ambiente que deve ser marcado pela religiosidade e fé, na busca da interioridade e crescimento espiritual.

Ele sempre nos alerta dizendo que:

“Todas as atividades num Templo que tenha a marca da espiritualidade, inclusive na Umbanda, devem ser realizadas no espírito de silêncio, seriedade, austeridade, prece e reflexão.

Em todos os aposentos de um Templo Umbandista os médiuns de sua corrente devem agir com esse mesmo espírito, não transformando o hospital, escola e igreja, que deve ser todo o ambiente do Templo, num lugar de conversas, exterioridades e conchavos.

Não transforme nunca o seu Templo num clube de amigos ou local de encontros, na ânsia insana de saciar a carência, ainda imatura, de aceitação e afetividade, o que, sem dúvida, acarretará, mais cedo ou mais tarde, fofocas e conversas fúteis, fáceis de serem aproveitadas pelos irmãos das sombras na sua ânsia de destruir as casas sérias e comprometidas com Jesus e a Alta Espiritualidade.

Cada médium, partícipe da corrente do Templo, deve agir de forma correta em sua posição e comportamento, e assim exigir de seus companheiros comportamento adequado à seriedade e crescimento espiritual que a espiritualidade exige.

Sejam, meus filhos, médiuns austeros e idealistas na construção e conservação do seu Templo espírita, que só será real e concreto se estiver plantado na disciplina, no estudo e no trabalho.

Você é responsável pelo Templo em que militas e, não se esqueça, responderá ante a Lei pela sua atuação e comprometimento com tudo aquilo que fuja do ideal de verdadeira fé, segurança e caridade.

O Templo pertence a Jesus e à Espiritualidade, e devemos estar nele respeitando os seus verdadeiros donos e agindo de acordo com suas orientações de disciplina, piedade, oração e trabalho. (Cab. Ventania de Aruanda).

O trabalho do médium é marcado pelo amor.

Esse amor, para ser real, se expressa através da humildade, esforço e confiança no chamado para o exercício mediúnico e nunca por meio de sentimentalismos e superficialidades de quem ouve, aceita mas, na hora da prática burla essa disciplina ou age como se a mesma não fosse para ele, parece que dá uma amnésia irresponsável que, com certeza vai repercutir no todo, pois somos elos de uma mesma corrente.

O importante não é só aprender, mas utilizar os conhecimentos para lhe fornecer segurança. Não adianta o Templo oferecer cursos e aprendizados, os dirigentes se esforçarem para esclarecer e apontar o caminho da austeridade e disciplina templária, se o médium não se liberta da sua insegurança e vivências passadas de superstições, crendices, vaidades e superficialidades.

Diz um ditado conhecido que Deus não chama os capazes, mas capacita aqueles que chama, quando se deixam capacitar.

O Templo oferece conhecimento, oportunidade de exercitar a disciplina, de ter um desenvolvimento mediúnico sadio e desprovido de fantasias, mas se o médium não se deixa capacitar, ouve, mas não transforma em sabedoria esse conhecimento, no exercício de suas atividades no Templo, é inútil, continuará na imaturidade religiosa e, portanto, num exercício mediúnico não sadio.

Esse médium não contribuirá para somar na Corrente em que se encontra e diz Pai Ventania que médiuns sem maturidade, ainda infantis na sua vivência religiosa e mediúnica, não serve para trabalhar com ele, na missão que tem na construção do Templo do Cruzeiro da Luz.

Não, mediunidade não assusta, somente aos fracos, e como sabemos, a felicidade não pertence aos fracos e covardes.

E, infelizmente, quantos se apresentam como fortes e desejosos de aprender e construir, mas que fica na superficialidade do aprendizado, não criando raízes profundas de humildade e serviço. 

Vivem dizendo que estão felizes e carregam profunda tristeza e sofrimento em seus interiores. 

Vivem de fachada, de exterioridades.

Pertencer a um Templo Espírita é assumir, com o coração e a vida, a filosofia, a disciplina e o trabalho da Casa.

É triste para o Dirigente de um grupo espiritualista quando ele se esforça, ensina, se doa, oferece seu tempo e amor no trabalho de fazer crescer os médiuns da sua casa em religiosidade, disciplina e serviço, e observa que determinados médiuns, embora estudem e ouçam, se mantêm na superficialidade deslizando na disciplina, na humildade, agindo de forma independente da vibração harmoniosa da Corrente.

Se o médium não entendeu, depois do Aspirantado, do período entre a Vinculação à Corrente até a Vinculação de Exu, que as normas do Templo visam a unificação, à concretização dos rituais da Umbanda, à vivência da religiosidade, é sinal que ainda está com excesso de máscaras do ego e fechou a brecha da humildade, através da qual poderá penetrar a luz do verdadeiro conhecimento e prática de intercâmbio mediúnico sadio.

