quinta-feira, 28 de maio de 2020

NANÃ BURUKU, MATRIARCA AFRICANA E SUMA-SACERDOTISA

NANÃ, A DEUSA DA VIDA E DA MORTE

Nanã é um orixá feminino de origem daomeana, adotada da África que representa o dogbê (vida) e a doku (morte). Ela acolhe em seu ventre os ghedes (mortos) e os prepara para o leko (renascimento). Essa dualidade é representada por Nanã que personifica os pântanos. É neles que a mistura da água (vida) e da terra (morte), formando a lama, existe um portal entre as dimensões dos vivos e dos mortos. O pântano ou a lama, foi o local escolhido por Nanã para ser sua residência. Entretanto, para haver barro ou lama, tem que haver chuva, Nanã passou também a reger a chuva.

Nanã é conhecida por vários nomes, dependendo da região e do dialeto, mas em Dahomey (hoje Benin) na cidade de Domê onde está localizado seu principal templo, ela é conhecida como Nanã Buruku . Ela está fortemente ligada ao elemento terra e é chamada de "Senhora dos Pântanos", assinalando-a como uma Grande Mãe que é responsável pelo sopro da vida e consequentemente a morte.

Nanã sempre conduz os seres humanos com muita seriedade, justiça e determinação. Seus cânticos são súplicas para que a morte seja mantida afastada e que a vida seja preservada.

Sendo a personificação da "lama" ou da "chuva", Nana está sempre no principio de tudo, relacionada ao aspecto da formação das questões humanas , de um indivíduo e sua essência. Ela é relacionada também, frequentemente, aos abismos, tomando então o caráter do inconsciente, dos atavismos humanos. Está relacionada, ainda, ao uso das cerâmicas, momento em que o homem começa a desenvolver cultura (período neolítico).

MITOLOGIA

Nanã de origem daomeana, foi incorporada há séculos pela mitologia ioruba, quando o povo nagô conquistou o povo do Dahomey (atual República do Benin) , assimilando sua cultura e incorporando alguns Orixás dos dominados à sua mitologia já estabelecida.

Nesse processo cultural, Oxalá (mito ioruba ou nagô) continuou sendo o pai de quase todos os Orixás. Iemanjá (mito igualmente ioruba) é a mãe de seus filhos (nagô) e Nanã (mito jeje) assume a figura de mãe dos filhos daomeanos. Os mitos daomeanos eram mais antigos que os nagôs (vinham de uma cultura ancestral que se mostra anterior à descoberta do fogo). Tentou-se, então, acertar essa cronologia com a colocação de Nanã e o nascimento de seus filhos, como fatos anteriores ao encontro de Oxalá e Iemanjá.

Muitas pesquisas apontam ainda que os iorubas começaram a ter um conceito de Deus Supremo antes inexistente, e que esse conceito pode ser consequência da influência dos maometanos do norte da África sobre a população negra mais próxima. Assim Nanã assume, como outros Orixás femininos, o conceito de maternidade como função principal.

É neste contexto, que Nanã apareceria como a primeira esposa de Oxalá, tendo com ele três filhos: Iroco (ou Tempo), Omulu (ou Obaluaê, orixá da varíola) e Oxumarê (orixá do arco-íris).

E teria tido uma filha, Ewá, nascida de uma relação entre Nanã e Oxóssi, ou ainda, entre Nanã e Orunmilá, conforme o mito.

NANÃ NO BRASIL

Aqui no Brasil, os escravos africanos introduziram com muito êxito suas divindades, como a Deusa Nanã, Oya, entre outras, nas religiões como o candomblé, a umbanda e o batuque. Essas religiões incluem a possessão por parte dos deuses. Quando Nanã se manifesta numa de suas iniciadas é saudada pelos gritos de Salúba!

SEUS INICIADOS

Seus sacerdotes e sacerdotisas são experientes à prática da medicina através das ervas, pois Nanã é detentora do conhecimento do uso terapêutico delas (ervas). Mas a Deusa explica ainda, que além do uso terapêutico das folhas e de alguns produtos animais, as doenças podem ter origem espiritual e portanto, requer tratamento nesse sentido. Mas, qualquer que seja a origem da doença, se a pessoa enferma recorrer à Nanã, obterá o remédio curador.

Muitas mulheres recorrem à essa Deusa quando não conseguem engravidar e Nanã ensina prontamente a mistura de ervas que deve tomar, assim como os "ebós" e oferendas que devem ser feitos. Caso sejam atendidas, é costume na África, em homenagem à Deusa, acrescentar ao nome da criança a palavra "nanã". Todos seus sacerdotes e sacerdotisas também usam na frente do nome esse prefixo.
O culto de iniciação dos "filhos" de Nanã requer uma série de cuidados especiais, tanto aqui no Brasil como na África. Durante um período é necessário abster-se de sexo, bebidas alcoólicas, qualquer tipo de droga ou vício, pelo menos por 2 meses antes. Nesse período são realizados vários "ebós" na casa do santo.

Na África as mulheres menstruadas são impedidas de entrar em seu templo ou fazer comida de santo. Nanã fala que a bogami (menstruação) é um sangue impuro e diz para as mulheres não cozinharem para seus maridos quando estiverem menstruadas. Aqui vemos claramente traços de um período muito arcaico (neolítico) em que o sangue da menstruação ainda era considerado impuro.

NANÃ E HÉCATE

Nanã é também uma Deusa da Lua Escura que muito se assemelha a Hécate nas funções de regente dos processos misteriosos da vida e da morte, das passagens difíceis da vida e da entrada nos caminhos árduos da transformação. A nível psíquico, essas passagens não podem ser eliminadas do curso normal da vida.

Nanã, assim como Hécate é a Deusa Terra primordial que dá nascimento às sementes e acolhe em seu seio os mortos. Tanto pode dar vida como a morte, sequências da mesma realidade. É ainda, Dona da sabedoria e da justiça, que vem da natureza e a sua lei é implacável.

Nanã o Orixá feminino mais velho do panteão, pelo que é altamente respeitada. Veste-se de branco e azul. Suas contas são de louça branca com riscos azuis. Traz na mão o Ibiri, seu cetro, que é feito com palitos de dendezeiro e nasceu junto com ela, na sua placenta. O sincretismo de Nanã com Sant'Ana, avó maternal de Jesus, e padroeira dos professores, reforça a impressão de que ela é muito antiga e que sua chegada ao Brasil foi anterior à dos Yorubas.

A Deusa tanto pode trazer riquezas como miséria. Está relacionada, ainda, ao uso das cerâmicas, momento em que o homem começa a desenvolver cultura. Os búzios, que simbolizam morte por estarem vazios e fecundidade porque lembram os órgãos genitais femininos, também pertencem a Nana.
Entretanto, o símbolo que melhor sintetiza o caráter de Nana é o "grão", pois ela possui o domínio da agricultura e todo "grão" tem que morrer para germinar.

MITOLOGIA
LENDA 1 (Mitologia Fon)

Na mitologia Fon, Nanã Buruku (ou Buluku) que deu nascimento ao gêmeos: Lisa e Mawu. Mawu era a Lua, que teve força ao longo da noite e viveu no oeste. Lisa era o Sol, que fez sua morada no Leste. Quando existia um eclipse dizia-se que Mawu e Lisa estavam fazendo amor. Mawu-Lisa criaram todo o Universo e os Voduns juntos. Eles eclipsaram várias vezes e tiveram no total sete casais de gêmeos (sempre um masculino e o outro feminino).

Mawu e Lisa chamaram seu filhos e os enviaram à Terra como os primeiros habitantes e para que esses os ajudassem a governar a Terra, deram a cada um uma atribuição. Os principais Voduns são: Loko; Gu; Heviossô; Sakpatá; Dan; Agbê; Águé; Ayizan; Agassu; Legba e Fa.

Com o nascimento desses filhos, Nana criou a dualidade que daria o equilíbrio ao mundo e aos seres viventes.

Mawu é o princípio feminino, a fertilidade, a suavidade, a compreensão, a ponderação, a reconciliação e o perdão. Já Lisa é o princípio masculino, o julgador, a impaciência, a força cósmica que castiga os homens errados e os corrige, a seriedade. Ele está sempre atento para que as leis de Mawu sejam cumpridas.

Os fons, ao chegarem no Brasil, eram chamados de "Jejes", implantaram aqui o seu culto, baseado na rica, complexa e elevada Mitologia Fon. Sua entrada no em nosso país ocorreu em meados do século XVII.

Djedje (jeje) é uma palavra de origem yoruba que significa estrangeiro, forasteiro e estranho; que recebeu uma conotação pejorativa como “inimigo”, por parte dos povos conquistados pelos reis de Dahomey e seu exército. Quando os conquistadores eram avistados pelos nativos de uma aldeia, muitos gritavam dando o alarme “Pou okan, djedje hum wa!” (olhem, os jejes estão chegando!).

Quando os primeiros daomeanos chegaram ao Brasil como escravos, aqueles que já estavam aqui reconheceram o inimigo e gritaram “Pou okan, djedje hum wa!”; e assim ficou conhecido o culto dos Voduns no Brasil “nação Jeje”.

NANÃ BURUKU

Nanã Buruku está associada com as Onze Energias cósmicas e é íntima delas compreendidas ma religião da Umbanda. É denominada como a "Avó de todos os Orixás". Nada acontece sem que ela tenha conhecimento, sempre presente, desde a criação incessante do universo até o desenrolar contínuo da atividade existencial de todos os seres e elementos que compõem o organismo vivo do nosso planeta. Soma-se com outras Energias para, juntas, comporem a forma mais sutil e perspicaz orixá: Oxumaré que personifica a curva do arco-íris.

Na Umbanda, Nanã é configurada pelos fiéis e "filhos de cabeça" como sendo fisicamente uma senhora sempre curvada pelo peso das eras e cujo rosto nunca é visto, porque está sempre encoberto. Sua imagem está projetada na figura de um devoto que canta e dança em seu louvor, mimeticamente, como se embalasse uma criança. Outras vezes com as mãos juntas como se socasse um pilão. Sua postura em muito se parece com o orixá Omolu com o qual parte e reparte suas próprias vibrações preferenciais e idiossincrásicas.

É conhecida também por: Bukuú (Togo), Naná Buluku (Benin, ex-Daomé), Borokô (candomblés de caboclo), Tobossi (fantiashanti), Kerê-Kerê (Angola e Congo) e mais as variantes Naná, Nanã, Nanã Buruquê, Buruku, Ananburuquê, Anaburuku, Naná Buku, Naná Brukung e, na língua yoruba como Nanã Buruiku.

LENDA 2

Dizem que quando Olorum, o ser Supremo, encarregou Oxalá de fazer o mundo e modelar o ser humano, Oxalá tentou vários caminhos.

Tentou fazer o Homem de ar, como ele. Não deu certo, pois o Homem logo se desvaneceu. Tentou fazer de pau, mas a criatura ficou dura. De pedra, mas ainda a tentativa foi pior. Fez de fogo e o Homem se consumiu. Tentou azeite, água e até vinho de palma, e nada.

Foi então que Nanã veio em seu socorro e deu a Oxalá a lama, o barro do fundo da lagoa onde morava ela, a lama sob as águas, que é Nanã. Oxalá criou o Homem, o modelou no barro. Com o sopro de Olorum ele caminhou. Com a ajuda dos Orixás povoou a terra.

Mas tem um dia que o homem tem que morrer.
O seu corpo tem que voltar a terra, voltar a natureza de Nanã. Nanã deu a matéria no começo, mas quer de volta no final tudo o que é seu.
Essa lenda descreve a natureza de Nanã como a Grande Mãe de onde tudo nasce e tudo retorna.

LENDA 3

Essa terceira lenda conta que Nanã foi conquistar o reino de Oxalá e acabou sendo conquistada por ele. Entretanto, o deus amava muito sua esposa, Iemanjá, e jamais se envolveria com Nanã. Essa então, o embriagou e o seduziu, engravidando. Desse ato adúltero nasceu Obaluiaê, uma criança muito feia e deformada que foi abandonada no mar. Iemanjá o encontrou meio morto e todo mordido pelos peixes e o cuidou até que ficasse curado. Para esconder as cicatrizes que permaneceram em seu corpo, ele foi coberto de palha. Assim cresceu Obaluaiê, sempre coberto por palhas, escondendo-se das pessoas, taciturno e compenetrado, sempre sério e até mal-humorado.

Um dia, caminhando pelo mundo, sentiu fome e pediu às pessoas de uma aldeia por onde passava que lhe dessem comida e água. Mas as pessoas, assustadas com o homem coberto desde a cabeça com palhas, expulsaram-no da aldeia e não lhe deram nada. Obaluaiê, triste e angustiado saiu do povoado e continuou pelos arredores, observando as pessoas.

Durante este tempo os dias esquentaram, o sol queimou as plantações, as mulheres ficaram estéreis, as crianças cheias de varíola, os homens doentes. Acreditando que o desconhecido coberto de palha amaldiçoara o lugar, imploraram seu perdão e pediram que ele novamente pisasse na terra seca. Ainda com fome e sede, Obaluaiê atendeu ao pedido dos moradores do lugar e novamente entrou na aldeia, fazendo com que todo o mal acabasse. Então homens o alimentaram e lhe deram de beber, rendendo-lhe muitas homenagens. Foi quando Obaluaiê disse que jamais negassem alimento e água a quem quer fosse, tivesse a aparência que tivesse. E seguiu seu caminho.

Chegando à sua terra, encontrou uma imensa festa dos orixás. Como não se sentia bem entrando numa festa coberto de palhas, ficou observando pelas frestas da casa. Neste momento Iansã, a Deusa dos ventos, o viu nesta situação e, com seus ventos levantou as palhas, deixando que todos vissem um belo homem, já sem nenhuma marca, forte, cheio de energia e virilidade E dançou com ele pela noite adentro. A partir deste dia, Obaluaiê e Iansã-Balé se uniram contra o poder da morte, das doenças e dos espíritos dos mortos, evitando desgraças aconteçam aos homens.

Essa lena nos aconselha a nunca negar auxílio, qualquer que seja, às pessoas que nos procuram. Além disso, nos diz para termos esperança, pois "não há mal que sempre dure.." e sempre há um recomeço, mesmo após um grande e penoso sofrimento.

LENDA 4

"Nanã era esposa de Ogum e ocupava o cargo de juíza no Daomé. Só julgava os homens, sendo muito respeitada pelas mulheres que eram consideradas Deusas.
Ela morava numa bela casa com jardim. Quando alguém apresentava alguma reclamação sobre seu marido, ela amarrava a pessoa numa arvore e pediu aos eguns para assustá-la.

Certa noite, Iansã reclamou de Ogum e ele foi amarrado no jardim. A noite, conseguiu escapulir e foi falar com ifá. A situação não podia continuar e, assim, ficou acertado que oxalá tiraria os poderes de Nanã. Ele se aproximou e ofereceu a ela suco de igbin, um tipo de caramujo. Ao beber o preparado, Nanã adormeceu. Oxalá então vestiu-se de mulher e, imitando o jeito de Nanã, pediu aos Eguns que fossem embora de seu jardim para sempre.

Quando Nanã acordou e percebeu o que Oxalá tinha feito, obrigou-o a tomar o mesmo preparado de igbin e seduziu o orixá. Oxalá saiu correndo e contou para Ogum o que havia acontecido. Indignado, este cortou relações com Nanã. E é por isso que nas oferendas a Nanã não é usado nenhum objeto de metal.

Uma outra lenda registra que, numa reunião, os orixás aclamaram ogum como o mais importante deles e que Nanã, não se conformando em ser derrotada por ele, assumiu que não mais usaria os utensílios de metal criados pelo orixá guerreiro (escudos e lanças de guerra, facas e setas para caça e pesca). Por isso, que ela não aceita oferendas em que apresentem objetos de metal."

Essa lenda, vem de encontro à tese de alguns historiadores que afirmam que a Deusa Nanã é anterior a Idade do Ferro.

DISPUTA ENTRE NANÃ BURUKU E OGUM
(Segundo Pierre Verger)

"Nanã Buruku é uma velhíssima divindade das águas, vinda de muito longe e há muito tempo. Ogum é um poderoso chefe guerreiro que anda sempre à frente dos outros Imalés.

Um dia eles vão a uma reunião. É a reunião dos duzentos Imalés da direita e dos quatrocentos Imalés da esquerda. Eles discutem sobre os seus poderes. Eles falam muito sobre Obatalá, aquele que criou os seres humanos. Eles falam muito sobre Orunmilá, o senhor do destino dos homens. Eles falam sobre Exu:

-"Ah! É um importante mensageiro!"