Se existe uma hierarquia, que são aqueles que receberam “ordens e comando” do Guia Chefe do Templo para manter a espiritualidade e a disciplina em alta, é porque assim é na Umbanda.

Desde o Sacerdote Dirigente até os Pais, Mães Pequenos, Ogãs e Ekedis, são instrumentos nas mãos da Espiritualidade do Templo a serviço da seriedade, amor real e religiosidade do mesmo.

E, a esses irmãos que são cobrados pelo Plano Espiritual, doam seu tempo, energia e amor a serviço de seus irmãos, deve haver total respeito e acatamento, como centro de unificação e sacralização da religião, como representantes da espiritualidade responsável pelo Templo.

Eles não são Pais e Mães apenas dentro do Templo, mas em qualquer lugar em que estejam, sempre salvando-se o discernimento e respeito aos ambientes em que estivermos.

Pois o médium não é apenas umbandista no Templo e não são membros da Corrente, ou seja, da egrégora do Cruzeiro da Luz, apenas no Templo, mas em qualquer lugar em que estiverem.

Após a Vinculação, uma marca espiritual é impressa no médium. Onde estiver é vista pelo Plano Espiritual como membro dos Cavaleiros da Luz, pertencentes ao Cruzeiro da Luz.

O médium que se sente diminuído, ou que pela sua vaidade e escrúpulo, não toma a bênção aos Pais e Mães em qualquer lugar em que os encontre, com segurança e carinho, demonstrando seu respeito, amor e fidelidade à Corrente do Templo a que pertence, ainda está na superficialidade da sua vivência religiosa, principalmente como membro do Cruzeiro da Luz.

Tomar a bênção denota, com certeza, sua integração real e comprometimento destemido com o trabalho da Umbanda e do Cruzeiro da Luz.

Dizem os Mentores que na bênção dada pelos membros com “ordens e comandos”, existe “a eles a responsabilidade de abençoar e a quem pede o benefício de ser abençoado”, pois quando eles abençoam, têm o aval da espiritualidade superior da casa e, portanto, apenas canalizam para nós a benção dos Irmãos Espirituais Superiores.

Para mim é triste quando detecto médiuns do Cruzeiro da Luze encontrarem seus irmãos com cargo no seu Templo e se esquivarem de tomar a bênção, especialmente quando sinto a ponta da vaidade, do escrúpulo e da falta de fé na realidade ritualística e religiosa da Umbanda.

Principalmente quando sei e acontece que membros de outros Templos ao nos encontrarem, em qualquer lugar, seja pela internet ou na rua, logo tomam a bênção, pois sabem da importância canalizadora de energia e do ritual preceituado no Movimento Umbandista.

Para mim, médiuns que agem desse jeito, estão atrasando sua caminhada de serviço mediúnico e, pior, deixando que a vaidade e a superficialidade fale mais alto que o aprofundamento e vivência religiosa real e concreta.

Porque mediunidade é exercício religioso de doação, amor e vida.

É fácil de vivenciá-la, quando o irmão chamado a exercê-la se mune de intrepidez, humildade e comprometimento fiel.

Intrepidez para enfrentar os percalços naturais, as renúncias e a abnegação que faz desse exercício uma atividade sagrada, é o sacro ofício = sacrifício.

Humildade para aceitar a disciplina, as correções necessárias e as atividades ritualísticas de sua Casa de Trabalho.

Amando-a e assumindo-a como parte de sua vida.

Comprometimento para assumir, como sua família espiritual, a Corrente a que pertence.

A fidelidade ao Guia Chefe, ao Sacerdote-Dirigente, à Corrente composta de seus irmãos de trabalho espiritual só será realidade a partir da maturidade do médium, que se comprometerá com a mente, o coração e a vida a esse trabalho no Templo Umbandista que o acolhe, ensina e forma para uma vida religiosa e mediúnica sadia.

Comprometimento para trabalhar a sua mediunidade com uma única razão, que é a razão pela qual os guias abnegadamente assumem as formas perispirituais no movimento umbandista (Caboclos, Pretos Velhos, Crianças e Exus), que é a de crescer, ajudando seus irmãos a crescerem espiritualmente, sendo assistidos pela misericórdia de Deus, no tratamento de suas dores e problemas.

Sim, ser médium na Umbanda é maravilhoso, é gratificante, só é necessário que entendamos que ela é uma religião disciplinada e ritualística, que é preciso ser compreendida, vivida e amada no Templo a que pertençamos.

Diz o Caboclo das Sete Encruzilhadas que “A Umbanda é uma árvore frondosa, que está sempre a dar frutos a quem souber e merecer colhê-los”.

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