Eles falam muita coisa a respeito de Ogum. Eles dizem:

-"É graças a seus instrumentos que nós podemos viver. Declaramos que é o mais importante entre nós!"

Nanã Buruku contesta, então:

-"Não digam isso. Que importância tem, então, os trabalhos que ele realiza?"

Os demais orixás respondem:

-"É graças a seus instrumentos que trabalhamos pelo nosso alimento. É graças a seus instrumentos que cultivamos os campos. São eles que utilizamos para esquartejar os animais".

Nanã concluiu que não renderá homenagem a Ogum.

-"Porque não haverá um outro Imalé mais importante?"

Ogum diz:

-"Ah!Ah! Considerando que todos os outros Imalés me rendem homenagem, me parece justo, Nanã, que você também o faça."

Nanã responde que não reconhece sua superioridade. Ambos discutem por muito tempo.

Ogum perguntando:

-"Você pretende que seja dispensável?"

Nanã garantindo que isto ela podia afirmar dez vezes.

Ogum diz então:

"Muito bem! Você vai saber que sou indispensável para todas as coisas".

Nanã, por sua vez, declara que, a partir daquele dia, ele não utilizará, absolutamente nada, fabricado por Ogum e, ainda assim, poderá tudo realizar.

Ogum questiona:

-"Como você o fará? Você não sabe que sou o proprietário de todos os metais? Estanho, chumbo, ferro, cobre. Eu os possuo todos".

Os filhos de Nanã eram caçadores. Para matar um animal eles passaram a se servir de um pedaço de pau, afiado em forma de faca, para esquartejá-lo. Os animais oferecidos a Nanã são mortos e decepados com instrumentos de madeira. Não se pode utilizar faca de metal para cortar sua carne, por causa da disputa que, desde aquele dia, opôs Ogum a Nanã".

(Lenda retirada do livro "Lendas Africanas dos Orixás" de Pierre Fatumbi Verger, págs. 62-64.)

DEUSA DA VIDA, DA MORTE E DO RENASCIMENTO

Nanã é uma Deusa que se inseri no período Neolítico ou até antes dele, onde não existe distinção alguma entre a Deusa que atrai a vida e a que atrai a morte, mas ambas se experimentam como uma unidade, através da Grande Mãe que engloba a totalidade da vida e da morte. A Deusa transforma a experiência da morte em como o renascimento à outra dimensão.

O período Neolítico foi uma fase de descobrimentos e o resultado disso foi uma nova relação com o universo. Foi nesse tempo que a humanidade compreendeu e passou a participar dos misteriosos processos de crescimento. Com a compreensão que certas sementes podiam ser convertidas em trigo e depois transformados em pão, e que certos animais vivendo perto das casas, poderia prover-lhes de leite, carne, surgiu um novo espírito que cooperação consciente entre os seres humanos e seu mundo. A vida do cosmos se converteu em uma história que incluía o homem como um de seus personagens.

Os povos deste período não puderam de realizar uma analogia de suas vidas com as das sementes que, plantadas na terra, incubavam e voltavam a emergir como grão verde ou dourado. Os rituais que evocavam o nascimento, que chorava a morte e que celebravam o renascimento da raiz mostra o quanto era vital essa analogia para a imaginação humana, pois situava a regeneração como o núcleo da vida. A fonte secreta da vida estava agora escondida nas profundezas da Terra (Útero da Deusa). Os seres humanos agora nascem dela, se alimentam dela e são acolhidos por ela.

As inumeráveis formas de cerâmica neolítica revelam o alcance imaginativo dos povos, que refletiam sobre o mistério do nascimento associando-o ao mais amplo mistério do nascimento de toda a vida mediante o "Corpo" da Deusa. As imagens da Deusa a mostram como o portal ou umbral através da qual penetra vida ou abandona esse mundo.

Toda a Grande Mãe, segundo Carl Jung, personifica o nosso inconsciente, portanto, um aspecto gerador, protetor e positivo, apesar do seu lado devorador e negativo. Todo o tipo de medo, como o medo da morte, do desconhecido, do novo, está ligado ao medo do inconsciente. O inconsciente, como a Grande Mãe, é a fonte primordial da criação, mas se o fascínio dela for forte demais, ela é o poder oculto que, em certas ocasiões, impede o livre desenvolvimento da comunicação normal. Mas, se encararmos essa realidade básica, podemos desistir de sermos tão agradáveis aos imperativos ideais do mundo patriarcal e atingirmos uma base sólida, de onde tudo isso parece irrelevante.

A DIFUSÃO DA DEUSA NEGRA

Dos tempos pré-históricos, em torno de trinta mil anos antes da era cristã, provém a Vênus negra de Lespugue, entalhada numa presa de mamute, agora preservada no Musée de l"Homme, em Paris. Por ser anterior a uma época em que não existia conhecimento algum de agricultura, ela é mais do que Terra, ela é a própria Vida.

Em Tindari, na costa do Mediterrâneo no leste da Sicília, uma estátua negra da Nossa Senhora possui a inscrição: "nigra sum sed formoso", ou seja, "Sou negra, porém formosa",do Cântico de Salomão 1,5. A Virgem Negra também é encontrada na França, na Espanha, na Suíça e na Polônia. Não poderia portanto ser essa Nossa Senhora negra a mais antiga das imagens da Deusa?

Há historiadores que postulam que da figura da Deusa Negra procedem todas as demais.Apesar de que a humanidade surgiu no noroeste da África, é possível que os temas dominantes que se repetem nos mitos e nos rituais de todo o mundo só se desenvolveram quando os povoadores já haviam trasladado à outras regiões.

Historiadores negros do século XX, como John G. Jackson, afirmam que os povos africanos da costa foram consumados marinheiros e exploradores que levaram à Ásia, Europa, América e Oceania a cultura matriarcal da Deusa. Portanto, as virgens negras presentes na Europa, que são interpretadas como representantes da "lua escura" ou ainda, uma "escura faceta" psicológica da Deusa, não são mais do que vestígios da época em a Deusa era realmente negra.

É inegável a vastíssima contribuição da cultura africana na cultura, na religião e nos costumes aqui do Brasil. Nada mais fácil sentir esse contribuição no que tange as religiões que hoje são afro-brasileiras. Deusas como Iemanjá, Iansã, Oxum, Nanã entre muitas outras também importantes, são muito populares em nosso meio, mas sempre é bom acrescentarmos um pouco mais de conhecimento sobre elas.

Sem nos atermos em questionamentos religiosos, essas Deusas Mães, estão presentes e ativas em nossas vidas, para não nos deixar esquecer que o melhor dos caminhos é o do coração e o da fé. Todas elas simbolizam a força maior, a fagulha divina dentro de nós, a energia que flui nos próprios processos da vida e do viver. Esse conceito da Deusa como processo de vida conduz a outro aspecto da espiritualidade feminina contemporânea, observado entre muitos grupos e indivíduos. Trata-se do sentido da conexão direta com a vida. Muitos são os que pensam que não estamos no topo da natureza, e sim, "somos" a natureza. Esse senso de Unidade, aflora constantemente em conversas e escritos. Isso nos ajuda a compreender que aquilo que poderíamos considerar simplesmente como compaixão ou apoio ou simpatia é o resultado do sentir, intuitivo, dessa ligação direta com a unidade. Essa sensação de Unidade com toda a vida leva muitas mulheres, de forma bastante natural, a uma compreensão direta do motivo pelo qual o sexismo, o racismo e outros "ismos" que criam uma sensação de separação, de "nós e os outros", realmente não fazem sentido.


segunda-feira, 18 de maio de 2020

LOGUNEDÉ

Sem sombra de dúvida Logunedé é depois do orixá Bará o orixá que carrega consigo mais preconceitos e falta de conhecimento por parte dos adeptos e iniciados no culto.
Logunedé é tido como andrógeno, patrono dos homossexuais, orixá iorubano, tendo como elemento terra e água dominando rios, cachoeiras e matas.
É considerado orixá "métametá", em ioruba, méta significa "três" e métametá traduz-se a melhor guiza como: três ao mesmo tempo.
Apesar da sua história, é preciso esclarecer que Logunedé não muda de sexo a cada seis meses, ele é um Orixá do sexo masculino.
A sua dualidade dá-se à nível de manifestação de energia comportamental, já que em determinadas ocasiões pode ser doce e benevolente como Oxum, e em outras, sério e solitário como Odé.
Logunedé congregando a natureza do pai: Odé Erinlè e da mãe Oxum Opandá e congregando a natureza sua, própria.
Um encantador, realizador de prodígios, protetor dos navegantes de água doce, caçadores e protetor dos amores duradouros.
Grande feiticeiro.
Veste saiote amarelo e um pano [ojá] azul-turquesa amarrado ao ombro, cruzado com outro cor branca, também pode usar na cabeça um capacete dourado com plumas azul, amarela, branca e verde. Lógico que a forma de manifestação varia muito considerando a região, cultura e educação dos zeladores, a maneira colocada acima é folclórica, tradicional e repassada a título de conhecimento geral.
Usa damatá e abebé de latão, carrega couraça, capanga e um berrante.
Suas contas são de miçangas leitosas.
AZUIS: mistério, prudência, respeito aos mais velhos.
AMARELO: luz da riqueza.
VERDE: alegria, prudência.
BRANCA: temperança, paciência.
Sua influência é marcante, mistura jovialidade e irresponsabilidade.
Logunedé sabe ser rude e doce ao mesmo tempo.

Logunedé, também é um guerreiro entre os orixás.
Surge como divindade dentro do runcó, camarinha, onde é feito a junção Odé com Oxum, passando este a ser mensageiro e protetor dos dotes de Oxum.
Caçador habilidoso, em terra firme se alimenta de caça e, submerso se alimenta de peixe.
É portanto, uma divindade que domina o poder da mutação e transforma-se no que quiser.
Simultaneamente caçador e pescador, Logunedé é o herdeiro dos axés de Oxum e Odé que se fundem e se mesclam como mistério da criação, trata-se de um orixá que tem a graça, a meiguice e a faceirice de Oxum e à expansão, firmeza e paciência de Odé.
Se Oxum confere a Logunedé axés sobre a sexualidade, a maternidade, a pesca e a prosperidade, Odé lhe passa os axés da fartura, da caça, da habilidade, do conhecimento, e também da resignação, para isso lembramos o dito popular: um dia da caça e outra do caçador... desesperar, por que?
Essa característica de unir o feminino de Oxum ao masculino de Odé, muitas vezes o leva a ser representado como uma criança, um menino pequeno ou adolescente, formando mais uma trindade sagrada na História das religiões.
Com Logunedé, completa-se o triângulo iorubá pai, mãe e filho, egípcia Ísis, Osíris e Hórus, hindu, e tantas outras da antiguidade e que também se repete na trilogia católica, Pai, Mãe e Espírito Santo.
De culto diferenciado, é um Orixá de extremo bom gosto.
Seus objetos devem permanecer junto aos assentos de Oxum ou Odé, dependendo de sua feitura, e sempre quando agradado devemos agradar sua mãe.
Tem predileção ao dourado, é um Orixá muito vaidoso, é considerado o mais elegante de todos.

Mitologia
Logunedé, Logun Edé, lógunèdè, Ólòlún Ode, é o orixá da riqueza e da fartura, filho de Oxum e Odé, deus da guerra e da água.
É, sem dúvida, um dos mais bonitos orixás do Candomblé, já que a beleza é uma das principais características dos seus pais.
Quase tudo que se sabe a seu respeito gira em torno de sua paternidade
Apesar de sua história, é preciso esclarecer que Logun Edé não muda de sexo a cada seis meses, ele é um orixá do sexo masculino. Sua dualidade se dá em nível comportamental, já que em determinadas ocasiões pode ser doce e benevolente como Oxum e em outras, sério e solitário como Odé.

Logunedé é um orixá de contradições, nele os opostos se alternam, é o deus da surpresa e do inesperado.
No entanto, existem outras versões acerca de sua filiação. Se na maioria dos mitos, Logunedé surge como filho de Oxum e Odé, tendo ele três irmãos: Odé Ifá, ligado ao ar, afilhado de Oxalá; Odé Issambô, ligado às plantas, afilhado de Ossaim e Odé Ilê, afilhado de Bará, em outros mitos, um pouco mais raros, aparece como filho de Ogun e Iansã.
Há, ainda, histórias que contam a lenda de Logunedé como filho desses quatro Orixás, apresentando-o como uma representação dos Orixás gêmeos, Ibeji.
Na Nigéria, a cidade de Logunedé chama-se Ilesa e é uma das mais ricas e prósperas da África, mas o seu culto na região está em via de extinção. Para recuperar um pouco de sua história é preciso voltar à sua cidade, onde encontram-se seu palácio e seus principais sacerdotes.

Na África negra, dizem que Logunedé seria na verdade Ólòlún Ode, o guerreiro caçador, o maior entre todos os caçadores, pai de todos eles, inclusive de Oxóssi.
E se observarmos a cantiga de Odé, veremos que expressão Omo odé, ou seja, filho do caçador, é constante, podendo interferir na lógica nas histórias contadas pelos africanos.
Omo Ode l’oní, omo Ode lúwàiyé
O filho do caçador é o senhor,
Omo Ode l’oní, omo Ode lúwàiyé.
O filho o caçador é o senhor.

Todavia, não podemos desconsiderar o processo cultural que deu origem ao Candomblé e as diferenças fundamentais que existem entre os cultos aos orixás no Brasil e na África.
O Candomblé atual no Brasil, é um resumo de toda a África mística.
Muitos deuses que na África mantinham a sua autonomia, no Brasil foram reunidos em um único orixá e divididos em diversas qualidades.

Oxum Yéyé Ipondá e Odé Erinlé são, respectivamente, as qualidades de Oxum e Odé que se consideram os pais de Logunedé.
Há quem diga na África que Logunedé é, na verdade, uma altiva versão masculina da própria Oxum:
Lógunèdé? Òsun ni!
Logunedé? Ele é Oxum!
Quanto a ligação dele com Odé temos:

Silêncio!
Permaneçam em silêncio,
Ele é o caçador.
Senhor orixá afogue-me, não me fira,
Afogue-me com o entendimento do culto,
Orixá caçador das florestas.
Aquele que só usa uma flecha
E que jamais erra.
Somos filhos de Erinlé,
Somos filhos daquele que mata a caça.
Caçador das florestas
Que foi o primeiro a obter riquezas,
O primeiro a tornar-se rico,
Pai, caçador das florestas,
Seu arco e sua flecha
Originam-se da mais alta tradição.

A história revela que Odé, feliz pelo filho vindouro, declarou a Oxum o seu amor e pediu a ela posse do menino:
-Oxum, por amor a você, quero que Logunedé fique comigo, vou ensiná-lo a caçar. Comigo ele aprenderá os segredo da floresta.

Mas Oxum também amava Logunedé e por maior que fosse seu amor por Odé ela não poderia separar-se de seu filho.
Obatalá interferiu declarando :

- Logunedé viverá seis meses com sua mãe e seis meses com o seu pai, comerá do peixe e da caça.
De Oxum, sua mãe, Logunedé herdou o lado belo e vaidoso, pois Oxum lança mão de seu dom sedutor para satisfazer a ambição de ser a mais rica e a mais reverenciada.
De Erinlé, seu pai, herdou o dom da caça pois Erinlé é da família dos Odé e seu símbolo é o ofá, a lança de caça e o ogue.
Mas se, em várias tradições, ele é considerado um orixá masculino, em algumas é confundido com a homossexualidade ou a bissexualidade, o que ocorre quando se interpreta ao pé da letra o mito que afirma viver Logunedé seis meses como homem e seis meses como mulher.

Logunedé está encantado nos pequenos animais, como o coelho, o porquinho-da-índia e os pequenos pássaros, no mato baixo, nas matas pouco densas e principalmente nos rios, sua morada predileta.
Está ligado às artes de pintar, esculpir, escrever, dançar, cantar como o seu pai Odé e ligado ao banho, pois também é filho de Oxum, deusas das águas doces.
Existem templos para Logunedé em Ilesa, seu lugar de origem, onde em alguns itans é citado como um corajoso e poderoso caçador, que tamanha coragem é relacionada a de um leopardo. Casado com três esposas.

ARQUÉTIPO
As características dos filhos e filhas de Logunedé é marcada por eles se sentirem presos numa armadilha do destino como mostra as diversas lendas.
São extremamente sensíveis a dor e ao sofrimento, que lhes dão, a sensação de que o mundo está de cabeça para baixo ou pernas para o ar.
Os filhos de Logunedé embora façam amigos com facilidades, não se envolvem profundamente com eles.
Podem ser masculinos ou femininos, eles sentem grande orgulho de sua beleza, de seu corpo.
Trato social fácil, bem humorados, calmos, educados.
Ambiciosos, dão muito valor ao conforto material.
Tendem a paixão pelo debate, e as vezes falam e discutem sem parar, principalmente sobre coisas que lhes agradam.
Mas não raro precisam se isolar, interiorizar-se.
Nessa fase, seu interesse pelo ocultismo e pela religião se sobressai.
Otimistas os filhos de Logunedé perseguem seus objetivos com precisão e procuram gastar energia em coisas que gostam.
Mas são como camaleão, costumam mudar de personalidade e de atitudes como quem muda de roupa.
Traços físicos harmoniosos, estatura mediana a alta, cabeça bem feita, rosto oval proporcional ao corpo, olhos de gato, que atraem e repelem ao mesmo tempo, nariz bem feito, bons dentes, voz agradável, tendência a engordar.
São pessoas de extremo charme e carisma, possuindo muitos amigos e admiradores.
Sentem imensa compaixão pelas pessoas que sofrem, sempre tentando ajudá-las.
A sinceridade é a maior virtude, porém irritam-se com muita facilidade.
Basta serem contrariados e sua fúria aparece, muitas vezes perdendo o controle de suas ações, custando muito a se acalmarem.
São perfeccionistas, querendo tudo ao seu modo. Não admitem erros de outras pessoas.
Agem por impulso, aproveitando ao máximo tudo o que a vida lhes oferece.
São muito curiosos e espertos. Geralmente, quando crianças, adoram desmontar seus brinquedos para ver como são feitos.
Na fase adulta, têm o dom de captar o íntimo das pessoas.
Os filhos de Logunedé têm muito interesse em aprender e viver novas experiências, assim como o orixá, adaptam-se a todo tipo de ambiente e sabem como agir em cada situação.
Machucam-se com facilidade as extremidades, mãos, pés e cabeça.
Desembaraçados, move-se com graça, elegância e refinamento.
Ciumentos e sedutores chamam a atenção de qualquer um. Super imaginativo destacam-se nas artes em geral, como música, teatro e dança.
São admirados por sua suavidade, inteligência e sensibilidade.
Estão sempre elogiando as pessoas e cercado de bons amigos.
Realmente sabem viver e aproveitar a vida, também disposto a deixarem que os outros vivam.
Estão sempre de bom astral, otimismo é a sua palavra chave.
Vontade firme e autoconfiança quase narcisista.
Embora possam assumir exteriormente um ar de indiferença às opiniões dos outros, na verdade se sentem abalados quando criticados.
São ternos com seus entes, mas poderão ser impiedosos com estranhos.
Apreciam o conforto material e colocarão seus desejos em primeiro lugar.
Ambiciosos, sempre alcançam seus objetivos.
Tem certa facilidade em aprender qualquer coisa e tendência a falar mais de um idioma.
Ser incomodado é algo que os aborrece, pois são atenciosos, modestos, corteses e gostam que os outros sejam assim também.
Detestam que conversem em tom alto ou digam grosserias. Sempre se esforçam para serem delicados, mesmo com o seu pior inimigo.


Títulos

EDÈ APANAN - Come com Bará e Odé. Seus fundamentos estão em sua mãe de criação, Onira, sem ela Logunedé não caminha.
EDÈ LOKÓ - Tem fundamento com Baraaá.

ORIKIS

Orikis ou itãs (Itans) são orações faladas e não cantadas. Ori (Cabeça) Kì (Saudação).... São formas poéticas de agradar e reconhecer a potencialidade do orixá conforme sua essência.
Ganagana bi ninu elomi ninu
Um orgulhoso fica infeliz que um outro esteja contente
A se okùn soro èsinsin
É difícil fazer um corda com as folhas espinhosas da urtiga
Tima li ehin yeye re
Montado de cavalinho sobre as costas de sua mãe
Okansoso gudugu
Ele é sozinho, ele é muito bonito
Oda di ohùn
Até a voz dele é agradável
O ko ele pé li aiya
Não se coloca as mãos sobre o seu peito
Ala aiya rere fi owó kan
Ele tem um peito que atrai as mãos das pessoas
Ajoji de órun idi agban
O estrangeiro vai dormir sobre o coqueiro
Ajongolo Okunrin
Homem esbelto
Apari o kilo òkò tímotímo
O careca presta atenção à pedra atirada certeiramente
O ri gbá té sùn li egan
Ele acha duzentas esteiras para dormir na floresta
O tó bi won ti ji re re
Acordá-lo bem é o suficiente
A ri gbamu ojiji
Nós somente o vemos e o abraçamos como se ele fosse uma sombra
Okansoso Orunmila a wa kan mà dahun
Somente em Orunmila nós tocamos, mas ele não responde
O je oruko bi Soponna /
Ele tem um nome como Soponna /
Soro pe on Soponna e nià hun
É difícil alguém mau chamar-se Soponna
Odulugbese gun ogi órun
Devedor que faz pouco caso
Odolugbese arin here here
Devedor que anda rebolando displicentemente
Olori buruku o fi ori já igi odiolodi
Ele é um louco que quebra a cerca com a cabeça
O fi igbegbe lù igi Ijebu
Ele bate com seu papo numa árvore Ijebu
O fi igbegbe lú gbegbe meje
Ele quebrou sete papos com o seu papo
Orogun olu gbegbe o fun oya li o
A segunda mulher diz ao papo para usar um pente (para desinchar o papo)
Odelesirin ni ki o wá on sila kerepa
Um louco que diz que o procurem lá fora na encruzilhada
Agbopa sùn kakaka
Aquele que tem orquite ( inflamação dos testículos) e dorme profundamente
Oda bi odundun
Ele é fresco como a folha de odundun
Jojo bi agbo
Altivo como o carneiro
Elewa ejela
Pessoa amável anteontem
O gbewo li ogun o da ara nu bi ole
Ele carrega um talismã que ele espalha sobre o seu corpo como um preguiçoso
O gbewo li ogun o kan omo aje niku
Ele carrega um talismã e briga com o filho do feiticeiro dando socos
A li bilibi ilebe
Ele veste boas roupas
O ti igi soro soro o fibu oju adiju
Com um pedaço de madeira muito pontudo ele fere o olho de um outro
Koro bi eni ló o gba ehin oko mà se ole
Rápido como aquele que passa atrás de um campo sem agir como um ladrão
O já ile onile bó ti re lehin
Ele destroi a casa de um outro e com o material cobre a sua
A li oju tiri tiri
Ele tem olhos muito aguçados
O rí saka aje o dì lebe
Ele acha uma pena de coruja e a prende em sua roupa
O je owú baludi
Ele é ciumento e anda "rebolando" displicentemente
O kó koriko lehin
Ele recolhe as ervas atrás
O kó araman lehin
Ele recolhe as ervas atrás
O se hupa hupa li ode olode lo
Ele anda "rebolando" desengonçado para ir ao pátio interior de um outro
Òjo pá gbodogi ró woro woro
A chuva bate na folha de cobrir telhados e faz ruído
O pà oruru si ile odikeji
Ele mata o malfeitor na casa de um outro
O kó ara si ile ibi ati nyimusi
Ele recolhe o corpo na casa e empina o nariz
Ole yo li ero
O preguiçoso está satisfeito entre os passantes
O dara de eyin oju
Ele é belo até nos olhos
Okunrin sembeluju
Homem muito belo
Ogbe gururu si obè olori
Ele coloca um grande pedaço de carne no molho do chefe
A mò ona oko ko n ló
Ele conhece o caminho runsun redenreden
A mo ona runsun rdenreden
Ele conhece o caminho do campo e não vai lá
O duro ti olobi kò rà je
Ele está ao lado do dono dos obi e não os compra para comer
Rere gbe adie ti on ti iye
O gavião pega o frango com as penas
A noite coisa sagrada, de manhã coisa sagrada /
O bá enia jà o rerin sún
Ele briga com qualquer um e ri estranhamente
O se adibo o rin ngoro yo
Ele tem o hábito de andar como a um bêbado que bebeu
Ogola okun kò ka olugege li òrùn
Sessenta contas não podem rodear o pescoço de um papudo
Olugege jeun si okurú ofun
O papudo come no inchaço de sua garganta
O já gebe si orún eni li oni
Ele quebra o papo do pescoço daquele que o possui
O dahun agan li ohun kankan
Ele dá rapidamente crianças às mulheres estéreis
O kun nukuwa ninu rere
Ele guarda seus talismãs numa pequena cabaça
Ale rese owuro rese / Ere meji be rese
Duas vezes assim coisa sagrada
Koro bi eni lo
Rápido como alguém que parte
Arieri ewo ala
A proibição do pássaro branco é o pano branco
Ala opa fari
Ele mexe os braços fantasiosamente
Oko Ahotomi
Marido de Ahotomi
Oko Fegbejoloro
Marido de Fegbejoloro
Oko Onikunoro
Marido de Onikunoro
Oko Adapatila
Marido de Adapatila
Soso li owuro o ji gini mu òrún
Bem desperto, ele acorda de manhã já com o arco e flecha no pescoço
Rederede fe o ja kùnle ki agbo
Como um louco ele se debate para colocar os joelhos no chão, como o carneiro
Oko Ameri èru jeje oko Ameri
Marido de Ameri que dá medo
Ekùn o bi awo fini
Leopardo de pele bonita
Ogbon iyanu li ara eni iya ti n je
Ele expulsa a infelicidade do corpo de alguém que tem infelicidade
O wi be se be
Assim ele diz e assim ele faz
Sakoto abi ara fini
Orgulhoso que possui um corpo muito belo.


FRASE DE IMPACTO: Ològún , fihòn awo / Funfun lóni,ni òla / Ó yióó filhòn dúdú .> Logun, mostra a pele que desejar, se mostrar pele clara hoje, amanhã mostrará pele escura.

AFINIDADE > Comunicação, inteligência, comércio, artes.
ANIMAL > Peixe, raposa.
ANIMAL VOTIVO > Camaleão e pavão.
ARQUÉTIPO > Altruístas, abnegados, sinceros, simpáticos, tensos, austeros, possuem senso de coletividade, calmos, desprendidos, inconstantes, vaidoso e sonhadores.
ASTRO > Mercúrio.
ATIVIDADE > Caça e Pesca.
COMIDA > Odá, tatu, angolista, peixe, axoxó, omulucum, mandioca assada .
COR > Azul turquesa e o amarelo ouro.
DATA > 19 de abril.
DIA DA SEMANA > Quinta e sexta-feira.
DOENÇAS > Raquitismo, enxaqueca.
DOMÍNIOS > Riqueza, fartura e beleza.
ELEMENTO > Água -, terra+.
EMBLEMA > Ofá e abebé, cinco flechas em um mesmo arco que apontam para cima e oito folhas variadas.
FERRAMENTA > ofá em metal amarelo ogê ,um tipo de chifre de boi que é usado para emitir um som chamado Olugboohun , cuja tradução é O Senhor escuta minha voz, o Iru Kere ,cetro com rabo de cavalo, boi ou búfalo, que ele usa para manejar os espíritos da floresta.
FLORES > Lírios, rosas amarelas, palma, girassol e todas as flores miudinhas.
FOLHAS > Oripepê e todas as folhas de Odé e Oxum.
FRUTA > Melão, laranja, coco, ameixa amarela, manga, banana-maçã, mamão.
METAL > Cobre, ouro, latão, mercúrio, bronze .
NATUREZA > Instável, oscilante, dual.
NÚMERO > 04, 08, 16.
ODU QUE REGE > Obará e Osé.
PARTE DO CORPO > Aparelho respiratório, genital e nervoso, antebraço, braço, cabelo do corpo e pulmão, todo o rosto, o baixo ventre, o baço, às vezes o coração; patrono do ventre, da terceira visão e da circulação sangüínea.
PEDRAS > Topázio e turquesa.

PERFUME > Lavanda.
PLANTA > Salsa, malva, lavanda, verbena e as mesmas de Odé e Oxum.
REGIÃO DA ÁFRICA > Ilesá.
REPRESENTAÇÃO > Cavalo marinho.
SAUDAÇÃO > Logun ô akofá! ou Loci loci Logun!
SINCRETISMO > São Miguel Arcanjo.
SÍMBOLOS> Balança, ofá, abebè e cavalo-marinho.
TOQUE > Jexá e barravento.

sexta-feira, 15 de maio de 2020

OXALÁ – JESUS CRISTO.

Oxalá é Orixá maior da Umbanda, Ele é a própria Umbanda em sua magnitude, sua cor é o branco, representando a paz, o amor, a bondade, a limpeza, a pureza espiritual, enfim, tudo aquilo que possa indicar positividade. Os domínios de Oxalá são todas as pessoas e todos os lugares. Seu reino é o nosso mundo.
Jesus Cristo é o chefe supremo da Umbanda, sincretizado a Oxalá, para Ele convergem todas as outras linhas da Umbanda e de seus trabalhadores. Todos os espíritos que trabalham na Umbanda tem por Jesus Cristo enorme devoção e aos ensinamentos de seu Evangelho seguem fervorosamente, transmitindo-os sempre a todos que a seus ensinamentos não conhecem.
O sincretismo Oxalá – Jesus Cristo é perfeito, pode-se dizer que ambos são o mesmo ser com nomes diferentes. Dentro de uma análise lógica, não podemos dizer que ambos são o mesmo ser, já que dentro dessa lógica, um Orixá é um ser espiritual que nunca encarnou na Terra e Jesus esteve entre nós a dois mil anos. Isso, no entanto, isso não nos importa, importa apenas, que o sincretismo perfeito de ambos, impera dentro de nossos templos.
Não importa como os chamamos, se de Jesus Cristo ou de Oxalá. De Oxalá conhecemos muito pouco; de Jesus, no entanto, conhecemos a sua vida e a sua obra. A Ele devemos obediência e obrigação de aprender com os ensinamentos de seu Evangelho e acima de tudo, de praticarmos esses ensinamentos. Jesus ama a todos nós, bons ou maus, justos ou injustos, ricos ou pobres, brancos ou negros, homens ou mulheres.
Todos os Orixás da Umbanda seguem a Oxalá, pregam a sua doutrina e seus ensinamentos. Todos os espíritos seguidores de Jesus Cristo, trabalhadores ou não na Umbanda, lutam contra as forças do mal, anulando trabalhos de magia negativa ou outros tipos de maldade, gerados ou não por feitiços. Esses seguidores intrometem-se nos lugares aonde o mal é praticado e anulam ou minoram os efeitos desses trabalhos do mal e prosseguem na incansável luta contra essas forças, pregando sempre a fé em Deus, a caridade, o amor ao próximo e a fraternidade.

Na divisão da linha de Oxalá, os Santos Católicos chefiam diversas falanges, tornando ainda mais forte o sincretismo religiosos existente na Umbanda, por esse motivo à linha de Oxalá também é conhecida como linha de santo.
A forma de cultuar Oxalá na Umbanda, hoje é totalmente deturpada pela grande maioria dos terreiros. Esse fato deve-se a busca de conhecimentos de alguns chefes de terreiro do passado, que foram buscar no Candomblé os conhecimentos necessários para conduta de um terreiro, implantando na Umbanda, rituais e dogmas que nada tem em comum com as nossas práticas.

Aprendemos que a forma de agradar Oxalá são as orações e a boa conduta como ser humano. A irradiação de Oxalá ultrapassa qualquer culto a qualquer Orixá, desta forma é desnecessário fazer obrigações com objetos de qualquer tipo, mas como em qualquer terreiro, no nosso também, as obrigações e as formas de cultuar são ensinadas desse modo aos nossos seguidores:
Velas brancas (se você souber o que está fazendo com elas), cravos brancos, água pura (embora Orixás não bebam) e mel (embora não comam).
O local para fazer sua obrigação pode ser qualquer lugar, como já citamos o reino de Oxalá é o mundo, desta forma, você pode cultuá-lo em qualquer lugar desde que esse lugar esteja limpo. Só para lembrete cemitérios e encruzilhadas não são lugares limpos.
Você pode fazer sua obrigação em sua casa, no terreiro, nas praias, nos bosques, nas matas, nas igrejas (se o padre deixar ou não ver), nos jardins, etc. Não importará o local, importará apenas a sua fé e a sua devoção no que está fazendo.

Cor...............Branco
Domínios....... O mundo
Atuação.........Sobre tudo e todos
Saudação.......Zambi é meu pai, ou Epa Babá Oxalá
Elemento.......Terra, Água, Ar e Fogo

Comentário do Pai de Santo
Jesus Cristo é o mentor da Umbanda, o convívio do cristianismo entre nós muito nos ensinou. A Egrégora Cristã foi vitoriosa em relação ao paganismo, já que Jesus edificou Sua igreja em Roma, a sede do mundo pagão naqueles tempos. E Jesus através de suas curas, de suas parábolas, de seus milagres e principalmente de seu ensino moral, deixou nas mãos da humanidade os meios para evoluir espiritualmente.
Pregou sempre o amor ao próximo e o perdão das ofensas, lutou bravamente contra a hipocrisia e a maldade reinantes naquela época. Todos os trabalhadores da Umbanda sejam caboclos, pretos velhos ou outras entidades que comparecem aos nossos templos, pregam esses ensinamentos.
De todos os ensinamentos de Jesus, um é supremo:

“O perdão sem limites”.
Isso foi o que Ele nos ensinou em vida e na hora de sua morte, pedindo a Deus o perdão para aqueles que o colocaram na cruz.
Se não conseguimos ainda ser como Jesus e perdoar as grandes dores, traições e ofensas devemos então ao menos perdoar as pequenas faltas.
Orixás não comem, desta forma não há necessidade de oferendas para Oxalá com frutas, canjicas, manjares, arroz doce, etc.
Lemos muita coisa a respeito de obrigações aos Santos e aos Orixás, fizeram uma verdadeira salada de objetos e bebidas e as implantaram em seus seguidores fanáticos, essas obrigações vão desde as mais simples oferendas, até as matanças sem fundamento feitas em seus nomes.


SENHOR EXU CAVEIRA

Breve preleção aos médiuns protegidos de minha falange e, portanto, sob minha tutela pessoal. Sou exu, assentado nas forças do Sagrado Omulu e sob sua irradiação divina trabalho. Fui aceito pelo Divino Trono Mehor-yê e nomeado Exu a mais ou menos dois milênios, depois de minha última passagem pela terra, a qual fui um pecador miserável e desencarnei amarrado ao ódio, buscando a vingança, dando vazas ao meu egoísmo, vaidade e todos os demais vícios humanos que se possa imaginar. Fui senhor de um povoado que habitava a beira do grande rio sagrado. Nossa aldeia cultuava a natureza e inocentemente fazia oferendas cruéis de animais e fetos humanos. Até que minha própria mulher engravidou e o sumo sacerdote, decidiu que a semente que crescia no ventre de minha amada, devia ser sacrificado, para acalmar o deus da tempestade. Obviamente eu não permiti que tal infortúnio se abatesse sobre minha futura família, até porque se tratava do meu primeiro filho. Mas todo o meu esforço foi em vão. Em uma noite tempestuosa, os homens da aldeia reunidos, invadiram minha tenda silenciosamente, roubaram minha mulher e a violentaram, provocando imediato aborto e com o feto fizeram a inútil oferenda no poço dos sacrifícios. Meu peito se encheu de ódio e eu nada fiz para conte-lo. Simplesmente e enquanto houve vida em mim, eu matei um por um dos algozes de minha esposa inclusive o tal sacerdote. Passei a não crer mais em deuses, pois o sacrifício foi inútil. Tanto que meu povoado sumiu da face da terra, soterrado pela areia, tamanha foi a fúria da tempestade. De repente o que era rio virou areia e o que areia virou rio. Mas meu ódio persistia. Em meus olhos havia sangue e tudo o que eu queria era sangue. Sem perceber estava sendo espiritualmente influenciado pelos homens que matei, que se organizaram em uma trevosa falange a fim de me ver morto também. O sacerdote era o líder. Passei então a ser vítima do ódio que semeei. Sem morada e sem rumo, mas com um tenebroso exército de homens odiosos, avançamos contra várias aldeias e povoados, aniquilando vidas inocentes e temerosamente assombrando todo o Egito antigo. Assim invadimos terras e mais terras, manchamos as sagradas águas do Nilo de sangue, bebíamos e nos entregávamos às depravações com todas as mulheres que capturávamos. Foi uma aventura horrível. Quanto mais ódio eu tinha, mais eu queria ter. Se eu não podia ter minha mulher, então que nenhum homem em parte alguma poderia ter. Entreguei-me a outros homens, mas ao mesmo tempo violentava bruscamente as mulheres. As crianças, lamentavelmente nós matávamos sem piedade. Nosso rastro era de ódio e destruição completas. Até que chegamos aos palácios de um majestoso faraó, que também despertava muito ódio em alguns dos mais interessados em destruí-lo, pois os mesmos não concordavam com sua doutrina ou religião. Eis que então fomos pagos para fazer o que tínhamos prazer em fazer, matar o faraó. Foi decretada então a minha morte. Os fiéis soldados do palácio, que eram muito numerosos, nos aniquilaram com a mesma impiedade que tínhamos para com os outros. Quem com ferro fere, com ferro será ferido. Isto coube na medida exata para conosco. Parti para o inferno. Mas não falo do inferno ao qual os leitores estão acostumados a ouvir nas lendas das religiões efêmeras que pregam por aí. O inferno a que me refiro é o inferno da própria consciência. Este sim é implacável. Vendo meu corpo inerte, atingido pelo golpe de uma espada, e sangrando, não consegui compreender o que estava acontecendo. Mas o sangue que jorrava me fez recordar-me de todas as minhas atrocidades. Olhei todo o espaço ao meu redor e tudo o que vi foram pessoas mortas. Tudo se transformou de repente. Todos os espaços eram preenchidos com corpos imundos e fétidos, caveiras e mais caveiras se aproximavam e se afastavam. Naquele êxtase, cai derrotado. Não sei quanto tempo fiquei ali, inerte e chorando, vendo todo aquele horror. Tudo era sangue, um fogo terrível ardia em mim e isso era ainda mais cruel. Minha consciência se fechou em si mesma. O medo se apossou de mim, já não era mais eu, mas sim o peso de meus erros que me condenava. Nada eu podia fazer. As gargalhadas vinham de fora e atingiam meus sentidos bem lá no fundo. O medo aumentava e eu chorava cada vez mais. Lá estava eu, absolutamente derrotado por mim mesmo, pelo meu ódio cada vez mais sem sentido. Onde estava o amor com que eu construí meu povoado? Onde estavam meus companheiros? Minha querida esposa? Todos me abandonaram. Nada mais havia a não ser choro e ranger de dentes. Reduzi-me a um verme, jogado nas trevas de minha própria consciência e somente quem tem a outorga para entrar nesta escuridão é que pode avaliar o que estou dizendo, porque é indescritível. Recordar de tudo isto hoje já não me traz mais dor alguma, pois muito eu aprendi deste episódio triste de minha vida espiritual. Por longos anos eu vaguei nesta imensidão escura, pisoteado pelos meus inimigos, até o fim das minhas forças. Já não havia mais suspiro, nem lágrimas, nem ódio, nem amor, enfim nada que se pudesse sentir. Fui esgotado até a última gota de sangue, tornei-me um verme. E na minha condição de verme, eu consegui num último arroubo de minha vil consciência pedir socorro a alguém que pudesse me ajudar. Eis que então, depois de muito clamar, surgiu um alguém que veio a tirar-me dali, mesmo assim arrastado. Recordo-me que estava atado a um cavalo enorme e negro e o cavaleiro que o montava assemelhava-se a um guerreiro, não menos cruel do que fui. Depois de longa jornada, fui alojado sobre uma pedra. Ali me alimentaram e cuidaram de mim com desvelo incompreensível. Será que ouviram meus apelos? Perguntava-me intimamente. Sim claro, senão ainda estaria lá naquele inferno, respondia-me a mim mesmo. “–Cale-se e aproveite o alvitre que vosso pai vos concedeu.”- Disse uma voz vinda não sei de onde. O que eu não compreendi foi como ele havia me ouvido, já que eu não disse palavra alguma, apenas pensei, mas ele ouviu. Calei-me por completo. Por longos e longos anos fiquei naquela pedra, semelhante a um leito, até que meu corpo se refez e eu pude levantar-me novamente. Apresentou-se então o meu salvador. Um nobre cavaleiro, armado até os dentes. Carregava um enorme tridente cravado de rubis flamejantes. Seu porte era enorme. Longa capa negra lhe cobria o dorso, mas eu não consegui ver seu rosto. – Não tente me olhar imbecil, o dia que te veres, verás a mim, porque aqui todos somos iguais. Disse o homem em tom severo. Meu corpo tremia e eu não conseguia conter, minha voz não saia e eu olhava baixo, resignando-me perante suas ordens. - Fui ordenado a conduzir-lhe e tenho-te como escravo. Deves me obedecer se não quiser retornar àquele antro de loucos que estavas. Siga minhas instruções com atenção e eu lhe darei trabalho e comida. Desobedeça e sofrerás o castigo merecido. - Posso saber seu nome, nobre senhor? - Por enquanto não, no tempo certo eu revelarei, agora cale-se, vamos ao nosso primeiro trabalho. - Esta bem. Segui o homem. Ele a cavalo e eu corria atrás dele, como um serviçal. Vagamos por aqueles lugares sujos e realizamos várias tarefas juntos. Aprendi a manusear as armas, que me foram dadas depois de muito tempo. Aos poucos meu amor pela criação foi renascendo. As várias lições que me foram passadas me faziam perceber a importância daqueles trabalhos no astral inferior. Gradativamente fui galgando os degraus daquele mistério com fidelidade e carinho. Ganhei a confiança de meu chefe e de seus superiores. Fui posto a prova e fui aprovado. Logo aprendi a volitar e plasmar as coisas que queria. Foram anos e anos de aprendizado. Não sei contar o tempo da terra, mas asseguro que menos de cem anos não foram. Foi então que numa assembléia repleta de homens iguais ao meu chefe, eu fui oficialmente nomeado Exu. Nela eu me apresentei ao Senhor Omulu e ao divino trono de Mehor-yê, assumindo as responsabilidades que todo Exu deve assumir se quiser ser exu. - Amor a Deus e às suas leis; - Amor à criação do Pai e a todas as suas criaturas; - Fidelidade acima de tudo; - Compreensão e estudo, para julgar com a devida sabedoria; - Obedecer às regras do embaixo, assim como as do encima; E algumas outras regras que não me foi permitido citar, dada a importância que elas têm para todos os Exus. A principio trabalhei na falange de meu chefe, por gratidão e simpatia. Mas logo surgiu-me a necessidade de ter minha própria falange, visto que os escravos que capturei já eram em grande número. Por esta mesma época, aquele antigo sacerdote, do meu povoado, lembram-se? Pois é, ele reencarnou em terras africanas e minha esposa deveria ser a esposa dele, para que a lei se cumprisse. Vendo o panorama do quadro que se formou, solicitei imediatamente uma audiência com o Divino Omulu e com O Senhor Ogum – Megê e pedi que intercedessem para que eu pudesse ser o guardião de meu antigo algoz. Meu pedido foi atendido. Se eu fosse bem sucedido poderia ter a minha falange. Assim assumi a esquerda do sacerdote, que, na aldeia em que nasceu, foi preparado desde menino para ser o Babalorixá, em substituição ao seu pai de sangue. A filha do babalaô era minha ex esposa e estava prometida ao seu antigo algoz. Assim se desenvolveu a trama que pôs fim às nossas diferenças. Minha ex-mulher deu a luz a vinte e quatro filhos e todos eles foram criados com o devido cuidado. Muito trabalho eu tive naquela aldeia. Até que as invasões e as capturas e o comércio de negros para o ocidente se fizeram. Os trabalhos redobraram, pois tínhamos que conter toda a revolta e ódio que emanava dos escravos africanos, presos aos porões dos navios negreiros. Mas meu protegido já estava velho e foi poupado, porém seus filhos não, todos foram escravizados. Mas era a lei e ela deveria ser cumprida. Depois de muito tempo uma ordem veio do encima: “Todos os guardiões devem se preparar, novos assentamentos serão necessários, uma nova religião iria nascer, o que para nós era em breve, pois não sei se perceberam, mas o tempo espiritual é diferente do tempo material. Preparamo-nos, conforme nos foi ordenado. Até que a Sagrada Umbanda foi inaugurada. Então eu fui nomeado Guardião à esquerda do Sagrado Omulu-yê e então pude assumir meu trono, meu grau e meus degraus. Novamente assumi a obrigação de conduzir meu antigo algoz, que hoje já está no encima, feito meritóriamente alcançado, devido a todos os trabalhos e sacrifícios feitos em favor da Umbanda e do bem. Hoje, aqui de meu trono no embaixo, comando a falange dos Exus Caveira e somente após muitos e muitos anos eu pude ver minha face em um espelho e notei que ela é igual à de meu tutor querido o Grande Senhor Exu Tatá Caveira, ao qual devo muito respeito e carinho. Não confundam Exu Caveira, com Exu Tatá Caveira, os trabalhos são semelhantes, mas os mistérios são diferentes. Tatá Caveira trabalha nos sete campos da fé; Exu caveira trabalha nos mistérios da geração na calunga, porque é lá que a vida se transforma, dando lugar à geração de outras vidas, mas não se esqueçam que há sete mistérios dentro da geração, principalmente a Lei Maior, que comanda todos os mistérios de qualquer Exu. Onde há infidelidade ou desrespeito para com a geração da vida ou aos seus semelhantes, Exu Caveira atua, desvitalizando e conduzindo no caminho correto, para que não caiam nas presas doloridas e impiedosas do Grande Lúcifer-Yê, pois não desejo a ninguém um décimo do que passei. Se vossos atos forem bons e louváveis perante a geração e ao Pai Maior, então vitalizamos e damos forma a todos os desejos de qualquer um que queira usufruir dos benefícios dos meus mistérios. De qualquer maneira, o amor impera, sim o amor, e por que Exu não pode falar de amor? Ora se foi pelo amor que todo Exu foi salvo, então o amor é bom e o respeito a ele conserva-nos no caminho. Este é o meu mistério. Em qualquer lugar da calunga, pratique com amor e respeito a sua religião e ofereça velas pretas, vermelhas e roxas, farofa de pinga com miúdos de boi. Acenda de um a sete charutos, sempre em números ímpares e aguardente. De acordo com o número de velas, se acender sete velas, assente sete copos e sete charutos, assim por diante. Agrupe sempre as velas da mesma cor juntas e forme um triângulo com o vórtice voltado para si, as velas roxas no vórtice, as pretas à esquerda e as vermelhas à direita, simbolizando a sua fidelidade e companheirismo para conosco, pois Exu Caveira abomina traição e infidelidade, como, por exemplo, o aborto, isto não é tolerado por mim e todos os que praticam tal ato é então condenado a viver sob as hostes severas de meu mistério. Peça o que quiser com fé, e com fé lhes trarei, pois todos os Exus Caveira são fiéis aos seus médiuns e àqueles que nos procuram. A falange de Exus Caveira pertence à falange do Grande Tatá Caveira, que é o pai de todos os Exus assentados à esquerda do Divino Omulu, os demais não posso citar, falo apenas do meu mistério, pois dele eu tenho conhecimento e licença para abrir o que acho necessário e básico para o vosso aprendizado, quanto ao mais, busquem com vossos Exus pessoais, que são grandes amigos de seus filhos e certamente saberão orientar com carinho sobre vossas dúvidas. Um último detalhe a ser revelado é que todos os que têm Exu Caveira como Exu de trabalho ou protetor, é porque em algum momento do passado, pecaram contra a criação ou à geração e ambos, protetor e protegido tem alguma correlação com estes atos errôneos de vidas anteriores. Tenham certeza, se seguirem corretamente as orientações, com trabalho e disciplina, o mesmo que sucedeu com meu antigo e grande sumo sacerdote, sucederá com vocês também, porque este é o nosso desejo. Mais a mais, se um Exu de minha falange consegue vencer através de seu médium ou protegido, ele automaticamente alcança o direito de sair do embaixo e galgar os degraus da evolução em outras esferas. Que o Divino Pai maior possa lhes abençoar e que a Lei Maior e a Justiça Divina lhes dêem as bênçãos de dias melhores.
Com carinho Senhor Exu Caveira.

JOGO DE BÚZIOS

Mérìndilogún – 16 Búzios. No Brasil foi introduzido o jogo de divinação feito com 16 Búzios (kawrís), sistema trazido e aperfeiçoado na Áfri...